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Fé sem bandeiras

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Escrito por A Redação

Como o cristão deve se comportar em relação ao voto

Felippe Amorim

Em períodos eleitorais, aquilo que deveria ser conduzido com prudência e discernimento moral frequentemente se transforma em motivo de divisão, hostilidade e desgaste espiritual. Tanto na igreja quanto no ambiente familiar, não é raro ver irmãos na fé e parentes comprometendo a convivência por causa de preferências políticas, como se a lealdade a candidatos ou projetos humanos pudesse determinar a fidelidade a Deus.

Nesse contexto, o debate deixa de ser apenas uma questão cívica e passa a afetar a comunhão, o testemunho cristão e a saúde espiritual da comunidade. O problema não está no exercício do voto, mas na maneira como o processo eleitoral pode despertar paixões, rivalidades e atitudes incompatíveis com a vida cristã.

É justamente nesse ponto que os conselhos de Ellen White se mostram profundamente atuais. Ao tratar do voto, ela não orienta o povo de Deus nem à omissão irresponsável nem ao ativismo político. Ao comentar a discussão entre irmãos acerca da participação nas eleições, ela escreveu: “Que todos eles procedam no temor de Deus!”1 Mais adiante, advertiu: “Sejam quais forem as opiniões que tenham com relação a dar seu voto em questões políticas, não devem proclamá-las pela caneta ou pela voz.”2

Dessas declarações emerge um princípio essencial: o cristão deve exercer seu direito de voto com consciência, responsabilidade e discrição, sem transformar suas convicções políticas em instrumento de agitação, disputa ou afirmação de superioridade moral.

Responsabilidade moral

Nos conselhos de Ellen White, o cristão não é chamado à omissão diante da vida pública. Ao contrário, quando estão em jogo princípios morais relevantes, ela reconheceu a legitimidade de exercer influência “a favor do que é correto e contra o erro”.

Ao relatar uma discussão entre irmãos acerca da participação nas eleições, ela escreveu que “eles acharam melhor pôr sua influência a favor do que é correto e contra o erro. Eles acham que é correto votar em favor dos homens defensores da temperança para governar nossa cidade, em vez de, por seu silêncio, correr o risco de serem eleitos homens intemperantes”.3

O contexto histórico ajuda a compreender melhor a citação. No século 19, especialmente nos Estados Unidos, o movimento de temperança ocupava lugar central no debate moral e social, promovendo a moderação – e, muitas vezes, a abstinência total do álcool – como resposta aos graves males causados pela embriaguez. Igrejas e organizações civis engajavam-se amplamente nessa causa por reconhecerem os efeitos destrutivos das bebidas alcoólicas sobre a família e a sociedade.

Assim, quando Ellen White mencionou os defensores da temperança, não se referia a uma preferência política trivial, mas a uma questão de evidente relevância moral, ligada à preservação da vida, da família e do bem-estar da sociedade.

Esse entendimento corrige um equívoco frequente: a ideia de que espiritualidade exige neutralidade absoluta diante de toda decisão pública. O que ela aprovava não era o partidarismo, mas a responsabilidade moral. O cristão pode votar quando entende que sua decisão representa apoio ao que mais se aproxima do direito e oposição ao que promove o erro.

O voto, nesse sentido, não é expressão de paixão política, mas ato de consciência. Não se trata de idolatrar candidatos, mas de reconhecer que a omissão também pode produzir consequências morais. O ponto central é claro: o cristão não deve submeter sua consciência nem ao fanatismo político nem à passividade. Toda decisão deve ser tomada no temor de Deus.

Discrição do voto

Se, por um lado, Ellen White reconhecia a legitimidade do voto como expressão de consciência, por outro, estabeleceu um limite igualmente claro: ele não deve ser convertido em instrumento de militância ou promoção de preferências políticas no meio do povo de Deus.

Seu conselho foi direto: “Sejam quais forem as opiniões que tenham com relação a dar seu voto em questões políticas, não devem proclamá-las pela caneta ou pela voz. Nosso povo deve ficar em silêncio acerca de questões que não têm relação com a terceira mensagem angélica.”4

Esse princípio corrige uma tendência recorrente em períodos eleitorais: a exposição pública de convicções políticas como se fossem extensão direta da fé. O problema não está apenas no conteúdo da opinião, mas no risco de perda do foco espiritual.

Quando questões políticas ocupam o centro das conversas e das tensões no ambiente eclesiástico, o que é secundário passa a competir com o que é essencial. Por isso, Ellen White orientou o silêncio em assuntos que não pertencem ao núcleo da missão da igreja.

O voto pode ser um legítimo ato de consciência, mas sua exposição pública pode facilmente gerar agitação, vaidade, pressão social e divisão. Quando membros da igreja anunciam suas escolhas como se fossem expressão normativa da fé, produzem confusão espiritual: o que é transitório assume aparência de definitivo, e o que é terreno passa a disputar espaço com o que é eterno.

Além disso, a exposição de preferências políticas raramente permanece neutra. Frequentemente, cria um ambiente de influência, constrangimento e polarização. Ainda que de forma indireta, estabelece-se a expectativa de que outros adotem a mesma posição, e a comunidade se fragmenta em torno de preferências humanas.

Em lugar de comunhão, instala-se a suspeita; em vez de unidade na missão, surgem facções em torno de preferências humanas. O conselho de Ellen White, portanto, revela profunda sabedoria pastoral: o cristão pode votar segundo sua consciência, mas não deve transformar isso em proclamação pública.

Assim, a escolha eleitoral pertence à esfera da responsabilidade individual diante de Deus, e não à esfera da militância verbal no ambiente da igreja. Ao exercer o dever cívico, não transforme seu voto em propaganda. Aja de acordo com sua consciência, mas com discrição. Isso preserva a liberdade de consciência, protege a unidade da igreja e impede que a política ocupe um espaço que pertence exclusivamente à verdade de Deus.

Liberdade individual

Outro conselho de Ellen White a respeito do tema é ainda mais específico. Não basta que o cristão deixe de anunciar seu voto; ele também não deve assumir para si a tarefa de persuadir outros a votarem como ele. A orientação é clara: “Mantenha secreto seu voto. Não fique achando que é seu dever insistir com todo o mundo para fazer do jeito que você faz.”5

O princípio aqui é inequívoco: o voto pertence ao âmbito da consciência individual diante de Deus, e não ao campo de controle de um irmão sobre a consciência do outro. Esse ponto é necessário porque o problema não se limita à exposição de preferências, mas à tentativa de transformá-las em norma para os demais. Infelizmente, em períodos eleitorais, muitos passam a agir como se sua avaliação tivesse caráter obrigatório, procurando recrutar, controlar e medir os outros por sua própria régua política.

Quando isso acontece, a convivência cristã é afetada. O ambiente deixa de ser fraterno e passa a ser marcado por pressão e disputa de lealdades. Em lugar de comunhão, surgem imposições; em vez de unidade, facções. O que deveria ser tratado com reserva e responsabilidade converte-se em campanha, patrulhamento e disputa de influência. Ellen White rejeitou esse comportamento com clareza.

O cristão deve buscar princípios, orar, refletir e agir no temor de Deus, mas não deve confundir sua responsabilidade pessoal com uma autorização para dirigir a consciência dos outros. Cada membro comparece diante de Deus com responsabilidade própria; cada um deve decidir com seriedade moral. Por isso, nenhum irmão deve tratar o outro como massa de manobra eleitoral.

Cidadania cristã

Os conselhos de Ellen White sobre o voto são simples, mas profundamente necessários. Eles não incentivam nem a omissão irresponsável nem o engajamento político ruidoso. O que estabelecem é um caminho de equilíbrio: o cristão pode votar quando entende que há princípios morais em jogo; deve fazê-lo com temor a Deus e senso de responsabilidade, mas não deve transformar sua escolha em propaganda pública nem assumir como missão persuadir outros a votar como ele.

Se esses princípios fossem mais respeitados, haveria menos discussões inúteis, ressentimentos, divisões entre irmãos e menor desgaste nas famílias. Muitos conflitos não nascem apenas do fato de as pessoas pensarem de forma diferente, mas da insistência em transformar preferências políticas em pauta permanente, critério de julgamento e motivo de hostilidade.

Quando isso acontece, a comunhão é ferida, a missão perde espaço e a igreja passa a refletir mais o espírito do mundo do que o espírito de Cristo. Os conselhos de Ellen White tratam exatamente desse problema, ao impedir que o processo eleitoral seja transformado em palco de exibição, pressão e disputa.

Ao mesmo tempo, esses princípios preservam duas dimensões que não podem ser sacrificadas: a responsabilidade moral e a liberdade de consciência. O cristão não deve ser manipulado pela pressão do grupo nem deve manipular os outros. Não deve ser indiferente aos problemas morais e sociais que afligem a sociedade, mas também não deve absolutizar sua opinião política.

Seu dever é agir diante de Deus com oração, prudência, discrição e fidelidade espiritual. Isso exige maturidade, pois é mais fácil gritar do que refletir, pressionar do que respeitar, militar do que agir com humildade.

No fim, a pergunta decisiva não é apenas em quem votar, mas como viver o período eleitoral de modo digno do evangelho. A resposta bíblica permanece válida: “Portanto, se vocês comem, ou bebem ou fazem qualquer outra coisa, façam tudo para a glória de Deus” (1 Coríntios 10:31). Esse princípio também se aplica ao voto.

O cristão deve atravessar o processo eleitoral não dominado pela paixão política, pelo orgulho ideológico ou pela disputa carnal, mas orientado por um propósito superior: viver, escolher e agir para a glória de Deus. 

FELIPPE AMORIM é professor na Faculdade de Teologia do Uniaene, em Cachoeira (BA)

Referências

1 Ellen G. White, Mensagens Escolhidas (CPB, 2023), v. 2, p. 285.

2 White, Mensagens Escolhidas, v. 2, p. 284.

3 White, Mensagens Escolhidas, v. 2, p. 284, 285.

4 White, Mensagens Escolhidas, v. 2, p. 284.

5 White, Mensagens Escolhidas, v. 2, p. 284.

(Matéria de capa da Revista Adventista de agosto/2026)

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