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Face a face

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Escrito por A Redação

Deus promete um encontro que transformará para sempre a experiência dos salvos

Paulo Betim

Aesperança cristã em relação ao Céu é retratada por imagens de plenitude: corpos transformados e incorruptíveis (1 Coríntios 15:50-54), moradas celestiais preparadas por Cristo (João 14:1-3), banquete messiânico (Apocalipse 19:9), reunião com os heróis da fé (Hebreus 11:39, 40) e, sobretudo, o reencontro com aqueles que morreram em Cristo (1 Tessalonicenses 4:13-17). Além disso, Apocalipse apresenta a promessa de uma realidade caracterizada pelo “não mais”: não haverá mais lágrimas, dor nem morte (Apocalipse 7:16, 17; 21:1-4). Embora essas bênçãos sejam extraordinárias, as Escrituras indicam que o clímax não reside em dádivas ou recompensas secundárias, mas na experiência suprema de contemplar a face de Deus.

Deus invisível

O prólogo do evangelho de João declara: “Ninguém jamais viu Deus; o Deus unigênito, que está junto do Pai, é quem O revelou” (João 1:18). Em uma interpretação tradicional, compreende-se que Jesus veio tornar mais plena a compreensão a respeito de Deus apresentada no Antigo Testamento. Assim, Cristo veio ao mundo para revelar de maneira perfeita o caráter e a natureza do Pai invisível (João 14:6-11).

Essa compreensão é reforçada pelas reiteradas declarações de João acerca da inacessibilidade visual de Deus. Em conformidade com o prólogo de seu evangelho, ele afirmou: “Não que alguém tenha visto o Pai, a não ser Aquele que vem de Deus; este já viu o Pai” (João 6:46); “Vocês nunca ouviram a voz Dele, nem viram a Sua forma” (João 5:37); e “Nunca ninguém viu Deus” (1 João 4:12). Esses textos, portanto, constituem declarações contundentes de que o Pai jamais foi visto.

Além de João, o apóstolo Paulo declarou que Cristo é “a imagem do Deus invisível” (Colossenses 1:15), enquanto descreveu Deus como o “Rei eterno, imortal, invisível, Deus único” (1 Timóteo 1:17). Ele também afirmou que Deus é “o único que possui imortalidade, que habita em luz inacessível, a quem ninguém jamais viu, nem é capaz de ver” (1 Timóteo 6:16). À luz desses textos, fica evidente que a transcendência divina torna impossível uma visão direta do Pai à parte da mediação de Cristo. Somente por intermédio do Filho, o Deus invisível Se torna plenamente conhecido.

Embora João afirme que Deus não pode ser visto (João 1:18), a narrativa bíblica registra diversas ocasiões em que seres humanos tiveram experiências visuais da presença divina. Abraão recebeu visitantes celestiais associados à manifestação de Deus (Gênesis 18:1-15); Jacó declarou ter visto Deus face a face (Gênesis 32:30); e Josué encontrou-se com o Anjo do Senhor (Josué 5:13-15). De modo semelhante, Manoá e sua esposa concluíram ter visto Deus (Juízes 13:21, 22); Elias testemunhou manifestações extraordinárias da presença divina (1 Reis 19:11-18); e Isaías descreveu o esplendor de Deus em Seu trono (Isaías 6:1).

Moisés ocupa lugar singular nesse conjunto de relatos. Embora tenha sido informado de que ninguém poderia ver a face de Deus e permanecer vivo (Êxodo 33:20), desfrutou de uma comunhão excepcional com Ele, contemplando aspectos de Sua glória de maneira incomum (Êxodo 33:20-23; 34:6; Números 12:8; Hebreus 11:27). Esses relatos, portanto, indicam uma aparente tensão com a afirmação joanina, sugerindo que a percepção de Deus pode ocorrer de maneiras complexas e paradoxais.

Deus jamais foi visto. Mesmo nos relatos em que se sugere que algo de Deus tenha sido visto pelos seres humanos, os targuns aramaicos, que funcionavam como paráfrases do Antigo Testamento, costumavam recorrer a expressões indiretas para se referir ao nome divino, utilizando, por exemplo, o termo Memra (“Palavra”, em aramaico). Deus é agora visto na Palavra encarnada, o “Filho unigênito”.1

Senhor revelado

No Novo Testamento, a divindade de Cristo é reiteradamente afirmada. Ele é apresentado como eterno (João 1:1; 8:58; Hebreus 1:8, 12), criador (João 1:3; Colossenses 1:16; Hebreus 1:2), onisciente (João 2:24, 25), onipresente (Mateus 28:20) e possuidor de vida em Si mesmo (João 5:26). Suas ações também confirmam Sua natureza divina: Ele perdoa pecados (Marcos 2:5-12), reivindica o Reino como Seu (João 18:36) e aceita adoração (João 20:28).

De maneira explícita, o evangelho de João apresenta Jesus como o “Eu Sou” do Antigo Testamento, o Senhor que Se revelou aos patriarcas e profetas (cf. João 8:58; Êxodo 3:14). Ou seja, Aquele que apareceu a Moisés, reconhecido por Sua “misericórdia e fidelidade” (Êxodo 34:6), não é outro senão Jesus, que Se manifestou “cheio de graça e de verdade” (João 1:14) entre nós.

Portanto, a aparente tensão entre a invisibilidade de Deus (João 1:18; 1 Timóteo 6:16) e os relatos de visões teofânicas no Antigo Testamento se dissolve quando se compreende que o Pai sempre Se revelou por intermédio do Filho. Assim, Aquele que era contemplado nas manifestações divinas era o próprio Jesus. Sobre esse assunto, Ellen White declarou:

“Desde o pecado de nossos primeiros pais, não tem havido comunicação direta entre Deus e o ser humano. […] Toda a comunhão entre o Céu e a raça decaída tem sido por intermédio de Cristo. Foi o Filho de Deus que fez aos nossos primeiros pais a promessa de redenção. Foi Ele que Se revelou aos patriarcas. Adão, Noé, Abraão, Isaque, Jacó e Moisés […]. Cristo não somente foi o guia dos hebreus no deserto […] mas foi também Ele que deu a Israel a lei. Por entre a espantosa glória do Sinai, Cristo declarou aos ouvidos de todo o povo os dez preceitos da lei de Seu Pai. Foi Ele que deu a Moisés a lei gravada em tábuas de pedra.”2

Face a face

A questão escatológica permanece: os redimidos poderão contemplar Deus face a face? O apóstolo João afirmou: “Amados, agora somos filhos de Deus, mas ainda não se manifestou o que haveremos de ser. Sabemos que, quando Ele Se manifestar, seremos semelhantes a Ele, porque haveremos de vê-Lo como Ele é” (1 João 3:2). Mas a quem esse versículo se refere? O pronome “Ele” pode ser entendido como uma referência ao Pai, mencionado no versículo 1, mas também pode se referir à manifestação de Jesus em Sua vinda.

O Sermão da Montanha é considerado o maior discurso de Cristo, não apenas por sua extensão, mas também pela profundidade de seus ensinos. Nele, Jesus apresenta o coração do evangelho: um chamado a uma vida simples, pura e centrada em Deus. Entre as bem-aventuranças, encontra-se uma promessa que ecoa como um convite divino: “Bem-aventurados os limpos de coração, porque verão a Deus” (Mateus 5:8).

Jesus, sendo Deus, já habitava entre o povo e podia ser visto por todos. Até mesmo Sua forma glorificada foi contemplada por alguns de Seus discípulos na transfiguração (Mateus 17:1-9). Essa promessa, porém, tem caráter escatológico, o que sugere que o objeto dessa visão será Deus Pai.

Em Apocalipse 21:3, uma voz proclama a consumação eterna das bênçãos do evangelho: “Eis o tabernáculo de Deus com os seres humanos. Deus habitará com eles.” Assim como a Palavra Se tornou carne e “armou Sua tenda” entre nós (João 1:14), também a Terra renovada será marcada pela presença divina manifestada em meio à comunidade redimida, que reflete Sua glória. “Eles serão povos de Deus, e Deus mesmo estará com eles e será o Deus deles” (Apocalipse 21:3). As bênçãos da aliança prometidas em Jeremias 31:33 são agora estendidas a todos os povos, alcançando sua plena realização escatológica.3

No Apocalipse, encontramos a promessa de que os salvos “contemplarão a Sua face” (Apocalipse 22:4). À primeira vista, o texto pode parecer ambíguo, pois os versículos 1 e 3 mencionam o trono de Deus e do Cordeiro. Contudo, dos versículos 4 a 6, a referência recai predominantemente sobre Deus. É importante destacar que Apocalipse afirma repetidas vezes que o Cordeiro estará com os santos na eternidade (Apocalipse 7:9, 17; 14:1, 4).

A leitura mais natural, portanto, é compreender Apocalipse 21:3 e 22:4 como referências ao Pai. Do contrário, qual seria a relevância específica dessas declarações, considerando que a presença eterna do Cordeiro junto aos redimidos já é amplamente afirmada ao longo do livro?

Por causa da maldição que o pecado trouxe ao mundo, os seres humanos foram expulsos do jardim do Éden. Com a erradicação definitiva do pecado, o povo de Deus será conduzido de volta ao Éden restaurado. O maior de todos os privilégios desfrutados na Nova Jerusalém será contemplar a face do Pai. No decorrer da história, esse tem sido um dos mais profundos anseios dos filhos de Deus, algo que nem mesmo a Moisés foi concedido (Êxodo 33:18-20).

Esse desejo será finalmente realizado na Nova Jerusalém. Os remidos servirão ao Senhor e O adorarão continuamente (cf. Apocalipse 7:15). O nome de Deus estará na testa deles (Apocalipse 22:4), em contraste com aqueles que receberam a marca da besta (Apocalipse 15:2). A conclusão do grande conflito marcará o início de uma comunhão plena e íntima com Deus, e os justos reinarão para todo o sempre (Apocalipse 22:5).

Ellen White propôs uma reflexão: “E qual é a felicidade do Céu senão a de ver a Deus? Que maior júbilo poderá ter o pecador salvo pela graça de Cristo do que contemplar a face de Deus e tê-Lo por Pai?”4 Contudo, a contemplação do Pai não anula a presença eterna do Cordeiro. Apocalipse destaca que tanto Deus quanto o Cordeiro estarão no trono (Apocalipse 22:3, 4). A visão escatológica é, portanto, trinitária: o Pai, o Filho e o Espírito reinando juntos e compartilhando com os remidos uma comunhão plena.

Os novos corpos, as moradas celestiais e o reencontro com os remidos constituem bênçãos sublimes. No entanto, a razão suprema de o Céu ser o lugar ideal reside naquilo que transcende toda expectativa humana: contemplar a face de Deus. Essa é a promessa reservada aos limpos de coração e àqueles que, pela graça, foram santificados. Contemplar a face do Pai não é apenas o clímax da escatologia bíblica; é a própria consumação do plano da redenção: Deus habitando com Seu povo, face a face, por toda a eternidade.

PAULO BETIM é editor na Casa Publicadora Brasileira

Referências

¹ F. F. Bruce, Comentário Bíblico NVI (Vida, 2012), p. 1176.

² Ellen G. White, Patriarcas e Profetas (CPB, 2022), p. 312.

³ Bruce, Comentário Bíblico NVI, p. 1545.

⁴ Ellen G. White, Testemunhos Para a Igreja (CPB, 2021), v. 8, p. 218, 219.

(Artigo publicado na Revista Adventista de julho/2026)

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Equipe da Revista Adventista

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