Há poucos dias, um estudo abrangente conduzido por pesquisadores brasileiros estimou que mais de 10% das crianças brasileiras de 5 a 9 anos preenchem os critérios para pelo menos um transtorno mental. A ansiedade aparece no topo da lista, seguida pelo TDAH, pelo transtorno de conduta e pelo transtorno do espectro autista.1 Os dados reforçam a necessidade urgente de olhar com mais atenção para a saúde mental infantil e desenvolver estratégias de conscientização, prevenção, diagnóstico e tratamento.
Embora o surgimento dos transtornos mentais seja multifatorial, não podemos ignorar nossa responsabilidade de refletir sobre o que podemos fazer, no lar, para proporcionar um ambiente emocionalmente saudável às nossas crianças. A preocupação com a atmosfera em que elas crescem, porém, não é recente. No primeiro século, Paulo recomendou: “Pais, não irritem os seus filhos, para que eles não fiquem desanimados” (Colossenses 3:21).
Como podemos irritar nossos filhos? A ideia transmitida pelo verbo utilizado pelo apóstolo é a de atitudes que fragilizam a autoestima infantil, comprometem a percepção de valor e pertencimento e que podem distorcer, inclusive, a compreensão da imagem de Deus na mente da criança. Isso inclui críticas constantes, expectativas excessivas, desvalorização, disciplina inadequada e amor condicionado.
O resultado disso é o “desânimo”, expresso por uma palavra grega que ocorre apenas uma vez em toda a Bíblia e que também carrega as ideias de desencorajamento e desesperança.2 Assim, a orientação sagrada chama atenção dos pais para o risco de produzir nos filhos apatia, insegurança e falta de esperança.
A vida cotidiana tem suas pressões e, infelizmente, muitas vezes, pais e mães podem acabar transferindo aos filhos as frustrações e os desencantos que experimentam. Contudo, nada deveria minar nossa responsabilidade de proporcionar às crianças o melhor contexto familiar para seu desenvolvimento integral.
Ellen White aconselhou: “O pai deve fazer sua parte para tornar o lar feliz. Sejam quais forem suas preocupações e perplexidades nos negócios, não permita que isso lance sombras sobre a família. Ele deve entrar em casa com sorrisos e palavras aprazíveis. […] Pais e mães, por mais urgentes que sejam seus afazeres, não deixem de reunir a família em torno do altar de Deus. Peçam a guarda dos santos anjos em seu lar. Lembrem-se de que seus queridos estão sujeitos a tentações. Aborrecimentos diários cobrem a estrada tanto dos jovens quanto dos mais idosos. Os que desejam viver de maneira paciente, amorável e satisfeita devem orar. Somente obtendo constante auxílio de Deus podemos alcançar a vitória sobre o eu.”3
Diante do preocupante quadro de saúde pública que afeta as crianças no Brasil, somos chamados a viver os princípios da Palavra de Deus como testemunho de sua inspiração, relevância e de seu poder transformador. Que nossos lares sejam ambientes de amor e segurança, verdadeiros faróis que apontem para Cristo, a fonte da vida abundante e feliz.
WELLINGTON BARBOSA é editor da Revista Adventista
Referências
1 Bruna Lopes, “Ansiedade lidera causas de incapacidade entre crianças de 5 a 9 anos”, disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/saude/ansiedade-lidera-causas-de-incapacidade-entre-criancas-de-5-a-9-anos-veja.
2 Francis D. Nichol (org.), Comentário Bíblico Adventista do Sétimo Dia (CPB, 2015), v. 7, p. 211.
3 Ellen G. White, A Ciência do Bom Viver (CPB, 2021), p. 243.
(Editorial da Revista Adventista de setembro/2026)


