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A última carta de Paulo

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Escrito por A Redação

Ensinamentos para a igreja cumprir a missão nos últimos dias

Ellen G. White

Do tribunal de César, Paulo voltou à sua cela, sabendo que havia obti­do apenas uma breve trégua. Sabia que seus inimigos não descansariam enquanto não lhe tirassem a vida. Mas sabia também que, durante algum tempo, a verdade tinha triunfado. Só o fato de ele ter proclamado um Salvador cru­cificado e ressurreto perante a grande multidão que o ouvira já era uma vitória. Naquele dia, havia começado uma obra que cresceria e se fortaleceria, e que Nero e todos os outros inimigos de Cristo tentariam impedir ou destruir, mas em vão.

Dia após dia, sentado naquela cela sombria e sabendo que por uma pala­vra ou um simples aceno de Nero sua vida seria sacrificada, Paulo pensou em Timóteo e decidiu chamá-lo. Timóteo havia sido encarregado de cuidar da igreja de Éfeso e tinha ficado para trás quando Paulo fez sua última viagem a Roma. Eles estavam unidos por uma profunda afeição. Desde sua conversão, Timóteo havia tomado parte nos trabalhos e sofrimentos de Paulo, e a ami­zade entre os dois se tornara cada vez mais forte, profunda e sagrada. Assim, Timóteo foi para o idoso e esgotado apóstolo tudo que um filho pode ser para um amado e honrado pai. Não é de estranhar que, em sua solidão, Paulo desejasse vê-lo.

Mesmo sob as mais favoráveis circunstâncias, vários meses passariam antes que Timóteo, vindo da Ásia Menor, conseguisse chegar a Roma. Paulo sabia que sua vida era incerta e temia que Timóteo chegasse tarde demais para vê-lo. Tinha importantes conselhos e instruções para o jovem, a quem havia sido confiada tão grande responsabilidade; e enquanto pedia que viesse sem demora, ditou seu derradeiro testemunho, pois talvez sua vida não fosse poupada para proferi-lo pessoalmente. Tendo o coração cheio de terna solicitude por seu filho no evangelho e pela igreja sob sua responsabi­lidade, Paulo procurou impressionar Timóteo com a importância da fideli­dade à sua sagrada missão.

Começou a carta com a saudação: “Ao amado filho Timóteo. Que a graça, a misericórdia e a paz, da parte de Deus Pai e de Cristo Jesus, nosso Senhor, estejam com você . Dou graças a Deus, a quem, desde os meus antepassados, sirvo com a consciência limpa, porque, sem cessar, lembro de você nas minhas orações, noite e dia” (2Tm 1:2, 3). Em seguida, o apóstolo insistiu com Timóteo sobre a necessidade de ser firme na fé. “Por esta razão, venho lembrar-lhe”, escreveu, “que reavive o dom de Deus que está em você pela imposição das minhas mãos. Porque Deus não nos deu espírito de covardia, mas de poder, de amor e de moderação. Portanto, não se envergonhe do testemunho de nosso Senhor, nem do seu prisioneiro, que sou eu. Pelo contrário, participe comigo dos sofrimentos a favor do evangelho, segundo o poder de Deus” (v. 6-8). Paulo pediu a Timóteo que se lembrasse de que tinha sido chamado “com santa vocação” (v. 9), para proclamar o poder Daquele que havia trazido “à luz a vida e a imortalidade, mediante o evangelho”; para o qual, declarou, “fui designado pregador, apóstolo e mestre e, por isso, estou sofrendo estas coisas. Mas não me envergonho, porque sei em quem tenho crido e estou certo de que Ele é poderoso para guardar aquilo que me foi confiado até aquele Dia” (v. 10-12). No decorrer de sua longa vida de serviço, Paulo nunca vacilou em sua fidelidade ao Salvador. Onde quer que estivesse – fosse diante dos sisudos fariseus ou das autoridades romanas; diante da furiosa multidão de Listra ou dos condenados pecadores do calabouço da Macedônia; fosse argumentando com os marinheiros tomados de pânico, do navio prestes a naufragar, ou estando sozinho diante de Nero, para pleitear por sua vida –, ele nunca se envergonhou da causa que defendia. O grande propósito de sua vida cristã foi servir Àquele cujo nome havia desprezado no passado, e desse propósito nenhuma oposição ou perseguição foi capaz de afastá-lo. Sua fé, fortalecida pelo esforço e purificada pelo sacrifício, o sustentava e fortalecia. “Quanto a você, meu filho”, continuou Paulo, “fortifique-se na graça que há em Cristo Jesus. E o que você ouviu de mim na presença de muitas testemunhas, isso mesmo transmita a homens fiéis, idôneos para instruir a outros. Participe dos meus sofrimentos como bom soldado de Cristo Jesus” (2Tm 2:1-3). O verdadeiro ministro de Deus não se esquiva de trabalhos ou responsabilidades. Da Fonte que nunca decepciona os que sinceramente buscam o poder divino, ele tira força que o capacita a enfrentar e vencer a tentação e a executar as tarefas que Deus coloca sobre ele. A natureza da graça que recebe amplia sua capacidade para conhecer a Deus e ao Seu Filho. Seu coração se expande em um forte desejo de fazer para o Mestre um trabalho aceitável. E, enquanto avança na experiência cristã, torna-se forte “na graça que há em Cristo Jesus” (v. 1). Essa graça lhe dá o poder de ser fiel testemunha das coisas que ouviu. Ele não despreza nem negligencia o conhecimento que recebeu de Deus, mas transmite esse conhecimento a homens fiéis, que por sua vez ensinam a outros.

Em sua última carta a Timóteo, Paulo expôs perante o obreiro mais jovem um alto ideal, apontando os deveres que sobre ele pesavam como ministro de Cristo. “Procura apresentar-se a Deus aprovado”, o apóstolo escreveu, “como obreiro que não tem de que se envergonhar, que maneja bem a palavra da verdade. […] Fuja das paixões da mocidade. Siga a justiça, a fé, o amor e a paz com os que, de coração puro, invocam o Senhor. Evite as discussões insensatas e absurdas, pois você sabe que elas só provocam brigas. O servo do Senhor não deve andar metido em brigas, mas deve ser brando para com todos, apto para ensinar, paciente, disciplinando com mansidão os que se opõem a ele, na expectativa de que Deus lhes conceda […] o arrependimento para conhecerem a verdade” (v. 15, 22-25).

O apóstolo advertia Timóteo contra os falsos mestres que se introduziriam na igreja: “Você precisa saber disto: nos últimos dias sobrevirão tempos difíceis. Pois os seres humanos serão egoístas, avarentos, orgulhosos, arrogantes, blasfemadores, desobedientes aos pais, ingratos, ímpios, […] tendo forma de piedade, mas negando o poder dela. Fique longe também destes” (2Tm 3:1, 2, 5).

“Mas”, continuou, “os perversos e impostores irão de mal a pior, enganando e sendo enganados. Quanto a você, permaneça naquilo que aprendeu e em que acredita firmemente, sabendo de quem você o aprendeu e que, desde a infância, você conhece as sagradas letras, que podem torná-lo sábio para a salvação. […] Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o servo de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra” (v. 13-17). Deus proveu meios suficientes para o êxito na luta contra o mal que há no mundo. A Bíblia é a armadura com que podemos nos equipar para a luta. Devemos estar cingidos com a verdade. Nossa couraça deve ser de justiça. Na mão devemos ter o escudo da fé e, na cabeça, o capacete da salvação. E, com a espada do Espírito, que é a Palavra de Deus, devemos abrir caminho por entre os obstáculos do pecado.

Paulo sabia que um tempo de grande perigo estava diante da igreja. Sabia que uma obra fiel e zelosa devia ser feita pelos que haviam sido encarregados de cuidar das congregações. Por isso escreveu a Timóteo: “Diante de Deus e de Cristo Jesus, que há de julgar vivos e mortos, pela Sua manifestação e pelo Seu Reino, peço a você com insistência que pregue a Palavra, insista, quer seja oportuno, quer não, corrija, repreenda, exorte com toda a paciência e doutrina” (2Tm 4:1, 2).

Essa solene incumbência colocada sobre alguém tão zeloso e fiel como Timóteo é um forte testemunho da importância e responsabilidade da obra do ministro do evangelho. Chamando Timóteo ao tribunal de Deus, Paulo lhe ordenou que pregasse a Palavra, não fórmulas e pensamentos humanos; mandou que estivesse pronto para testemunhar sobre Deus onde quer que tivesse oportunidade – diante de grandes congregações ou de um limitado número de pessoas, junto aos caminhos e nos lares, a amigos e a inimigos, fosse em segurança ou exposto a dificuldades e perigos, injúria e perdas.

Temendo que o temperamento brando e indulgente de Timóteo pudesse levá-lo a se esquivar de uma parte essencial de sua obra, Paulo o exortou a ser fiel em reprovar o pecado e a repreender com firmeza os que fossem culpados de erros graves. Contudo, devia fazer isso “com toda a paciência e doutrina” (v. 2). Ele deveria revelar a paciência e o amor de Cristo, tornando claras suas reprovações e reforçando-as com as verdades da Palavra.

Odiar e reprovar o pecado e, ao mesmo tempo, mostrar piedade e compaixão pelo pecador é uma tarefa difícil. Quanto mais intensos forem nossos próprios esforços para manter a santidade do coração e da vida, mais aguçada será nossa percepção do pecado, e mais decidida nossa desaprovação de qualquer desvio do que é correto. Precisamos tomar cuidado com a indevida severidade ao lidar com os que erram; mas precisamos também ser cuidadosos para não perder de vista a excessiva malignidade do pecado. Precisamos mostrar paciência e amor por aquele que erra, assim como Cristo fazia, mas há também o perigo de se mostrar uma tolerância tão grande com o erro que a pessoa pode pensar que não merece reprovação, rejeitando-a como inoportuna e injusta.

Às vezes, os ministros do evangelho causam grande dano permitindo que sua tolerância para com a pessoa que erra se transforme em transigência com o pecado, e até mesmo em participação dele. Assim são levados a desculpar e passar por alto o que Deus condena e, depois de certo tempo, tornam-se tão cegos que chegam a elogiar quem o Senhor manda reprovar. Os que perderam a sensibilidade de suas percepções espirituais, por causa da pecaminosa tolerância para com aqueles a quem Deus condena, acabarão cometendo pecado maior, tratando de forma áspera e severa aqueles a quem o Senhor aprova.

Por se orgulharem da sabedoria humana, menosprezarem a influência do Espírito Santo e manifestarem aversão às verdades da Palavra de Deus, muitos que professam ser cristãos e que se imaginam competentes para ensinar a outros serão levados a virar as costas para os requisitos de Deus. Paulo declarou a Timóteo: “Pois virá o tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, se rodearão de mestres segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos. Eles se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fábulas” (v. 3, 4).

O apóstolo não faz aqui referência aos que são abertamente sem religião, mas a professos cristãos que se deixam guiar pelas próprias inclinações, tornando-se assim escravos do eu. Eles estão dispostos a aceitar apenas as doutrinas que não repreendam seus pecados ou condenem a vida de amor ao prazer. Sentem-se ofendidos pelas claras palavras dos fiéis servos de Cristo, e escolhem mestres que os elogiem e adulem. E entre os professos ministros há os que pregam as opiniões dos homens em lugar da Palavra de Deus. Infiéis ao dever, desviam os que a eles vão em busca de orientação espiritual.

Nos preceitos de Sua santa lei, Deus concedeu uma regra perfeita de vida; e Ele declarou que, até o fim dos tempos, essa lei, imutável em cada detalhe, deve manter suas exigências sobre os seres humanos (Mt 5:18). Cristo veio para engrandecer a lei e torná-la gloriosa. Mostrou que ela está baseada no amplo fundamento do amor a Deus e ao próximo, e que a obediência aos seus preceitos compreende todo o dever do ser humano. Em Sua própria vida, Ele deu exemplo de obediência à lei divina. No sermão da montanha, mostrou como seus requisitos vão além dos atos exteriores, atingindo os pensamentos e as intenções do coração.

A lei, quando obedecida, leva as pessoas a abandonar “a impiedade e as paixões mundanas”, e a viver “neste mundo de forma sensata, justa e piedosa” (Tt 2:12). No entanto, o inimigo de toda a justiça tornou cativo o mundo e tem levado homens e mulheres a desobedecer à lei. Conforme previu Paulo, multidões têm se desviado das claras e profundas verdades da Palavra de Deus e escolhido mestres que lhes apresentem as mentiras que desejam ouvir. Muitos entre os pastores e o povo em geral estão pisoteando os mandamentos de Deus. Assim o Criador do mundo é insultado, e Satanás ri triunfante com o sucesso de seus enganos.

Com o crescente desprezo pela lei de Deus, há uma progressiva aversão à religião, um aumento do orgulho, do amor aos prazeres, da desobediência aos pais e da autoindulgência; e homens pensantes em todas as partes estão ansiosos, interrogando o que se pode fazer para corrigir esses alarmantes males. A resposta se encontra na exortação de Paulo a Timóteo: “Pregue a Palavra” (2Tm 4:2). Na Bíblia estão os únicos princípios seguros de ação. Ela é uma transcrição da vontade de Deus, uma expressão da divina sabedoria. Torna os grandes problemas da vida compreensíveis ao ser humano; e a todos os que abraçam seus preceitos ela se mostrará um guia infalível, livrando-os de arruinarem a vida em esforços desorientados.

Deus fez conhecida Sua vontade, e é insensatez da parte do homem questionar sobre o que saiu de Seus lábios. Depois que a Sabedoria Infinita se manifesta, não pode haver questões ambíguas para o homem solucionar nem probabilidades a serem por ele definidas. Tudo o que se requer dele é sincera conformidade com a expressa vontade de Deus. A obediência é o mais alto ditame da razão, bem como da consciência.

Paulo continuou sua exortação, dizendo: “Mas você seja sóbrio em todas as coisas, suporte as aflições, faça o trabalho de um evangelista, cumpra plenamente o seu ministério” (v. 5). O apóstolo estava prestes a terminar sua missão e desejava que Timóteo assumisse seu lugar, protegendo a igreja contra fábulas e heresias pelas quais o inimigo, de várias maneiras, queria afastá-la da simplicidade do evangelho. Ele o aconselhava a fugir de todo interesse e empecilho temporal que pudesse impedi-lo de se dedicar inteiramente ao trabalho de Deus; a suportar com alegria a oposição, a perseguição e a injúria a que estaria exposto por sua fidelidade, e a dar prova satisfatória de seu ministério, empregando todos os meios ao seu alcance para fazer o bem a todos por quem Cristo morreu.

A vida de Paulo foi uma demonstração das verdades que ensinava, e nisso residia seu poder. Seu coração estava cheio de um profundo e permanente senso de responsabilidade. Ele trabalhava em íntima comunhão com Aquele que é a fonte de justiça, misericórdia e verdade. Apegava-se à cruz de Cristo como única garantia de sucesso. O amor do Salvador era o permanente motivo que lhe dava a vitória em seus conflitos com o eu e em suas lutas contra o mal, ao avançar no serviço de Cristo contra a hostilidade do mundo e a oposição de seus inimigos.

O que a igreja necessita nestes dias de perigo é de um grande número de obreiros que, assim como Paulo, tenham se preparado para ser úteis, que tenham uma profunda experiência nas coisas de Deus e que sejam cheios de fervor e zelo. Necessita-se de pessoas santificadas e abnegadas; pessoas que não se esquivem de provas e responsabilidades; que sejam corajosas e verdadeiras; pessoas em cujo coração Cristo seja constituído “a esperança da glória” (Cl 1:27), e que com lábios tocados com fogo santo preguem a Palavra (2Tm 4:2). Por falta de obreiros como estes, a causa de Deus definha, e há erros fatais que, como veneno mortífero, pervertem a moral e destroem as esperanças de grande parte da raça humana.

À medida que os fiéis e exaustos porta-estandartes sacrificam a vida pelo amor à verdade, quem assumirá seu lugar? Aceitarão nossos jovens das mãos de seus pais a sagrada responsabilidade? Será que eles estão se preparando para preencher as lacunas que surgem pela morte dos fiéis? Em meio aos convites para o egoísmo e as ambições que seduzem a juventude, a exortação do apóstolo será aceita? O chamado ao dever será ouvido?

Paulo concluiu sua carta com mensagens particulares a várias pessoas, e novamente repetiu o urgente pedido para que Timóteo fosse ao seu encontro sem demora, se possível antes do inverno. Falou de sua solidão, motivada pela deserção de alguns de seus amigos e da ausência necessária de outros; e para que Timóteo não hesitasse, pelo receio de que a igreja de Éfeso pudesse necessitar de seus trabalhos, Paulo afirmou que já havia enviado Tíquico para substituí-lo.

Depois de falar das cenas de seu julgamento perante Nero, da deserção de seus irmãos e da mantenedora graça de um Deus fiel à aliança, Paulo terminou a carta recomendando seu amado Timóteo aos cuidados do Supremo Pastor, o qual, mesmo que os subpastores pudessem ser abatidos, ainda cuidaria de Seu rebanho.

ELLEN G. WHITE exerceu o ministério profético durante mais de 70 anos

Nota: capítulo extraído do livro Atos dos Apóstolos (CPB, 2021), p. 317-323.

(Publicado na edição especial da Adventist Review com textos sugestivos para uma Semana de Oração)

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