Shawn Boonstra
Os escritos de Irineu de Lyon, um dos pais da igreja, mencionam um herege chamado Cerinto, que se destacou nos primórdios do cristianismo como “inimigo da verdade”.* Elenegava a divindade de Cristo e Seu nascimento virginal, além de atribuir a criação a um deus inferior. Tornou-se especialmente conhecido por afirmar que Jesus recebeu o título de Messias no batismo, mas que, ao se aproximar da crucifixão, o poder divino que sustentava Seu ministério o abandonou, restando apenas um homem para morrer.
Erros como esses se infiltraram no cristianismo, em clara oposição ao que os apóstolos haviam ensinado ao proclamarem o evangelho no Império Romano. Embora João não tenha escrito seu evangelho como uma refutação direta às heresias, suas palavras iniciais são um poderoso corretivo para aqueles que tentam diminuir a posição de Cristo. Essa passagem, que considero uma das mais belas das Escrituras, afirma que a Criação foi obra do próprio Cristo: “Todas as coisas foram feitas por Ele, e, sem Ele, nada do que foi feito se fez” (João 1:3).
João identificou Jesus como o Logos, uma palavra que despertava grande interesse entre os filósofos gregos. Naquela época e cultura, porém, o termo era usado de maneira diferente. Na mentalidade grega, Logos remetia ao princípio imutável que mantinha o Universo unido, uma constante por trás de um cosmos em movimento.
Ao aplicar esse termo a Cristo, João apresentou algo surpreendente. Um leitor grego recém-convertido ficaria perplexo diante da afirmação de que o Criador e mantenedor do Universo, a fonte da vida, veio pessoalmente a este mundo – tornando-se um ser humano de carne e osso. Para a mentalidade grega, a ideia de que “o Verbo Se fez carne e habitou entre nós” (v. 14) era revolucionária.
Leitura correta
Jesus é a verdade suprema que está por trás de tudo o que percebemos com os nossos sentidos. Os gregos, sem o saber, buscavam Cristo – como muitos ainda o fazem hoje –, assim como também O buscava o povo da aliança. Inspirado pelo Espírito Santo, João fez questão de registrar as palavras de Jesus: “Vocês examinam as Escrituras, porque julgam ter nelas a vida eterna, e são elas mesmas que testificam de Mim” (João 5:39).
Acadêmicos de diversas tradições têm debatido, há muito tempo, a melhor forma de interpretar as Escrituras. No entanto, nessa afirmação, Cristo nos oferece a chave hermenêutica: se você não O enxerga nas palavras da Bíblia, não está lendo corretamente. Se Ele não é a fonte e o centro de tudo, sua compreensão está equivocada. Se você tentar interpretar nossas doutrinas fundamentais à parte da pessoa e do caráter de Cristo, cairá em erro. E, se, como os antigos hereges, procurar diminuir Cristo, jamais compreenderá a mensagem essencial das Escrituras.
O sábado, por exemplo, não é apenas um mandamento; é um convite do Criador ao descanso pleno. A doutrina do batismo nos convida a iniciar uma nova vida em Cristo. Os princípios de uma vida saudável não foram dados apenas para prolongar nossos dias; a Bíblia é o manual do Divino Fabricante, revelando o caminho de retorno ao projeto original de Deus.
Escrevendo à igreja em Colossos, Paulo apresentou a essência da verdadeira doutrina. Ao descrever o mistério revelado no evangelho, declarou: “A estes Deus quis dar a conhecer a riqueza da glória deste mistério entre os gentios, que é Cristo em vocês, a esperança da glória. Este Cristo nós anunciamos, advertindo a todos e ensinando a cada um em toda a sabedoria, a fim de que apresentemos cada pessoa perfeita em Cristo” (Colossenses 1:27, 28).
Propósito
O movimento adventista não nasceu da vontade humana, mas do cumprimento da profecia bíblica (Apocalipse 10:10, 11). Além disso, Cristo está no centro de nossa mensagem. Separar nossas doutrinas de Sua pessoa é compreendê-las de maneira equivocada.
Talvez a pergunta mais importante ao estudarmos nossas crenças fundamentais seja: “O que isso revela sobre Jesus?” Essa perspectiva cristocêntrica deve orientar toda a nossa mensagem. Se o sábado for reduzido a uma regra arbitrária, torna-se vazio de significado. Mas, quando o entendemos como um sinal de aliança com o Criador – um meio de nos aproximarmos Daquele que nos fez e de sermos transformados à Sua imagem –, o repouso sabático nos conduz ao Senhor do sábado e ao Seu amor por nós.
É possível guardar o sábado de maneira mecânica e ritualística, semana após semana, ao longo de toda a vida, sem conhecer o Deus por trás dele. Sem Cristo, ele se reduz a um simples dia de descanso. Mas, com Cristo, é um tempo que enche a alma, recordando-nos de nossa origem, identidade e destino. É um lembrete poderoso de que Jesus é o fundamento de toda a existência.
SHAWN BOONSTRA é editor associado da Adventist Review
Referência
* Irineu de Lyon, Against Heresies (Aeterna Press, 2016), v. 3, p. 182.
(Artigo publicado na edição especial da Adventist Review com textos sugestivos para uma Semana de Oração)
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