Jael Eneas de Araujo
O septuagenário José dos Santos Souza, morador de Indaiatuba, no interior paulista, fez história. Era 2016, ano do centenário da Igreja Adventista na América do Sul. Apesar da idade, José permanecia em pé à entrada da igreja central, ouvindo, na manhã de sábado, 7 de maio, a apresentação do projeto Impacto Esperança.
Seria uma iniciativa missionária de grande alcance. A caravana seria composta por alunos e servidores do Unasp, campus Hortolândia, além da Reitoria, do IATec e de representantes de oito sedes da Igreja Adventista no estado de São Paulo. A programação incluiria ainda uma homenagem póstuma a um dos pioneiros do adventismo no Brasil, Guilherme Stein Jr., sepultado no principal cemitério da cidade. Tudo estava preparado para tornar o evento memorável!
Ao término da apresentação, José Souza não se intimidou. Aproximou-se da equipe e fez um pedido: “Vocês não poderiam passar no meu PG?” A solicitação surpreendeu, não apenas por se tratar de um idoso, mas de alguém ainda plenamente ativo na missão. Em seu pequeno grupo, reuniam-se vários estudantes da Bíblia, todos moradores do Jardim Itamaracá, bairro próximo à igreja central.
O dia do Impacto Esperança chegou. Dezesseis ônibus, além de carros e vans, percorreram as ruas de Indaiatuba. Centenas de duplas distribuíam o livro missionário em casas e condomínios. Na praça, a feira de saúde promovia o estilo de vida saudável, enquanto, nos cruzamentos, a fanfarra do Clube de Desbravadores dava ritmo à campanha.
A visita ao PG do irmão José ocorreu às 13 horas daquele sábado histórico. Um detalhe chamou atenção: as reuniões aconteciam na casa das irmãs Terezinha, de 74 anos, e Ângela, de 69, que gentilmente cediam a residência. Ao fim do encontro, elas disseram aos pastores presentes: “Queremos abrir uma nova igreja neste bairro!”
Dez anos se passaram. Atualmente, o Jardim Itamaracá conta com presença adventista consolidada. O que antes era um pequeno grupo transformou-se em igreja organizada em 2022, e o início das construções deve ocorrer em breve. A intrepidez e a visão missionária desses idosos deixaram um precioso legado.
E o que fazem hoje os protagonistas dessa história: José, aos 80 anos; Terezinha, aos 84; e Ângela, aos 79? Permanecem ativos em suas igrejas e seguem envolvidos na missão. Há um ano, inclusive, José Souza passou a colaborar na implantação de um novo grupo no Jardim Valença.
Vitrine bíblica
O Antigo Testamento registra diversos personagens idosos que desempenharam papel decisivo na história. Calebe tinha 85 anos quando se apresentou para conquistar Hebrom, dizendo: “Dê-me agora este monte de que o Senhor falou naquele dia, pois, naquele dia, você ouviu que lá estavam os anaquins, morando em cidades grandes e fortificadas. Se o Senhor Deus estiver comigo, poderei expulsá-los, como Ele mesmo prometeu” (Josué 14:12). Sua justificativa impressiona: “Estou tão forte hoje como no dia em que Moisés me enviou. A força que eu tinha naquele dia eu ainda tenho agora, tanto para combater na guerra como para fazer o que for necessário” (v. 11).
De igual forma, a Bíblia afirma que o patriarca Abrão tinha 75 anos quando deixou Harã em direção a uma terra desconhecida (Gênesis 12:4). Sua trajetória é marcada pela superação e pela plena confiança em Deus. Aos 99 anos, o Todo-Poderoso mudou seu nome para Abraão e reafirmou a aliança de que ele seria pai de “uma descendência muito numerosa” (Gênesis 17:1, 2, 7, 8). Contudo, a promessa se cumpriu apenas quando Sara tinha 90 anos e Abraão, 100 (Gênesis 17:17; 21:5). Que extraordinária experiência de fé!
A dupla Moisés, aos 80 anos, e Arão, aos 83, também impressiona. Embora octogenários, aceitaram o desafio de levar a mensagem do Senhor diante do faraó: “Deixe o Meu povo ir” (Êxodo 5:1).
Durante 40 anos, Moisés, como aluno da “Universidade do Deserto”, aprendeu lições de humildade e confiança em Deus. Diante do chamado divino, questionou: “Quem sou eu para ir a Faraó e tirar do Egito os filhos de Israel?” A resposta veio de forma direta e encorajadora: “Eu estarei com você” (Êxodo 3:11, 12).
Moisés, porém, insistiu diante de Deus: “Ah! Senhor! Eu nunca fui eloquente, nem no passado, nem depois que falaste a Teu servo, pois sou pesado de boca e pesado de língua” (Êxodo 4:10).
Então o Senhor lhe respondeu: “Veja, Eu o constituí como Deus sobre Faraó, e o seu irmão Arão será o seu profeta. Você falará tudo o que Eu lhe ordenar e Arão, seu irmão, falará a Faraó, para que deixe sair da sua terra os filhos de Israel” (Êxodo 7:1, 2). Embora a idade possa trazer limitações, Deus concede, nessa fase da vida, preciosas oportunidades para viver experiências extraordinárias de aprendizado.
A Bíblia raramente menciona a idade de mulheres. Além de Sara, no Antigo Testamento, o evangelho de Lucas revela a idade de Ana, a profetisa. Após a morte do esposo, com quem viveu apenas sete anos, Ana passou a se dedicar a orações, jejuns e súplicas. O texto destaca que, na condição de “viúva de oitenta e quatro anos”, ela reconheceu no menino Jesus o cumprimento da promessa de redenção (Lucas 2:36-38). Deus concedeu a uma mulher idosa, marcada por perdas e tragédias, o privilégio de profetizar sobre Cristo no momento de Sua apresentação no templo.
Marcas de uma jornada
O Salmo 92 apresenta a caminhada do justo como uma trajetória de crescimento contínuo, na qual a velhice representa o auge da experiência: “Os justos florescerão como a palmeira, crescerão como o cedro do Líbano; plantados na casa do Senhor, florescerão nos átrios do nosso Deus. Mesmo na velhice darão fruto, permanecerão viçosos e verdejantes, para proclamar que o Senhor é justo” (Salmo 92:12-15, NVI).
O cântico se inicia com um convite: “Como é bom render graças ao Senhor e cantar louvores ao Teu nome, ó Altíssimo, anunciar de manhã o Teu amor leal e de noite a Tua fidelidade” (Salmo 92:1, 2, NVI). Composto para ser acompanhado por harpa e saltério, o salmo incentiva o justo a reconhecer, ao longo de sua trajetória, os atos poderosos de Deus em seu favor (v. 5). Há uma razão para isso: todos os que permanecem “plantados na casa do Senhor” têm a face iluminada pela alegria que vem do Céu (v. 4, 13).
Quando a velhice chega, a trajetória da vida se renova. Guiados pelo Espírito Santo, os idosos são incentivados a continuar crescendo e a tornar-se referência para a família, a igreja e a comunidade (v. 14, 15). Nessa fase, as realizações transcendem a própria história, pois se transformam em memórias vivas para as gerações seguintes.
A comparação bíblica entre a palmeira e a pessoa idosa evidencia a atuação do Espírito Santo na maturidade cristã. Assim como a palmeira desenvolve raízes profundas, capazes de buscar água e sobreviver em ambientes hostis, o cristão maduro fortalece vínculos familiares, preserva laços sociais e compartilha fé e esperança mesmo em meio às adversidades.
Seu tronco ereto e flexível simboliza uma vida marcada pela integridade, pelo equilíbrio e pela capacidade de ensinar e orientar pelo exemplo. A folhagem, organizada em torno de um eixo central, reflete uma experiência espiritual firmada em Deus, da qual procedem apoio, aconselhamento e cuidado para com os outros. Suas flores, pequenas, numerosas e aromáticas, lembram que o idoso guiado pelo Espírito jamais perde a oportunidade de ser o “bom perfume de Cristo” na comunidade de fé. Por fim, assim como a palmeira produz frutos abundantes e nutritivos, a pessoa idosa continua participando ativamente da missão da igreja, gerando frutos para a vida eterna.
Por sua vez, a comparação entre o cedro e a pessoa idosa ressalta a maturidade espiritual desenvolvida sob a ação do Espírito Santo. Assim como o cedro cresce lentamente e firma suas raízes entre as rochas, o cristão maduro aprende a permanecer firme diante das tempestades da vida, depositando plena confiança em Cristo, a Rocha eterna. Seu tronco resistente e durável simboliza uma fé fortalecida ao longo dos anos, capaz de resistir às ciladas do inimigo por meio de uma vida revestida da armadura de Deus.
A folhagem sempre verde e a copa acolhedora refletem a influência restauradora do idoso consagrado, que oferece encorajamento, cuidado e refrigério espiritual aos cansados e oprimidos. O aroma das flores lembra que sua vida de oração, súplica e intercessão atrai pessoas para mais perto de Cristo. Por fim, assim como o cedro espalha suas sementes ao vento, o cristão cheio do Espírito Santo amplia o alcance de seu testemunho e deixa um legado de fé e esperança para as próximas gerações.
Produção de frutos
O livro do Apocalipse encerra o Novo Testamento com uma certeza: Deus tem propósitos bem definidos para os idosos. A mais impactante revelação profética da história foi confiada ao apóstolo João em idade avançada, provavelmente entre os 80 e os 90 anos. Exilado na ilha de Patmos, ele recebeu a revelação de Jesus Cristo, concedida por Deus para mostrar aos Seus servos os acontecimentos que em breve haveriam de ocorrer (Apocalipse 1:1, 2, 10, 11).
O idoso João havia participado do círculo de amigos chegados de Jesus, ao lado de Pedro e Tiago. Testemunhou de perto os milagres do Mestre e, na crucifixão, foi o único dos discípulos a permanecer junto à cruz (João 19:25). Após retornar à cidade de Éfeso, continuou ativo no ministério, escreveu seu evangelho e as cartas joaninas, mantendo-se como uma das principais lideranças espirituais da comunidade cristã do primeiro século.
Ellen White destacou que foi justamente quando João passou a ser considerado um “caniço velho e quebrado, pronto para cair a qualquer momento” que ele não cessou de dar testemunho da verdade. “Sua mensagem era de alegria; proclamava um Salvador ressurreto que, no Céu, intercede por Seu povo até retornar e levá-lo para Si.”1 Não há limites para homens e mulheres que desejam florescer e produzir frutos para o Reino de Deus!
Os líderes adventistas das igrejas locais devem olhar para os idosos de suas congregações com entusiasmo. Por meio das quatro ênfases do planejamento estratégico da Divisão Sul-Americana, abrem-se amplas oportunidades para que as pessoas idosas colaborem de maneira significativa e intencional. Em diferentes épocas da história, houve servos de Deus em idade avançada que permaneceram fiéis ao dever “como a bússola o é ao polo”. Foram homens e mulheres que, no “íntimo de seu coração”, procuraram ser “verdadeiros e honestos”, não temeram “chamar o pecado pelo nome exato” e permaneceram “firmes pelo que é certo, ainda que caiam os céus”.2
Podemos associar as ênfases da igreja a personagens bíblicos experientes:
Identidade: Ao concluir seu ministério, Josué, em avançada idade, persuadiu o povo: “Escolham hoje a quem vão servir […]. Eu e a minha casa serviremos o Senhor” (Josué 24:15).
Liderança: O profeta Daniel permaneceu como conselheiro de reis em impérios na Babilônia e Pérsia até sua idade avançada.
Discipulado: A juíza Débora, profetisa e mãe em Israel, orientou Baraque a reunir o povo e subir o monte Tabor para orar, pois a vitória vem do Senhor (Juízes 4:14).
Novas gerações: Samuel implantou as primeiras escolas dos profetas, porém, na infância foi orientado pelo idoso Eli a dizer: “Fala, Senhor, porque o Teu servo ouve” (1 Samuel 3:10).
Vida dedicada
Os últimos anos da vida de Ellen White, uma das pioneiras da Igreja Adventista do Sétimo Dia, foram marcados por intensa atividade. Aos 64 anos, já viúva de Tiago White, ela se mudou para a Austrália, onde escreveu obras de grande relevância, entre elas Vida de Jesus e O Desejado de Todas as Nações. Foi também em solo australiano que recebeu orientações para a construção de um colégio missionário e de um sanatório nos arredores de Sydney.
Aos 73 anos, ela retornou aos Estados Unidos, onde manteve uma agenda repleta de compromissos. Nos últimos anos de sua vida (1900–1915), em Elmshaven, produziu e acompanhou a publicação de algumas de suas obras mais importantes. Segundo os depositários de seu patrimônio literário, “foram publicadas quase uma dúzia das suas melhores obras: Educação, A Ciência do Bom Viver, os volumes 6, 7, 8 e 9 dos Testemunhos Para a Igreja, Atos dos Apóstolos, Conselhos aos Pais, Professores e Estudantes, Obreiros Evangélicos, Life Sketches [Relatos da vida de Ellen White] e, por último, após sua morte, Profetas e Reis”.3
Há um chamado aos idosos: “Precisa-se agora da experiência dos idosos, porque Satanás está atento a toda oportunidade que tiver para que os antigos marcos da fé, que foram levantados como monumentos ao longo do caminho, sejam desprezados.”4
No simbolismo do salmo, a palmeira representa a resiliência, o sustento e a esperança em ambientes áridos, enquanto o cedro simboliza a longevidade e o testemunho permanente da fé ao longo da caminhada cristã. À medida que envelhece, o cedro do Líbano assume o papel de uma “árvore de acolhimento”: além de oferecer sombra, sua copa serve de abrigo para as aves. E, ao fim de seu ciclo, a árvore tomba para dar lugar aos cedros mais jovens. Que extraordinária lição de altruísmo! Seja você também uma referência de fé, serviço e esperança em sua igreja, em sua família e em sua comunidade.
JAEL ENEAS ARAUJO serviu à Igreja Adventista por 41 anos como pastor, e hoje é ancião de igreja e secretário da Associação dos Obreiros Adventistas Jubilados no estado de São Paulo
Referências
1 Ellen G. White, Atos dos Apóstolos (CPB, 2021), p. 365.
2 Ellen G. White, Educação (CPB, 2021), p. 40.
3 Ellen G. White, Princípios Sobre Aposentadoria (CPB, 2024), p. 5.
4 White, Princípios Sobre Aposentadoria, p. 19.
(Matéria de capa de Revista Adventista de julho/2026)




