A capelania tem desempenhado um papel cada vez mais relevante na missão da Igreja Adventista ao levar esperança, conforto e apoio espiritual a pessoas em diferentes momentos da vida. Reconhecendo a importância e o potencial desse trabalho, a Divisão Sul-Americana oficializou recentemente o Ministério da Capelania em sua estrutura organizacional. A iniciativa representa um passo significativo para fortalecer, ampliar e integrar a atuação dos capelães em diferentes contextos. Nesta entrevista, o pastor Otávio Barreto, líder do novo departamento, comenta os desafios, as oportunidades e as implicações dessa nova fase para a capelania adventista no território sul-americano.
O que muda a partir da criação oficial do Ministério da Capelania na Divisão Sul-Americana?
O trabalho dos capelães já era realizado com excelência, mas encontrava-se disperso em iniciativas isoladas de algumas Uniões e Campos. A criação do departamento proporciona a esse ministério uma estrutura institucional, treinamento especializado e maior unidade em sua atuação.
Como esse ministério pode alcançar pessoas que dificilmente teriam contato com a igreja por meios tradicionais?
A capelania chega justamente quando a pessoa não tem condições de buscar uma igreja – seja o pai ao lado de um leito de UTI, um aluno enfrentando problemas familiares ou um enfermeiro esgotado em meio a uma crise. Trata-se do ministério da presença: estar ao lado, ouvir antes de falar e orar quando a oportunidade é concedida. Nisso reside sua força evangelística, pois a confiança é construída por meio do cuidado genuíno, exatamente como Cristo fazia ao Se misturar com as pessoas antes de convidá-las a segui-Lo.
Quais são os principais desafios para manter a identidade e os valores adventistas em contextos cada vez mais plurais e secularizados, onde os capelães exercem seu trabalho?
O primeiro desafio é equilibrar respeito e identidade. O capelão serve pessoas de diferentes crenças sem impor sua fé, mas também sem renunciar aos princípios bíblicos em que acredita. O segundo desafio é profissional; por isso, o apoio e a formação são tão importantes, pois oferecem segurança tanto ao capelão quanto à instituição. O terceiro é espiritual, porque o contato constante com o sofrimento pode ser desgastante. Sem uma rede de suporte, acompanhamento e supervisão, o próprio capelão corre o risco de adoecer emocional e espiritualmente.
Quais serão as prioridades estratégicas do novo departamento para capacitar, integrar e apoiar esses profissionais?
As prioridades incluem a capacitação continuada por meio de programas reconhecidos, o endosso eclesiástico formal, a realização de encontros e treinamentos, a produção de materiais e o fortalecimento de uma rede para a troca de experiências e a supervisão. Outra prioridade é a integração, uma vez que a capelania mantém diálogo com as áreas de Educação, Ministério Jovem, Saúde, ADRA, Associação Ministerial e outros ministérios da igreja.
Como a experiência dos capelães pode inspirar toda a igreja a desenvolver uma cultura de cuidado, presença e testemunho na comunidade?
Entendo quem vê a capelania como um ministério destinado a poucos. No entanto, os princípios que orientam o trabalho do capelão pertencem a toda a igreja, pois estar presente, ouvir antes de falar e cuidar antes de pregar está no próprio coração do evangelho. O capelão apenas leva esses princípios a contextos especialmente desafiadores e, ao fazê-lo, recorda a cada membro que o cuidado genuíno é um dos caminhos mais naturais para o testemunho cristão. Quando essa compreensão se torna parte da vida da igreja, a capelania deixa de ser a missão de alguns e passa a refletir uma cultura de cuidado vivida por toda a comunidade de fé.
(Entrevista publicada na Revista Adventista de agosto/2026)


