Milton Soldani Afonso (12/12/1921–2/9/2026), um dos maiores empresários e filantropos adventistas, morreu nesta quarta-feira, 2 de setembro, deixando um imenso legado de solidariedade.
A trajetória dele tem paralelos com a de um seleto grupo de bilionários que fez fortuna do zero. Milton teve uma origem humilde na pequena cidade de Nova Lima, região metropolitana de Belo Horizonte (MG), e cresceu em uma casa sem água encanada e banheiro. Sua mãe trabalhava como costureira. Já o pai foi garçom e, depois, eletricista, mas gastava todo o salário em jogos e bebidas. Por isso, desde pequeno, Milton passou a vender doces caseiros que a mãe fazia para ajudar no orçamento doméstico. No entanto, essa “experiência comercial e de marketing” que adquiriu nas ruas, como disse mais tarde, refletiu-se positivamente em seu futuro.
Depois de ele e a mãe terem aceitado a mensagem adventista na década de 1930, Milton foi matriculado no então Colégio Adventista Brasileiro (CAB), na capital paulista. Os recursos financeiros escassos o forçaram a ingressar na colportagem, que foi outra grande escola. Antes de fazer fortuna vendendo seguros de saúde, o empreendedor mineiro vendeu livros da Casa Publicadora Brasileira (CPB), motivo pelo qual ele sempre demonstrou gratidão e respeito à editora adventista.
Técnicas aprendidas e aplicadas na colportagem lhe acompanharam na vida de empresário. “Ao entrar em contato com os grandes atacadistas, obtinha seus nomes em minha lista de fregueses. A seguir, abordava outros negociantes e lhes dizia: ‘Fulano de tal já encomendou estes livros’. E pronunciava os nomes de seus colegas e concorrentes. Usando essa abordagem, vendi enorme quantidade de livros, o que me tornou um colportor-evangelista de muito êxito. De fato, por volta do ano de 1943, tive a distinção de ser o colportor-evangelista com mais vendas em todo o Brasil”, relatou no livro intitulado Milton Afonso: Vida e Obra (CPB, 2004, p. 52).
De vendedor de livros, o empresário e advogado se tornou, alguns anos depois, dono de revistas voltadas para a área de legislação federal e fiscal. Mas, sem dúvida, seu empreendimento de maior sucesso foi a criação da Golden Cross, no Rio de Janeiro. Em pouco mais de uma década, a instituição filantrópica se tornou uma das maiores companhias de saúde não somente da América Latina, mas do mundo. No auge de sua escalada de sucesso, Milton Soldani Afonso, um dos precursores dos planos de saúde no Brasil, chegou a comprar 17 hospitais, incluindo o maior de Minas Gerais.
Sua visão e ousadia o levaram longe. Mas, evidentemente, seu caminho não foi fácil. Em alguns momentos, ficou à beira da falência. E quando o governo confiscou 60 milhões de dólares das contas da Golden Cross, em 1990, parecia que seu mundo tinha desmoronado. Infartou.
Mas, como ele costumava dizer, Deus, a quem sempre atribuiu a razão de sua vida bem-sucedida, o sustentou e realizou verdadeiros milagres. Inclusive restituindo o valor que havia sido boqueado das cadernetas de poupança de instituições filantrópicas como a Golden Cross. “Tenho uma gratidão a Deus que não consigo calcular”, disse no documentário O Menino Que Vendia Doces e Entregava Sonhos (Novo Tempo, 2012).
CARREIRA FILANTRÓPICA
No período em que cursava Direito, Milton se tornou líder político entre os estudantes. Depois de um protesto contra o governo, chegou a ser torturado e preso, dividindo a cela com outros manifestantes, políticos e jornalistas que se opunham ao regime. Porém, sua passagem pela polícia acabou influenciando sua decisão de seguir outro caminho. Entendeu que não seria pela militância política que ele lutaria por um mundo melhor, mas sim por meio da filantropia.
Esse desejo de ajudar quem não conseguiria por si mesmo superar sua condição social foi manifestado por Milton Afonso bem antes de ele construir um império. Quando ainda não tinha tantos recursos, chegou a atrasar o aluguel algumas vezes para manter em dia as mensalidades dos estudantes que apoiava. Aliás, mesmo nos momentos mais difíceis ele procurou investir no sonho de quem não vislumbrava um futuro. “Quando faço outras pessoas felizes, me torno mais feliz ainda. Não fiquei mais pobre por isso”, realçou no documentário produzido pela TV Novo Tempo.
Em seus cálculos, concedeu mais de 60 mil bolsas de estudos, especialmente para jovens universitários, além de ter financiado muitos orfanatos e construído várias escolas ao redor do Brasil. Fez isso motivado pela própria história: “Teria sido alguém sem futuro. Mas foi através da educação que consegui romper este ciclo de pobreza e ignorância, e sabia que a educação poderia ser a chave para outros também”, disse em sua biografia, escrita por Manuel Vásquez (p. 79).
APOIO À IGREJA
Ao se tornar rico e influente, Milton não fez de sua vida uma ilha, embora a prosperidade financeira tenha lhe permitido comprar uma no famoso arquipélago de Angra dos Reis, no Rio de Janeiro. Idealista, seu grande objetivo sempre foi investir nos jovens, oferecer assistência às crianças sem teto e ajudar a igreja a cumprir a missão.
Outra evidência de seu desprendimento é que, na década de 1980, Milton Afonso decidiu colocar nas mãos da igreja todo o patrimônio que havia construído até aquele momento: a Golden Cross, 28 hospitais, uma universidade com 15 mil alunos e quatro campi, escolas e 13 orfanatos, além de uma fazenda e coleções particulares. A papelada para que tudo isso fosse administrado pela igreja após a morte do empresário chegou a ser assinada. Porém, algum tempo depois, o então presidente mundial da denominação, pastor Neal Wilson, o chamou até a sede da Associação Geral para dizer que a igreja havia decido devolver-lhe tudo. “Na verdade, o senhor está mais qualificado para dirigir um império tão grande como a Golden Cross. Foi um gesto nobre de sua parte, porém assinaremos um documento devolvendo tudo ao senhor e à sua família. A missão da igreja não é acumular edifícios, mas preparar pessoas para o Céu”, o líder da denominação justificou (Milton Afonso: Vida e Obra, p. 118, 119).
Depois disso, o empresário continuou contribuindo com a igreja de outras formas. E possivelmente, conforme foi destacado no programa FE em Ação, Milton Afonso tenha sido um dos maiores doadores de todos os tempos da Igreja Adventista no mundo.
Especialmente na área de comunicação, ele foi responsável por uma verdadeira revolução, a ponto de um perfil publicado em 2014 pela Revista Adventista compará-lo à figura de Assis Chateaubriand, visionário que se tornou um ícone na história da imprensa brasileira.
A contribuição de Milton Afonso se deu de várias formas. Primeiro, ele apoiou a igreja doando dezenas de emissoras de rádio, bem como a propriedade de Nova Friburgo (RJ) na qual teve início a TV adventista. Além disso, destinou muitos recursos e equipamentos para a expansão da rede adventista de comunicação.
Deus concedeu uma vida longa ao menino pobre que se tornou empresário bem-sucedido para que ele pudesse ajudar mais pessoas e impulsionar a missão. Porém, a contribuição do doutor Milton Afonso para a igreja não pode ser medida apenas pela doação de recursos e patrimônio, mas também por sua visão e influência.
MÁRCIO TONETTI é editor associado da Revista Adventista


