Para muitos cristãos, o livro de Levítico é apenas um conjunto de leis ultrapassadas, restritas ao contexto do antigo Israel. Por essa razão, alguns acreditam que sua relevância tenha sido reduzida após o sacrifício de Cristo no Calvário. Contudo, essa compreensão é limitada e prejudicial, pois minimiza tanto a origem divina desse livro quanto a atualidade dos princípios que ele apresenta.
Na realidade, Levítico é “o embrião do evangelho e, a partir dele, o Novo Testamento pode ser mais bem compreendido”.1 A primeira parte do livro (capítulos 1 a 16) trata das normas relacionadas ao santuário; a segunda (capítulos 17 a 27) apresenta prescrições referentes à santidade na vida cotidiana. Nessa seção, destaca-se o capítulo 19, considerado por alguns estudiosos como “a mais elevada expressão da ética no Antigo Testamento”.2 Por meio de uma série de exortações, o texto evidencia a profunda relação entre a piedade pessoal e as responsabilidades para com o próximo.
Entre as dezenas de instruções contidas nesse capítulo, uma parece especialmente negligenciada pela sociedade contemporânea: “Fique em pé na presença dos idosos, honre a presença do ancião e tema o seu Deus. Eu sou o Senhor” (Levítico 19:32). Em uma cultura que exalta a juventude, a beleza e o vigor, essa ordem divina constitui um contraponto oportuno, que nos leva a refletir sobre uma virtude cada vez mais rara: a capacidade de reconhecer a riqueza presente nos cabelos brancos.
De fato, as cãs simbolizam muito mais do que a longevidade, digna de respeito. O cabelo grisalho “fala de batalhas combatidas, vitórias ganhas, fardos suportados e tentações vencidas. Fala de pés fatigados próximos de seu descanso, de lugares que logo ficarão vagos”.3 A sabedoria que acompanha os idosos convida os mais jovens a encontrar uma base sólida sobre a qual construir a própria trajetória, aprendendo com os acertos, os erros e as lições daqueles que já percorreram caminhos que eles apenas começam a trilhar.
Contudo, embora esse tesouro de experiências acumuladas esteja à disposição da sociedade, o que se observa no Brasil vai na contramão da orientação divina. De acordo com a Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos, entre janeiro e maio de 2026, foram registradas mais de 535 mil violações de direitos contra pessoas idosas no país.4 Isso inclui abandono, negligência e violência física, psicológica, patrimonial, financeira, institucional e sexual.
Como adventistas do sétimo dia, não podemos nos omitir diante dessa triste realidade. Em resposta à ordem do Senhor, devemos nos levantar para promover a valorização, o respeito, a dignidade e a proteção dos idosos, não somente em nossa comunidade de fé, mas também no contexto social onde exercemos nossa influência. Mais do que um dever moral, essa é uma expressão prática da santidade que Deus espera de Seu povo.
WELLINGTON BARBOSA é editor da Revista Adventista
Referências
1 F. D. Nichol (org.), Comentário Bíblico Adventista (CPB, 2011), v. 1, p. 749.
2 Mark F. Rooker, Leviticus (Broadman & Holman, 2000), v. 3A, p. 250.
3 Ellen G. White, Princípios Sobre Aposentadoria (CPB, 2024), p. 27.
4 Conselho Federal de Enfermagem, “Violência contra pessoas idosas cresce e mobiliza debate sobre envelhecimento no Brasil”, disponível em: https://www.cofen.gov.br/violencia-contra-pessoas-idosas-cresce-e-mobiliza-debate-sobre-envelhecimento-no-brasil.
(Editorial da Revista Adventista de julho/2026)


