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Presença ou espetáculo?

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Escrito por A Redação

Como distinguir a atuação genuína do Espírito de manifestações enganosas

Shawn Boonstra

Pouco tempo depois de me tornar adventista, acabei aceitando o convite de um amigo para visitar uma comunidade carismática que se reunia em um salão alugado do outro lado da cidade.

Olhando para trás, fica claro que participar daquele encontro não foi uma boa ideia. A mensagem do pregador me soou muito estranha. Em determinado momento, ele afirmou: “É aqui que vocês encontrarão o Espírito Santo.” Essa foi a primeira indicação de que algo estava errado, pois o Espírito Santo atua onde quer que você esteja. No entanto, o orador continuou: “Depois de dois ou três dias, a bênção do Espírito desaparece, e vocês terão que voltar para receber mais.”

Esse era outroproblema, haja vista que, do ponto de vista bíblico, Deus não designou nenhum indivíduo como único distribuidor de Suas bênçãos. Então veio a declaração que me fez levantar e sair do auditório: “Para receber o Espírito, você precisa esvaziar a mente e deixar acontecer.” Com isso, pessoas ao meu redor começaram a cair no chão, rindo descontroladamente.

Aquele era um movimento global conhecido como “Bênçãos de Toronto”. Seus praticantes promoviam o chamado “riso santo”, além de falarem em línguas estranhas. Com o tempo, o grupo se tornou ainda mais dramático, incluindo práticas como “latidos no Espírito”, enquanto pessoas se comportavam como animais. Chegaram a circular relatos de frequentadores que participavam dos encontros usando fraldas para agir como bebês, a fim de demonstrar um compromisso de “nascer de novo”. Certamente, nada disso encontra respaldo bíblico.

O que o Espírito realmente faz

Algumas pessoas caem na armadilha de pensar que supostos sinais são prova de salvação. Há quem argumente: “Você não será um cristão completo, a menos que comece a falar numa língua misteriosa.”

Não há evidência bíblica para essa afirmação. Além disso, todos os casos de falar em línguas no Novo Testamento envolveram idiomas reais. O Espírito Santo não anuncia Sua presença por meio de sinais sem sentido; Sua obra está centrada em conduzir as pessoas a Cristo. Jesus disse a Seus discípulos: “Quando Ele vier, convencerá o mundo do pecado, da justiça e do juízo: do pecado, porque eles não creem em Mim; da justiça, porque vou para o Pai, e vocês não Me verão mais; do juízo, porque o príncipe deste mundo já está julgado. […] Ele Me glorificará, porque vai receber do que é Meu e anunciará isso a vocês” (João 16:8-12, 14).

O Espírito Santo é a presença de Cristo neste mundo após Seu retorno ao santuário celestial. Sua missão é a mesma de Cristo: “buscar e salvar o perdido” (Lucas 19:10).

Na Sua ascensão, Jesus disse aos discípulos que eles conquistariam o mundo com o evangelho. “Mas vocês receberão poder, ao descer sobre vocês o Espírito Santo, e serão Minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e até os confins da Terra” (Atos 1:8). O início dessa obra ocorreria quando o Espírito Santo lhes concedesse poder. Em outras palavras, o Espírito foi dado à igreja a fim de capacitá-la para a missão.

No Pentecostes, enquanto a multidão se maravilhava com o milagre de ouvir os discípulos falarem em várias línguas, Pedro explicou o que estavam testemunhando com estas palavras: “Exaltado, pois, à direita de Deus, tendo recebido do Pai a promessa do Espírito Santo, derramou isto que vocês estão vendo e ouvindo” (Atos 2:33).

Poder para a tarefa

Séculos antes do Pentecostes, o salmista antecipou o que aconteceria no dia em que o sermão de Pedro influenciou milhares ao batismo: “Oh! Como é bom e agradável viverem unidos os irmãos! É como o óleo precioso sobre a cabeça, o qual desce pela barba, a barba de Arão, e desce para a gola de suas vestes. É como o orvalho do Hermom, que desce sobre os montes de Sião. Ali o Senhor ordena a sua bênção e a vida para sempre” (Salmo 133:1-3).

Em que outra ocasião os irmãos estiveram tão unidos? No dia de Pentecostes, quando estavam todos “reunidos no mesmo lugar” (Atos 2:1). Quem era Arão? O sumo sacerdote. O que o óleo simboliza? O Espírito Santo. Não é insignificante que Pedro tenha dito à multidão que Jesus acabara de ser “exaltado à direita de Deus” (v. 33). Muitos estudiosos sugerem que o Pentecostes coincidiu com o momento em que Jesus assumiu Sua posição como nosso Sumo Sacerdote no Céu, recebeu o Espírito Santo e o compartilhou com a igreja.

Isso significa que tudo é conduzido por Jesus, a partir do santuário celestial. O Espírito nos convence do pecado, revela nossa necessidade de aceitar o sacrifício de Cristo e nos concede dons para cumprir a missão. Nada – absolutamente nada – é tão importante para Cristo quanto salvar os perdidos. Em uma das parábolas de Lucas 15, o pastor deixou 99 ovelhas para encontrar apenas uma que havia se perdido.

Todos os recursos celestiais estão voltados para resgatar os pecadores, não para nos entreter. O Espírito de Deus não foi dado para que as pessoas tentem impressionar umas às outras em um culto com habilidades aparentemente milagrosas. Ele não foi enviado para capacitar pregadores de TV a prometer curas em troca de contribuições financeiras. Não foi enviado para fazer pessoas rirem descontroladamente ou emitirem sons sem sentido. Ele foi enviado para nos ajudar a realizar a tarefa que Deus nos confiou.

Ellen White escreveu: “Em sentido especial, os adventistas do sétimo dia foram postos no mundo como vigias e portadores de luz. A eles foi confiada a última mensagem de advertência a um mundo a perecer. Sobre eles incidiu a maravilhosa luz da Palavra de Deus. Foram incumbidos de uma obra da mais solene importância: a proclamação da primeira, segunda e terceira mensagens angélicas. Não existe nenhuma obra de tão grande importância. Eles não devem permitir que nenhuma outra coisa lhes absorva a atenção.”[1]

Se estivermos focados em outra coisa, trata-se de distração. Se pedirmos poder do Espírito para outro propósito, pediremos errado. A tarefa que nos foi dada é monumental – na verdade, humanamente impossível. Muitas vezes nos sentimos sobrecarregados diante da missão de proclamar as três mensagens angélicas, o último convite da graça divina ao mundo. Porém, a incumbência vem com uma promessa: “Mas vocês receberão poder, ao descer sobre vocês o Espírito Santo, e serão Minhas testemunhas” (Atos 1:8).

Os avanços na causa de Cristo sempre foram impulsionados pelo Espírito Santo. Ele usa Sua igreja – capacitando-nos e fortalecendo-nos – para que possamos alinhar nosso trabalho às prioridades de Cristo.

Qual é o verdadeiro sinal de que o Espírito está visitando uma congregação? A missão. Vidas transformadas. Membros crescendo na fé porque veem como Deus toma seus esforços humildes e os multiplica. Ellen White afirmou que “a única maneira de crescer na graça é fazer, de maneira desinteressada, o próprio trabalho que Cristo nos ordenou: empenhar-nos na medida da nossa habilidade em ajudar e abençoar os que precisam do auxílio que podemos dar”.[2] Essa não é apenas uma das maneiras de a igreja crescer; é a única. Ore pelo derramamento pleno do Espírito Santo. Peça a Deus que envie a chuva serôdia; afinal, é uma promessa que Ele nos convida a reivindicar. Mas esteja pronto para compartilhar Jesus, porque é isso que Ele irá incentivá-lo a fazer, assim como ocorreu nos dias da igreja apostólica.

SHAWN BOONSTRA é editor associado da Adventist Review

Referências

1 Ellen G. White, Testemunhos Para a Igreja (CPB, 2021), v. 9, p. 20.

2 Ellen G. White, Caminho a Cristo (CPB, 2024), p. 51.

(Artigo publicado na edição especial da Adventist Review com textos sugestivos para uma Semana de Oração)

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