Diogo Cavalcanti
O mundo como o conhecíamos deixou de existir. Uma série de transformações simultâneas redesenham a ordem internacional e a própria história diante dos nossos olhos. Movimentações geopolíticas, conflitos militares, disrupção tecnológica e industrial nos levam à perplexidade, a um senso de hesitação, dúvida e desrealização (de que não parece real) perante fatos que nos assustam. Não escapamos ao assombro em relação a acontecimentos que ora confirmam ora parecem contradizer elementos centrais da nossa escatologia, e isso não vem de hoje (veja o quadro).
“Perigos apocalípticos”
Basta entender um pouco de política, economia e história para perceber que vivemos em meio a um terremoto geopolítico, a começar pela ordem mundial. Há poucos anos liderada isoladamente pelos Estados Unidos, essa posição agora é disputada pela China, que já ascendeu ao patamar de superpotência. Após crescer a taxas superiores a 10% por mais de três décadas, o país asiático atingiu a marca de 18,4 trilhões de dólares do PIB,1 de acordo com o Banco Mundial (2024). Para se ter uma ideia da enormidade desse salto, em 1995 o PIB chinês era menor que o do Brasil.2
Em 30 anos, o país asiático subiu à estratosfera geopolítica, tornando-se líder mundial em inúmeras áreas, da indústria espacial à computação quântica. A China também tem oito entre as dez melhores universidades do mundo.3 Toda essa pujança não decorreu da assimilação de valores democráticos. Pelo contrário: mantém um massivo aparato tecnológico de controle, através de milhões de câmeras e de um sistema de crédito social.
Ao redor do mundo, as novas tecnologias, que prometiam disseminar a liberdade e a democracia, acabaram por miná-las. Em alguns países islâmicos, por exemplo, câmeras e computadores monitoram populações inteiras. Por sua vez, ao redor do mundo, as interações digitais, reguladas por algoritmos, acabaram produzindo uma acirrada polarização política e ideológica que explode em fanatismo e violência.
Em meio ao sucesso do autoritarismo tecnológico, as democracias ocidentais se veem cada vez mais enfraquecidas. Assim, em um panorama de feroz disputa geopolítica, há uma pressão crescente para que a governança se torne mais centralizada, nacionalista e autoritária. Daí abre-se o caminho para líderes demagógicos prometendo milagres.
Por outro lado, fatores diversos como as desigualdades econômicas, o aumento da violência, conflitos armados e a gravíssima queda da taxa de natalidade nos países mais ricos estão ligados à imigração em massa recente, com 281 milhões de imigrantes e 117 milhões de refugiados, segundo relatório da ONU, de 2022.4
Como não ocorria desde a Segunda Guerra Mundial, uma luta sangrenta entre nações, com anexação de territórios, voltou a ser travada em solo europeu. Nesse ínterim, outros conflitos eclodiram no Oriente Médio e têm relação com o conflito europeu. A proliferação e a interrelação de guerras, bem como as tensões que se espalham pelo planeta leva o mundo inteiro a temer pelo pior. O resultado é a maior corrida armamentista desde a Guerra Fria, com 2,9 trilhões de dólares em gastos militares somente em 2025.5
Isso lembra os anos anteriores à Primeira Guerra Mundial, iniciada em 1914 (veja o quadro). Para piorar, os arsenais nucleares recentemente deixaram de estar sob a restrição de acordos internacionais. As principais potências se comprometeram a modernizar e ampliar seus estoques, dando um péssimo exemplo a outras nações que aspiram se nuclearizar.
Por essa e outras razões, o relógio do fim do mundo, criado por cientistas atômicos, foi adiantado para 85 segundos para a meia-noite, sua pior posição desde sua criação nos tempos da Guerra Fria. Segundo um parecer dos estudiosos, “entendimentos globais arduamente conquistados estão desmoronando, acelerando uma competição entre grandes potências […] e minando a cooperação internacional crítica para reduzir os riscos de guerra nuclear, mudanças climáticas, uso indevido da biotecnologia, a ameaça potencial da inteligência artificial e outros perigos apocalípticos.”6
Vigiar o tempo
“Vigiar” é um imperativo bíblico (1 Coríntios 16:13; 1 Pedro 5:8). O verbo original, grēgoreō, tem que ver com estar acordado e vigilante, alerta,7 em contínua prontidão.8 Significa manter uma preparação espiritual, porém relacionada ao tempo profético (Mateus 24:42). Não sabemos o momento exato da vinda do Senhor, mas Ele nos indicou sinais de sua proximidade, como os tempos de uma nova estação: o verão e a colheita. É interessante notar que, em hebraico, a palavra para “verão” (qayits) tem que ver com “fim” (qēts). Essa é uma conexão evidente em Amós: “O que você está vendo, Amós? E eu respondi: ‘Um cesto de frutos de verão [qayits].’ Então o Senhor me disse: Chegou o fim [qēts] para o Meu povo de Israel” (Amós 8:1, 2). O fim é metaforizado como um fruto maduro, algo que chega ao ponto final de um processo.
Na mente dos discípulos, que falavam aramaico, mas tinham noções vivas do hebraico, a parábola da figueira teve profundo impacto. “Aprendam a parábola da figueira: quando já os seus ramos se renovam e as folhas brotam, vocês sabem que o verão está próximo. Assim, também vocês, quando virem todas estas coisas, saibam que está próximo, às portas” (Mateus 24:32, 33). Essa parábola lança um princípio profético tão negligenciado quanto abusado em nossos dias: observar apropriadamente os tempos em que vivemos.
Não podemos ignorar os fatos e levar nossa vida adiante sem nenhuma preparação. Isso decorreria da indiferença não só aos acontecimentos, mas à própria autoridade da Bíblia. Ser indiferente é agir como os antediluvianos (Mateus 24:37-39), os céticos e os zombadores (2 Pedro 3:3, 4). Também é a postura do protestantismo secularizado que abraçou a abordagem preterista de estudo das profecias apocalípticas e que não vê qualquer significância nos fatos atuais.
Contudo, Jesus chamou atenção à importância “de vermos estas coisas”, ou seja, os acontecimentos ou sinais (Mateus 24:1-31), como uma indicação de que o verão – a maturação e o fim da história humana de pecado – está próximo. Contudo, isso não deve nos levar ao alarmismo. Ele é marcante na abordagem futurista, a qual costuma chamar atenção para fatos específicos do presente como cumprimentos escatológicos gritantes.
Ao “ler” a realidade atual, nosso desafio é enxergar o cumprimento da profecia na história, e o presente também faz parte dela. Porém não podemos torcer a história para harmonizá-la à nossa interpretação profética e muito menos torcer a profecia para harmonizá-la à história, dizendo, por exemplo, que a China é o dragão de Apocalipse 12.
Princípios úteis
A fim de evitar os extremos da indiferença e do fanatismo, precisamos estar atentos tanto à forma de olhar para o texto bíblico quanto para a realidade atual. Seguem quatro princípios básicos:
1. O estudo das profecias deve ser multifacetado. Imagine um diamante: ele tem várias faces; cada uma reflete a luz de uma maneira. Para desenhar bem um diamante e compreendê-lo, é preciso contemplar cada uma de suas faces. Assim também é o estudo das profecias de Daniel e do Apocalipse. Precisamos começar por uma forma bíblica de interpretar – uma hermenêutica bíblica – seguida por uma exegese ou interpretação do texto específico que contemple todos os elementos envolvidos: a língua original, a etimologia, bem como a morfologia, a gramática, a sintaxe, o contexto literário, o tempo em que o texto foi escrito, a literatura e a iconografia da época, sem nos esquecer da relação do texto com o restante das Escrituras. Também é vital considerar a mensagem profética, em grande parte, incompreensível a Daniel e João quando a escreveram (Daniel 7:15; 8:27; 12:4, 8, 9). Porém, essa mensagem se tornaria compreensível no tempo do fim à luz da história (Daniel 12:4; João 16:4; Apocalipse 10:1-11) que se estende desde o tempo do autor bíblico até os dias atuais, segundo o modelo da explicação historicista bíblica do anjo-intérprete em Daniel 7 (v. 17, 23-27).
2. É preciso observar as grandes tendências atuais e não se perder com distrações periféricas ou não reveladas. Aspectos como o ano da volta de Jesus e dispositivos relacionados à marca da besta são pautas de uma visão futurista da realidade. Não devemos perder tempo com o que a Palavra não revelou (Deuteronômio 29:29). O grande ponto é: Como as tendências ajudam a mostrar em que direção os ventos da história seguem? Quais situações proféticas seriam plausíveis? Por exemplo, as sociedades democráticas estão mais ou menos inclinadas a abrir mão dos direitos individuais? Essa é uma forma mais segura de ler os tempos em que vivemos e descobrir se a água está esquentando antes de ela começar a ferver.
3. A história humana não é determinista nem caótica, mas avança de acordo com a concessão divina. É certo que os líderes humanos têm liberdade para tomar suas decisões, mas não significa que Deus abandonou a Terra (deísmo) nem que Ele determina cada evento (uma filosofia determinista da história). Deus dá liberdade para a ação humana, mas também estabelece limites que, quando ultrapassados, levam à ruína de líderes (Daniel 4:29-33) e potências mundiais (Daniel 5:27-31). A própria existência dos países ocorre por concessão divina (Atos 17:26, 27).
4. Acontecimentos históricos podem surpreender nossas expectativas, mas ao final confirmam a profecia. Após 1945, muitos questionavam o cumprimento da visão adventista de Apocalipse 13, pelo fato de existir uma superpotência antagônica e rival aos Estados Unidos, a União Soviética. Hoje é tão surpreendente a ascensão da China quanto o aparente declínio dos Estados Unidos e isso parece contradizer todo o nosso entendimento de Apocalipse 13. Porém, os eventos ainda estão se desenrolando e coisas podem mudar: a China pode ter graves retrocessos, e os problemas que afligem os Estados Unidos podem ser contornados por medidas extremas que levem, mais cedo ou mais tarde, ao cenário profético.
Medidas desesperadas geralmente ocorrem em situações de grave crise, e alianças se formam quando a força de uma única parte é insuficiente. Então, cabe aqui uma pergunta: A segunda besta de Apocalipse 13 age somente a partir de uma posição de força ou também de fraqueza, pelo fato de precisar se aliar e se submeter à primeira besta? O que um evangelicalismo cada vez mais envolvido na política indica como tendência para os próximos anos? O que uma ala liberal-secular cada vez mais agressiva aos princípios judaico-cristãos indica sobre a batalha decisiva de Daniel 11?
Ellen White afirmou que “a Bíblia revela a verdadeira filosofia da história”9 e que “na Palavra de Deus […] a cortina é afastada, e contemplamos em todas as dimensões e em toda a marcha e contramarcha das paixões, do poder e dos interesses humanos a força de um Ser misericordioso, que executa, de forma silenciosa e paciente, as determinações de Sua própria vontade.”10 Isso nos tranquiliza, anima e dá esperança. Os fatos atuais fazem aparecer blips no nosso radar, por um lado confirmando as profecias. Por outro, notamos coisas estranhas e novas às nossas expectativas. Isso nos faz mais humildes em relação aos detalhes e ao mesmo tempo confiantes na palavra profética e na direção divina.
SAIBA +


DIOGO CAVALCANTI, ex-gerente editorial associado da CPB, é estudante do PhD em Teologia do Antigo Testamento pela Universidade Andrews (EUA)
(Matéria de capa da Revista Adventista de junho/2026)
Referências
1 World Bank, “GDP (current US$) – China”, https://data.worldbank.org/indicator/NY.GDP.MKTP.CD?locations=CN.
2 Alexandre Pierro, “O que o Brasil deve aprender com a China”, Empresas & Negócios, 18 de julho de 2025, https://jornalempresasenegocios.com.br/artigos/o-que-o-brasil-deve-aprender-com-a-china.
3 Leiden Ranking Traditional Edition, https://traditional.leidenranking.com/ranking/2025/list; Mark Arsenault, “Chinese Universities Surge in Global Rankings as U.S. Schools Slip”, The New York Times, 15 de janeiro de 2026, https://www.nytimes.com/2026/01/15/us/harvard-global-ranking-chinese-universities-trump-cuts.html.
4 OIM-ONU, “Relatório Mundial sobre Migração de 2024 revela as últimas tendências e desafios mundiais para a mobilidade humana”, 7 de maio de 2024, https://brazil.iom.int/pt-br/news/relatorio-mundial-sobre-migracao-de-2024-revela-ultimas-tendencias-e-desafios-mundiais-para-mobilidade-humana#:~:text=Com%20281%20milhões%20de%20migrantes,milhões%20ao%20final%20de%202022.
5 Stockholm International Peace Research Institute, “Global military spending rise continues as European and Asian expenditures surge”, 27 de abril de 2026, https://www.sipri.org/media/press-release/2026/global-military-spending-rise-continues-european-and-asian-expenditures-surge.
6 “It is now 85 seconds to midnight”, Bulletin of the Atomic Scientists, https://thebulletin.org/doomsday-clock/2026-statement/.
7 James Swanson, Dictionary of Biblical Languages with Semantic Domains: Greek (New Testament (Logos Research Systems, 1997); Logos Bible Software.
8 Johannes P. Louw e Eugene Albert Nida, Greek-English Lexicon of the New Testament: Based on Semantic Domains (United Bible Societies, 1996), p. 332.
9 Ellen G. White, Educação (CPB, 2021), p. 123.
10 White, Educação, p. 123.


