Felipe dos Santos Cardoso
“Eu não acredito assim, pastor”, respondeu a jovem logo após concluirmos um estudo bíblico sobre a necessidade de uma mudança profunda, embora gradual, na vida, nas práticas e nos pensamentos como resultado da aceitação do evangelho. Suas convicções pessoais apontavam para outra direção. “Entendo seu ponto de vista e respeito o que sua igreja ensina”, ela continuou, “mas creio que Deus me ama e me aceita exatamente como sou. Não acho que Ele irá me condenar pelo que eu como, bebo, visto, faço ou deixo de fazer, porque sabe quem eu sou, e eu também sei quem Ele é.
Deus é amor.”
Esse episódio ilustra o desafio central que está diante de nós e do qual nenhum cristão – seja um novo membro, um experiente líder de igreja ou até mesmo um pastor – pode se desvencilhar sem antes compreendê-lo: a inseparável relação entre o privilégio de conhecer Jesus e a responsabilidade de se comprometer com Ele.
Não é raro encontrar em nosso mundo secularizado e globalizado pessoas que compartilham do mesmo entendimento daquela jovem. Na verdade, essa linha de pensamento tem se tornado cada vez mais presente, eloquente e sedutora na sociedade contemporânea. Contudo, sabemos que essa bandeira não foi hasteada em nossos dias. Ela já tremulava de maneira desafiadora no fim do primeiro século, ameaçando a pureza do evangelho diante dos olhos daqueles que o haviam visto e ouvido ser proclamado pelos lábios do próprio Cristo.
Ao mencionar que Deus é amor, a jovem citava – conscientemente ou não – uma pequena carta do Novo Testamento que declara: “Quem não ama não conhece a Deus, pois Deus é amor” (1 João 4:8). Provavelmente, ela ignorava que o autor dessas palavras, o já idoso apóstolo João, foi, paradoxalmente, um dos principais opositores do perigoso pensamento que ela acalentava.
Diante disso, parece razoável voltarmos o olhar para essa preciosa epístola do “discípulo amado”. Nela, procuraremos compreender por que sua firme atuação apologética, voltada à correção e ao refinamento da compreensão doutrinária, é inseparável de seu vigoroso apelo por uma ética cristã. Em outras palavras, João insiste na coerência entre a crença correta e uma vida compatível com essa crença. Por isso, sua carta se contrapõe a um “evangelho” que pretende acolher o amor de Deus enquanto ignora Sua vontade.
CONTEXTO
O último dos doze apóstolos escreveu com sua pena voltada contra pelo menos três distorções doutrinárias que estavam se alojando na igreja no fim do primeiro século: (1) o docetismo (do grego dokein, “parecer”), que negava a humanidade de Cristo ao afirmar que Ele possuía apenas aparência humana, sem ser verdadeiramente homem;1 (2) o cerintianismo, associado a Cerinto, que ensinava que Jesus teria sido apenas um homem comum sobre o qual o “Cristo divino” desceu por ocasião do batismo, deixando-o antes da crucifixão;2 e (3) o gnosticismo ou proto-gnosticismo, uma heresia com profundas implicações éticas, cujos ecos ainda ressoam no século 21.
Essas heresias criaram sérios problemas e exigiram uma resposta contundente por parte de João. Contudo, entre elas, talvez o gnosticismo tenha sido o engano mais persistente, perigoso e sedutor. Não por acaso, a Primeira Epístola de João se apresenta como o antídoto contra essa forma de pensar.
A versão cristianizada do gnosticismo – ou, se preferirmos, a versão gnóstica do cristianismo – afirmava que a salvação era alcançada em uma esfera estritamente espiritual, por meio de um conhecimento oculto (gnosis).3 Na prática, essa concepção produzia uma perigosa separação entre o espiritual e o material. A pessoa acreditava que sua “alma” estava salva graças a esse conhecimento superior de Deus, enquanto seu corpo permanecia livre para adotar qualquer estilo de vida, já que a matéria era considerada essencialmente má.4 Essa conclusão, por si só, já deveria deixar evidente que o gnosticismo está muito mais próximo do paganismo do que do cristianismo. Como afirmou Louis Berkhof, “é correto concluir que o gnosticismo é o furto de alguns trapos cristãos para cobrir a nudez do paganismo”.5
É justamente nesse ponto que a fala daquela jovem ecoa esse antigo erro. Ao afirmar que Deus a aceita “como ela é” e que Ele não a condenará pelo que “faz ou deixa de fazer”, ela desvincula o amor divino da obediência à Sua vontade. Para ela, assim como para os gnósticos clássicos e os “novos gnósticos”, representados por correntes contemporâneas que se apresentam como cristãs e frequentemente são associadas ao chamado “cristianismo progressivo”,6 a espiritualidade é uma experiência interior que dispensa a transformação do comportamento.
João, porém, é implacável contra essa separação. Para o apóstolo, não existe verdadeiro conhecimento sem obediência a Deus. Por isso, ele escreveu: “Aquele que diz: ‘Eu o conheço’, mas não guarda os Seus mandamentos, esse é mentiroso, e a verdade não está nele” (1 João 2:4). João não admitiu um cristianismo que existe apenas na mente ou no coração. Para ele, a fé autêntica se manifestava na vida prática, pois é ela que vence o mundo (cf. 1 João 5:4). Como escreveu Ellen White: “Quando conhecermos a Deus como temos o privilégio de conhecê-Lo, nossa vida será de contínua obediência.”7
AMOR QUE TRANSFORMA
Assim, o equívoco de muitas pessoas hoje não está na falta de confiança no amor de Deus, mas na incompreensão da verdadeira natureza desse amor. O “discípulo amado” nos ensina que o acolhimento divino é o ponto de partida para a santidade, e não o ponto de chegada para o comodismo. Deus, de fato, nos ama como somos, mas nos ama tanto que Se recusa a nos deixar como estamos.
A heresia que João combateu – e que ainda sussurra em nossos ouvidos – tenta nos convencer de que podemos ter o Salvador sem reconhecer Seu senhorio. João, porém, declara que não podemos desfrutar da Luz enquanto permanecemos nas trevas (cf. 1 João 1:5-7). A ética cristã, portanto, não é um fardo de regras, mas a evidência de que a vida de Cristo se manifesta em nós. Por isso, os “Seus mandamentos não são difíceis de guardar” (1 João 5:3).
Defender a fé (apologética) e vivê-la (ética cristã) são as duas faces da mesma moeda. Não há conhecimento de Deus que não resulte em um amor prático, visível e obediente. Que possamos, como João, olhar para o mundo com ternura, mas sem jamais relativizar a verdade de que seguir a Jesus é, acima de tudo, andar como Ele andou (cf. 1 João 2:6). 
FELIPE DOS SANTOS CARDOSO é pastor em Campo Mourão (PR)
Referências
1 Justo González, Breve Dicionário de Teologia (Hagnos, 2009), p. 95.
2 Hernandes Dias Lopes, 1, 2 e 3 João: Como Ter Garantia da Salvação (Hagnos, 2010), p. 22.
3 González, Breve Dicionário de Teologia, p. 144, 145.
4 William Barclay, I, II, III Juan y Judas (La Aurora, 1974), p. 11, 12.
5 Franklin Ferreira, Servos de Deus: Espiritualidade e Teologia na História da Igreja (Fiel, 2014), p. 45.
6 Alisa Childers, Outro evangelho? Uma Resposta ao Cristianismo Progressista (Fiel, 2022), p. 93.
7 Ellen G. White, O Desejado de Todas as Nações (CPB, 2021), p. 537.
(Artigo publicado na Revista Adventista de setembro/2026)


