Gabriel Galvani e Walter Batista
Se pudéssemos voltar ao passado para conhecer os primeiros tempos da Igreja Adventista, encontraríamos um pequeno rebanho de crentes empenhando suas energias e seus recursos no cumprimento da missão profética de pregar o evangelho eterno (Apocalipse 14:6).
Com o crescimento gradual do movimento durante a década de 1850, surgiram desafios administrativos e financeiros, tornando necessária uma estrutura organizacional capaz de coordenar a obra e sustentar o ministério. Em 1859, foi implantada a “Benevolência Sistemática”, o primeiro plano de apoio contínuo ao ministério. Em 1861, adotou-se o sistema dizimal e, a partir de então, “houve um desenvolvimento gradual, tanto na base para determinar as obrigações dos crentes como no uso exato que deveria ser dado a essa fonte de renda do evangelho”.1
Atualmente, a devolução dos dízimos e a entrega das ofertas são práticas consolidadas na Igreja Adventista e têm contribuído para o cumprimento de sua missão mundial.
Embora o princípio do dízimo seja simples, sua aplicação pode suscitar dúvidas em uma realidade financeira muito mais complexa do que a dos tempos bíblicos. Salários, benefícios, descontos em folha e diferentes formas de renda tornam seu cálculo menos intuitivo, sobretudo para autônomos, profissionais liberais e empresários.
Como cristãos, desejamos ser fiéis a Deus em todas as coisas, tanto nas pequenas quanto nas grandes, especialmente quando se trata da devolução do dízimo. Mas, para isso, é preciso saber como calculá-lo corretamente.
Este artigo foi preparado com o objetivo de fornecer informações práticas que auxiliem profissionais celetistas, autônomos, liberais e empresários nesse importante compromisso. Antes, porém, trataremos brevemente dos princípios bíblicos de mordomia relativos à devolução do dízimo.
Princípios teológicos
Deus é o benevolente Criador de tudo o que existe, e nós, criaturas feitas à Sua imagem, recebemos a incumbência de administrar com amor o que Ele colocou em nossas mãos. Esse é o fundamento do conceito bíblico de mordomia, que é mais amplo “do que uma limitada declaração de crença. Trata-se de um princípio dinâmico sob o qual atua o reino de Deus”.2
Adão e Eva foram criados como súditos e representantes desse reino. A eles foi dada a missão de cuidar do planeta como mordomos do Criador. Isso significava que deviam agir tendo em vista o supremo propósito divino: o bem-estar da criação. Como filhos do Pai celestial, os seres humanos foram chamados a desempenhar, em menor escala, um papel semelhante ao de Deus no Universo. Assim como Ele cuida amorosamente de todo o cosmo, o primeiro casal devia cuidar amorosamente deste mundo, pois “a realidade do ser humano portador da imago Dei [imagem de Deus] tem como implicação o chamado para a imitatio Dei [imitação de Deus]”3 – um princípio também expresso no convite divino para o descanso sabático (Gênesis 2:1, 2).
Embora a queda tenha mudado a dinâmica do relacionamento do ser humano com o Criador, com a natureza e com seu próximo, a vocação para a administração amorosa continuou válida, mas com um foco expandido. Antes do pecado, Adão e Eva deviam cuidar de um mundo perfeito; depois, receberam também a missão de cooperar com Deus no plano de restauração do planeta e de seus habitantes. Ao chamado à mordomia da criação foi agregado o chamado à mordomia da redenção.
Cumprir essa vocação envolve todas as esferas da vida, inclusive a financeira. Abraão é um exemplo disso. Após a vitória sobre Quedorlaomer, ele entregou a Melquisedeque o “dízimo de tudo” (Gênesis 14:20), oferecendo a mais antiga evidência da manutenção do ministério religioso por meio dos dízimos. Seguindo seu exemplo, Jacó prometeu, no voto que fez em Betel, devolver o dízimo de tudo o que o Senhor lhe concedesse (Gênesis 28:22).
Quando a lei referente ao dízimo (Números 18:21-32) foi dada ao povo de Israel, ela não era algo novo. A grande novidade consistia na existência de um santuário e de uma tribo dedicada exclusivamente ao ministério religioso, a qual devia ser mantida pelos dízimos e pelas ofertas do povo.
O santuário era o centro da vida religiosa da nação, e seus serviços eram a forma escolhida por Deus para anunciar o evangelho ao mundo. Pelo contato com o povo e com esse centro de adoração, os gentios podiam aprender sobre o plano da redenção centrado no sacrifício e no ministério sacerdotal de Cristo (cf. 1 Reis 10:1-9).
Hoje, o santuário e o ministério levítico não existem mais. O Senhor tem usado a igreja como Seu instrumento na pregação do evangelho. Embora não haja um paralelo perfeito entre o ministério dos levitas e o dos pastores, ambos têm em comum a dedicação exclusiva à obra de Deus. Foi por esse motivo que os pioneiros adventistas tomaram como base o precedente israelita do dízimo para o estabelecimento de um sistema de apoio contínuo ao ministério.4
Em 1875, Ellen White escreveu: “O sistema especial de dízimos se baseia em um princípio tão duradouro quanto a lei de Deus. Esse sistema foi uma bênção ao povo judeu […]. Logo, será igualmente uma bênção aos que o observarem até o fim dos tempos. Nosso Pai celestial não instituiu o plano da doação sistemática com o intuito de enriquecer-Se, mas para que tal plano fosse uma grande bênção ao ser humano. Viu que o referido sistema era exatamente aquilo que o homem necessitava.”5
Ao participarmos da missão de Deus por meio de nossos recursos, alinhamos nossa vontade ao Seu propósito redentivo. “Os interesses e preocupações divinas se tornam os interesses e as preocupações dos crentes.”6 A convergência da vontade humana com a vontade divina é o próprio alvo da santificação, que deve abranger todas as esferas da vida. Nada fica fora do plano espiritual. Nesse sentido, “a devolução do dízimo nos poupa de uma falsa dicotomia entre o espiritual e o material”.7 Além disso, a devolução do dízimo é um convite à fé, à confiança serena no poder mantenedor de Deus, que não precisa de dinheiro para suprir nossas necessidades.
Fidelidade na prática
Após a exposição dos princípios teológicos que fundamentam a prática do dízimo, a atenção se volta para sua aplicação prática, orientada por três princípios essenciais.
Em primeiro lugar, o dízimo deve ser devolvido de forma livre, voluntária e com alegria. A esse respeito, Ellen White escreveu: “O dízimo fiel é a parte do Senhor. Retê-lo é roubar a Deus. Toda pessoa deve trazer livre, voluntária e alegremente os dízimos e ofertas à casa do tesouro do Senhor, pois, em fazê-lo, há uma bênção. Nenhuma segurança há em reter de Deus a parte que Lhe pertence.”8
Em segundo lugar, o dízimo é calculado sobre toda a entrada de valores que represente um aumento real de patrimônio. “Certamente vocês devem dar o dízimo de todo o fruto das suas sementes, que ano após ano se recolher do campo” (Deuteronômio 14:22, ênfase acrescentada). Ellen White afirmou: “Quanto à quantia exigida, Deus especificou um décimo do aumento da renda.”9
Em terceiro lugar, o dízimo deve ter primazia. “Honre o Senhor com os seus bens e com as primícias de toda a sua renda” (Provérbios 3:9). Ao comentar esse texto, Ellen White disse: “Isso não significa que devemos gastar nosso dinheiro com nós mesmos, levando ao Senhor o restante, muito embora esse também seja um dízimo honesto. A parte de Deus deve ser separada em primeiro lugar.”10
Mas há um elemento fundamental que precede a aplicação desses princípios: a organização financeira. Controlar cada entrada e cada saída de recursos não é burocracia vazia, mas uma forma de cuidar adequadamente daquilo que Deus colocou em nossas mãos.
Assim como o sábado, a devolução do dízimo é uma experiência periódica de confiança em Deus, que nos fez a seguinte promessa: “Tragam todos os dízimos à casa do Tesouro, para que haja mantimento na Minha casa. Ponham-Me à prova nisto, diz o Senhor dos Exércitos, se Eu não lhes abrir as janelas do céu e não derramar sobre vocês bênção sem medida. Por causa de vocês, repreenderei o devorador, para que não consuma os produtos da terra, e não deixarei que as suas videiras nos campos fiquem sem frutos, diz o Senhor dos Exércitos” (Malaquias 3:10, 11).

O CÁLCULO DO DÍZIMO
Profissionais regidos pela CLT
Para quem trabalha com carteira assinada, o cálculo do dízimo é relativamente simples. É preciso levar em conta o salário bruto final,11 antes de qualquer desconto. Isso significa que não se deve subtrair o Imposto de Renda ou a contribuição para a Previdência Social. O Imposto de Renda é uma obrigação para com o Estado, enquanto o desconto da previdência corresponde a uma contribuição da qual o trabalhador usufruirá no futuro, em forma de aposentadoria. Portanto, para se chegar ao valor correto, é necessário somar tudo o que entra como ganho real: salário-base, horas extras, gratificações, comissões de vendas, 13o salário, adicional de férias, entre outras entradas.
Uma dúvida comum diz respeito ao FGTS. Como ele é um valor que a empresa deposita em uma conta que não pode ser administrada livremente pelo trabalhador, ele pode ser devolvido quando for sacado.
Existe ainda um grupo de valores que são pagos ao trabalhador com o intuito de auxiliá-lo nas despesas relativas à realização do trabalho: vale-transporte, auxílio quilometragem, diárias de hotel, etc. Como não representam aumento de patrimônio, não precisam ser dizimados. No entanto, se o benefício exceder os gastos reais, o valor excedente deve ser considerado lucro e, portanto, incluído no cálculo do dízimo.
Profissionais autônomos e liberais
Os profissionais que trabalham por conta própria – sejam eles liberais (médicos, advogados, psicólogos, consultores) ou autônomos (eletricistas, pedreiros, diaristas, fotógrafos) – lidam com rendimentos que variam mensalmente. Além disso, uma parcela de sua entrada de capital diz respeito aos custos operacionais (gastos diretamente ligados à prestação do serviço) e a outra, à renda pessoal.
Este é o princípio central para esses dois grupos: o dízimo deve ser calculado apenas sobre o ganho real (o lucro líquido), e não sobre todos os valores que entram no caixa. Para tanto, é preciso somar todas as entradas do mês e subtrair os gastos operacionais – compra de matéria-prima, aluguel de salão, impostos e taxas relativas ao exercício da profissão, além das contas de água, luz e internet do local de trabalho. A organização é fundamental. Processos de contabilidade adequados podem ser muito úteis nessa tarefa. Caso contrário, o dízimo será calculado sobre o valor errado.
Em um conselho dirigido a administradores de instituições adventistas, também válido para profissionais autônomos e liberais, Ellen White afirmou: “Em toda empresa e em toda instituição, o responsável pela escrituração deve fazer um registro claro de cada quantia recebida e de cada quantia paga. Assim, não haverá dúvida quanto ao destino dado ao dinheiro.”12
Empresários
Para os empresários, a despeito do tamanho de seu negócio, a regra número um é: separar os recursos da empresa dos recursos pessoais. Misturar a conta da pessoa jurídica com a da pessoa física é um erro que prejudica a saúde financeira da empresa e dificulta o cálculo do dízimo, o qual deve ser devolvido tanto dos lucros pessoais quanto dos lucros da empresa, levando-se em conta três elementos essenciais.
Primeiro, o pró-labore, que é o salário mensal que o empresário define para si mesmo por seu trabalho na administração do negócio. Quando esse valor é transferido para sua conta pessoal, aplica-se o mesmo princípio de cálculo do dízimo do profissional celetista.
Segundo, a distribuição de lucros, ou dividendos. Periodicamente, a empresa faz o balanço e distribui o lucro excedente para os sócios. Quando esse dinheiro entra na conta da pessoa física, ele se torna ganho realizado, um aumento de patrimônio pessoal. Portanto, deve ser dizimado integralmente.
Terceiro, o dízimo da empresa deve ser calculado sobre o lucro líquido da atividade, apurado de acordo com os princípios contábeis da competência, que consideram, no mesmo período, todas as receitas e as despesas necessárias à sua obtenção. Assim, a base do dízimo corresponde ao aumento patrimonial efetivamente produzido pela empresa, e não ao faturamento bruto ou às entradas de caixa.
GABRIEL GALVANI é editor, e WALTER BATISTA é tesoureiro-assistente na Casa Publicadora Brasileira
Referências
1 Arthur L. White, “Como Começou o Sistema do Dízimo na IASD”, em Renato Groger e Rodrigo Follis (orgs.), Santo ao Senhor (Unaspress, 2011), p. 45-48.
2 Charles E. Bradford, “Mordomia”, em Raoul Dederen (org.), Tratado de Teologia Adventista do Sétimo Dia (CPB, 2011), p. 721.
3 Hans K. Larondelle, Nosso Criador Redentor (Unaspress, 2016), p. 8.
4 White, “Como Começou o Sistema do Dízimo na IASD”, p. 46-51.
5 Ellen G. White, Testemunhos Para a Igreja (CPB, 2021), v. 3, p. 334.
6 Bradford, “Mordomia”, p. 726.
7 Bradford, “Mordomia”, p. 726.
8 Ellen G. White, Conselhos Sobre Mordomia (CPB, 2021), p. 47.
9 Ellen G. White, Testimony Treasures (Pacific Press Publishing Association, 1949), v. 1, p. 373.
10 Ellen G. White, O Lar Adventista (CPB, 2021), p. 319, 320.
11 Demóstenes Neves, Mordomia Cristã Para Empreendedores, disponível em: https://deptos.adventistas.org/mordomiacrista/2022/mordomia-para-empreendedores-v2.pdf, p. 14.
12 Ellen G. White, “The Keeping of Records”, Pacific Union Recorder (19 de dezembro de 1901), p. 1.
(Artigo publicado na Revista Adventista de agosto/2026)
Imagem generativa: Renan Martin


