Grandes crises religiosas e geopolíticas frequentemente despertam ondas de especulação profética em alguns círculos cristãos. Lembro-me de uma situação que vivi, envolvendo alguns líderes de minha sede distrital e um pequeno grupo dedicado a estudos escatológicos.
Os participantes eram sinceros. Um deles, com quem eu tinha grande proximidade, comentou comigo que o instrutor pertencia a uma família tradicional da igreja. Era zeloso pelo estudo da Bíblia e dos escritos de Ellen White, e havia preparado um extenso material sobre profecias. Segundo o autor, a igreja se recusara a avaliar o conteúdo, embora ele afirmasse seguir nossos princípios de interpretação.
Eu era um jovem pastor, ainda não ordenado, que tinha pouca experiência ministerial. Contudo, percebi que havia algo estranho naquela história. Durante a conversa, pedi ao meu amigo que me emprestasse a apostila. Empolgado, ele disse que solicitaria ao líder um kit de estudos para mim. Ainda naquela semana, recebi um envelope com uma carta de apresentação e um volumoso material de estudo.
Nos dias que se seguiram, debrucei-me sobre as teorias propostas pelo autor. O conteúdo era marcado por sensacionalismo, distorções exegéticas, citações de Ellen White fora do contexto e conclusões que pretendiam ser uma “nova luz” para a teologia adventista. Com objetividade, comecei a marcar as inconsistências do material e a reunir literatura produzida pela igreja que refutava aquelas teses com pesquisa sólida, equilibrada e coerente com os princípios interpretativos adotados pela denominação.
Quando visitei o irmão que havia me contado sobre o grupo, levei comigo a apostila toda marcada, além de artigos e livros escritos por respeitados teólogos adventistas. Pouco depois de nos assentarmos em sua sala, ele me perguntou: “Então, pastor. Leu o material? O que achou?”
Minha resposta foi objetiva: “Meu irmão, eu li. Não há nada de novo debaixo do sol.” Em seguida, mostrei as marcações, apresentei as inconsistências e expliquei os problemas centrais daquelas interpretações.
Ao fim da conversa, aquele amigo me disse: “Obrigado, pastor! Não participarei mais do pequeno grupo. Vou avisar os demais membros de nossa igreja para não irem também.”
Pela graça de Deus, as pessoas envolvidas foram receptivas às explicações e deixaram de acompanhar aquelas ideias equivocadas. O tempo passou e, evidentemente, aquelas teorias não se cumpriram. Quem deposita confiança em especulações escatológicas sempre acaba frustrado.
De fato, “temos ainda mais segura a palavra profética”, e devemos “dar atenção a ela, como a uma luz que brilha em lugar escuro, até que o dia clareie e a estrela da alva nasça” em nosso coração (2 Pedro 1:19). Como parte de um movimento profético, precisamos estar atentos aos pregadores persuasivos, mas distantes de uma teologia equilibrada, que se valem do sensacionalismo diante de eventos de grande repercussão para gerar falsas expectativas.
A profecia bíblica não produz ansiedade especulativa, mas fidelidade perseverante. Afinal, “a esperança não nos deixa decepcionados” (Romanos 5:5). Ela fortalece nossa confiança de que, “ainda dentro de pouco tempo, Aquele que vem virá e não irá demorar; mas o Meu justo viverá pela fé” (Hebreus 10:37, 38).
WELLINGTON BARBOSA é editor da Revista Adventista
(Edtorial da Revista Adventista de junho/2026)


