Artigos Destaques

A IA e seu uso na igreja

Crédito: Adobe Stock
Avatar photo
Escrito por A Redação

Uma declaração da Comissão de Ética do Instituto de Pesquisa Bíblica

Arevolução digital iniciada há algumas décadas impactou significativamente a maneira como vivemos. O recente crescimento da inteligência artificial (IA) tem o potencial de revolucionar ainda mais nossa sociedade, impulsionando inovações tecnológicas expressivas em diversos setores, criando oportunidades no mercado de trabalho e alterando a forma como realizamos as tarefas do dia a dia. Essas mudanças naturalmente suscitam perguntas sobre como devemos nos relacionar com a IA como cristãos fiéis, comprometidos com a missão de alcançar o mundo para Cristo. Com esse propósito, refletiremos sobre o lugar da IA dentro de uma cosmovisão bíblica e, em seguida, apresentaremos algumas implicações sobre como utilizar a IA na Igreja Adventista do Sétimo Dia de maneira biblicamente fundamentada e eticamente orientada.

IA e a cosmovisão bíblica

A IA pode ser definida como a “tecnologia que permite que computadores e máquinas simulem a aprendizagem, a compreensão, a resolução de problemas, a tomada de decisões, a criatividade e a autonomia humanas”.1 Embora ela tenha passado por diferentes fases de desenvolvimento desde a década de 1950, o avanço mais recente nessa tecnologia se refere especificamente à IA generativa, definida como “modelos de aprendizagem profunda (deep learning) capazes de criar conteúdo original complexo, como textos longos, imagens de alta qualidade, vídeos ou áudios realistas e muito mais, em resposta ao prompt ou solicitação de um usuário”.2 Modelos de linguagem de grande porte (Large Language Models – LLMs), como o ChatGPT, da OpenAI, ou o Gemini, do Google, são expostos a uma ampla variedade de textos provenientes de diversas fontes, aprendem padrões linguísticos com base nessas fontes e, em seguida, utilizam os dados e as estatísticas que aprenderam para gerar respostas aos prompts. Essas respostas não são necessariamente factuais; antes, são previsões baseadas em padrões aprendidos.

Em outras palavras, a IA generativa é orientada por dados e algoritmos, podendo auxiliar o raciocínio humano e a tomada de decisões graças à sua capacidade de processar informações, além de ser utilizada para otimizar pesquisas e implementar novas estratégias em diversos campos do conhecimento. Como a IA funciona exclusivamente com base em padrões estatísticos, ela não “pensa” nem “conhece” as coisas da mesma forma que os seres humanos. É verdade que a IA difere de outras tecnologias por poder ser programada a operar de forma autônoma, seja respondendo a prompts, seja interagindo com pessoas por meio de robôs (bots). Entretanto, ela não é dotada de personalidade, agência moral ou responsabilidade nem possui opiniões, sentimentos, percepção de si ou consciência moral. Em vez disso, seus resultados são determinados e limitados pelos algoritmos e pelas entradas fornecidas por seus programadores humanos, os quais, por sua vez, frequentemente são motivados por processos voltados ao aumento dos lucros3 e pelas fontes às quais foi exposta e com as quais foi treinada.

A criatividade e a engenhosidade são características importantes da maneira como Deus nos criou como seres humanos feitos à Sua imagem (Gênesis 1:26-28; 2:15; Êxodo 31:1-6; 35:30-35; Provérbios 24:3, 4). A IA é o exemplo mais recente de como os seres humanos têm utilizado essas características essenciais no desenvolvimento de ferramentas e tecnologias capazes de facilitar nossa compreensão da realidade e nossa interação com o mundo (cf. Gênesis 4:20-22). Contudo, assim como ocorre com outras tecnologias, a IA pode ser utilizada tanto para fins positivos quanto prejudiciais. Nesse sentido, o problema não está necessariamente na IA em si, mas na maneira como seres humanos falíveis e pecadores a programam e a utilizam.

Da mesma forma, ao utilizarmos a IA, devemos manter expectativas realistas quanto ao que ela pode ou não realizar. Embora a tecnologia possa contribuir para o aprimoramento da sociedade, os cristãos reconhecem que somente por meio da intervenção divina o pecado, o mal e a morte serão definitivamente vencidos (Salmo 20:7; Isaías 31:1). Apesar dos planos e projeções otimistas dos tecnocratas, nossa esperança não está no progresso tecnológico, mas em Cristo e em Sua morte e ressurreição (Jeremias 9:23, 24; 1 Coríntios 15:21-26). E, por mais poderosa que seja, ou por maiores que sejam os benefícios que possa proporcionar, a IA é incapaz de resolver os problemas mais profundos da humanidade: o mal, o pecado e a morte.

Somente Cristo pode lidar com o mal presente no coração humano, que leva as pessoas a utilizar a tecnologia para fins destrutivos. Tendo em mente esse panorama, podemos agora voltar nossa atenção para as implicações de como utilizar a IA.

Implicações de uso

Como uma ferramenta poderosa capaz de apoiar o raciocínio humano, a tomada de decisões e os processos de trabalho em diversos campos, a IA pode ser utilizada de várias maneiras sem comprometer os princípios bíblicos.

Ela pode ser especialmente útil quando é empregada para a glória de Deus e o avanço da missão da igreja, quando promove o desenvolvimento humano e incentiva o amor ao próximo. Exemplos desses usos incluem recursos de IA que auxiliam pastores, estudiosos e estudantes da Bíblia a se aprofundarem nas Escrituras; ferramentas de tradução para livros, sermões e outras mídias; recursos que auxiliam na escrituração administrativa e nos registros financeiros; análise de dados sobre frequência aos cultos ou envolvimento dos membros; e tecnologias acessíveis que promovem a inclusão de pessoas com deficiência.

Ao mesmo tempo, a IA não é uma ferramenta “neutra”, pois é desenvolvida e programada por seres humanos falíveis, inclusive cristãos falíveis, que possuem seus próprios vieses. Por exemplo, os criadores da OpenAI afirmaram: “Projetamos a personalidade padrão do ChatGPT para refletir nossa missão e ser útil, prestativa e respeitosa em relação aos diferentes valores e experiências.”4 Embora isso possa parecer positivo em um primeiro momento, os valores promovidos por essas empresas nem sempre estão alinhados com as crenças e os valores da Igreja Adventista do Sétimo Dia e, em alguns casos, podem até ser contrários a eles. Esses vieses talvez não estejam presentes em todas as respostas produzidas. Ainda assim, é importante reconhecer que sua existência pode influenciar os resultados obtidos e que o uso contínuo dessas ferramentas pode, com o tempo, moldar nossa forma de pensar e agir.

Da mesma forma, quando compreendemos que a IA generativa funciona prevendo e produzindo respostas com base em padrões estatísticos aprendidos, entendemos que seus resultados nem sempre são infalíveis. A maioria das plataformas de IA inclui algum tipo de aviso informando que elas podem cometer erros e que cabe ao usuário verificar as informações. É não apenas nossa responsabilidade como usuários, mas também nosso dever moral como cristãos examinar cuidadosamente as fontes e verificar as informações para garantir que não estejamos acreditando cegamente em algo nem contribuindo para a propagação de falsidades, desinformação ou afirmações enganosas. Tampouco devemos utilizar a IA para produzir deepfakes que representem falsamente pessoas dizendo ou fazendo aquilo que jamais disseram ou fizeram. Como cristãos, temos a responsabilidade moral e espiritual de permanecer firmemente comprometidos com a verdade (Provérbios 23:23; Efésios 4:25).

Além disso, devemos ter cuidado para não terceirizar nossa capacidade de pesquisar e pensar criticamente, especialmente quando se trata do estudo da Palavra de Deus. Pesquisas demonstram que a dependência contínua da IA pode comprometer, ao longo do tempo, o desempenho cognitivo de uma pessoa,5 o que, por si só, já é motivo de preocupação. Mas, além disso, como cristãos, somos chamados a empregar nossa mente, isto é, nossa capacidade de pensar, refletir, tomar decisões e chegar a conclusões de uma maneira que agrade a Deus (Romanos 12:1, 2). O Senhor espera de nós um culto racional, que envolva tanto a mente quanto o coração, que seja apropriado para seres humanos criados à Sua imagem como seres racionais e espirituais.

Isso significa que é nossa responsabilidade, com o auxílio do Espírito Santo, pensar, analisar e discernir qual é “a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (v. 2). Nas palavras de Ellen White: “Devemos estudar a verdade por nós mesmos. Não devemos esperar que qualquer outro pense por nós. […] devemos exercer a habilidade que Deus nos deu para aprender o que é verdade. […] Devemos desenvolver individualmente um caráter que suporte a prova no Dia de Deus.”6 Esse conselho de não depender de outros para pensar por nós também se aplica à IA. Embora isso não impeça o uso da IA para facilitar pesquisas e análises, ela não deve ser utilizada para realizar todo o trabalho crítico, chegar a conclusões por nós ou preparar sermões, discursos, conteúdos espirituais ou orações. Os seres humanos são os únicos responsáveis – ética, moral e espiritualmente – por suas decisões, palavras e ações, e somente os seres humanos serão julgados por Deus pelo que dizem e fazem (Deuteronômio 24:16; Eclesiastes 12:14; Jeremias 17:10; Ezequiel 18:20; Mateus 12:36, 37;
2 Coríntios 5:10).

O mesmo princípio se aplica à responsabilidade dos líderes da igreja, pastores e professores de maneira mais ampla, aos quais foi confiada a tarefa de ensinar a Palavra de Deus e formar a mente de outras pessoas. Embora a IA possa ser utilizada como ferramenta de apoio, os que ensinam as Escrituras são pessoalmente responsáveis pela transmissão fiel do evangelho. De fato, eles carregam uma responsabilidade ainda maior, pois terão de prestar contas diante de Deus de sua administração da Palavra e do cuidado pelas pessoas que lhes foram confiadas (1 Coríntios 4:1-5; 1 Timóteo 4:16; 2 Timóteo 2:15; Hebreus 13:17; Tiago 3:1).

Nesse ponto, é importante lembrar que a interpretação e o ensino das Escrituras não constituem uma ciência exata, como se a IA fosse capaz de fornecer interpretações infalíveis da Bíblia ou sermões perfeitos e eficazes. Apenas mediante a atuação do Espírito é possível compreender as profundezas das Escrituras (1 Coríntios 2:14), e somente por Sua atuação a pregação da Palavra pode transformar corações (1 Coríntios 2:4, 5). O Espírito Santo fala à mente e ao coração dos seres humanos (João 16:13; 1 Coríntios 2:10-13; Efésios 1:17, 18), não por meio da IA. Por mais doutrinariamente corretos ou exegeticamente precisos que sejam os estudos bíblicos ou os sermões gerados por IA, eles não conseguem substituir o poder transformador de um envolvimento pessoal com o texto bíblico, guiado pelo Espírito Santo.

Se não formos transformados por nosso contato com a Bíblia, nossa mensagem terá efeito limitado sobre nossos ouvintes, por mais criativos ou teologicamente corretos que sejam nossos sermões. É claro que o Espírito ainda pode agir e utilizar essas mensagens para alcançar aqueles que precisam ouvi-las; porém, nós mesmos perderemos a essência da razão pela qual a Bíblia nos incentiva a estudar, meditar e nos aprofundar nas Escrituras (Josué 1:8; Salmo 1:2; Provérbios 2:1-5; Colossenses 3:16; 1 Timóteo 4:13-16; 2 Timóteo 2:15; 3:14-17; Hebreus 4:12; Tiago 1:22).

Por isso, não recomendamos que pastores e anciãos dependam da IA no preparo de sermões, que professores dependam da IA na elaboração de materiais didáticos, nem que a IA ou bots baseados em IA sejam utilizados como principal recurso em estudos bíblicos ou para responder a perguntas de natureza espiritual. A inteligência artificial pode nos ajudar, mas não deve nos pastorear.

Um ponto adicional que deve ser levado em consideração é que o uso da IA deve ser reconhecido e divulgado de maneira transparente. Utilizar conteúdo gerado por IA sem a devida atribuição constitui uma forma de plágio, pois representa de maneira enganosa o trabalho de outro como se fosse uma produção original do próprio usuário. Independentemente de isso ocorrer de forma intencional ou acidental, trata-se de uma prática desonesta que pode sujeitar a pessoa a medidas disciplinares e, em alguns casos, até mesmo a sanções legais. Essas formas de plágio se aplicam especialmente ao contexto acadêmico, mas também se estendem a outras situações, incluindo a elaboração de sermões. Para evitar essas ocorrências, os usuários devem tratar a IA como uma ferramenta de apoio ao processo criativo, e não como um gerador de conteúdo, reconhecendo abertamente seu uso sempre que for utilizada para produzir textos, imagens, vídeos e outros materiais.

Por fim, devemos nos lembrar do lugar apropriado da IA dentro da ordem criada. Como ferramenta criada, por mais poderosa, capaz ou semelhante ao ser humano que possa parecer, ela nada mais é do que uma criação humana e, como tal, não deve ser elevada ao nível do ser humano nem substituir a presença física das pessoas. Embora a IA esteja se tornando cada vez mais complexa e semelhante aos seres humanos em diversos aspectos, não se deve conceder às máquinas mais poder, controle ou valor do que aos seres humanos, que foram criados à imagem de Deus e receberam a responsabilidade de administrar o mundo criado por Ele (Gênesis 1:26-28; Salmo 8:4-6).

Não devemos atribuir-lhes personalidade ou autonomia moral, utilizá-las como fonte de apoio emocional nem desenvolver apego ou vínculos afetivos com elas. Tampouco devem substituir a presença pessoal, os relacionamentos ou as interações humanas, especialmente no cuidado pastoral e espiritual, no aconselhamento, no discipulado ou na adoração.

A IA também não deve ser elevada a uma posição semelhante à de uma divindade, assim como os ídolos e imagens são apresentados nas Escrituras como nada mais do que obras das mãos humanas (cf. Salmo 115:4, 8; Isaías 44:9-20; Romanos 1:22-25). Alguns especialistas têm manifestado preocupação de que a crescente influência da IA possa gradualmente enfraquecer a capacidade de ação e o controle humanos e, em cenários mais extremos, desenvolver formas de autonomia que concentrem poder e reduzam a responsabilidade humana.

Essas preocupações nos lembram de que a IA não deve receber controle sobre os seres humanos, nem devemos permitir que ela exerça qualquer tipo de poder emocional, psicológico ou espiritual sobre nós, seja ele real ou percebido. Nada deve ocupar o lugar de Deus como nosso Criador e Redentor. E, apesar dos supostos cenários catastróficos em que a IA assumiria o controle do mundo, não precisamos temer, pois, em última instância, Deus é o Rei do Universo e conduz o curso da história de acordo com Seus propósitos (Daniel 2:21; Salmo 103:19; Isaías 46:9, 10; Apocalipse 11:15). Assim como ocorre com muitas outras ferramentas e tecnologias, podemos utilizar a IA dentro de uma estrutura ética e bíblica, para continuarmos fiéis a Deus e à missão que Ele nos confiou. Embora o mundo e a maneira como nos relacionamos com ele possam mudar, a Palavra de Deus, seus princípios permanentes e nossa missão de pregar o evangelho permanecem os mesmos. 

INSTITUTO DE PESQUISA BÍBLICA, órgão ligado à sede mundial da Igreja Adventista do Sétimo Dia

(Declaração publicada na Revista Adventista de setembro/2026)

Sobre o autor

Avatar photo

A Redação

Equipe da Revista Adventista

Deixe um comentário