Júlio Leal
Lida superficialmente, a Bíblia parece não falar muito da experiência subjetiva de “solteirice”, mas a cultura contemporânea vem explorando esse assunto até à exaustão. Atualmente, questões de identidade e de autoconhecimento interessam a todos. Artistas, filósofos e profissionais de diversas áreas têm sempre algo a dizer sobre o tema, desde cineastas até neurocientistas. O assunto ganhou destaque acentuado a partir da série britânica Adolescência, lançada no início de 2025 na internet. Ela ajudou a popularizar o termo incel, um acrônimo criativo que significa “solteiro involuntário” (in, de involuntário + cel, de celibato, ambos em inglês).
Embora a palavra seja nova, o conceito, em sua essência, não é. Um “solteiro involuntário” é alguém que deseja um relacionamento romântico, mas percebe que a concorrência é grande e sofre com a rejeição e a dificuldade de encontrar alguém. No cotidiano, na literatura universal e em todas as artes, esse drama é bem conhecido, nada confortável e nem sempre tem um final feliz.
Antigamente, os incels eram rotulados de “encalhados” e pareciam ser pessoas sem voz, marginalizadas e alvo de chacota constante. Três coisas, porém, mudaram recentemente. Primeiro, os incels deixaram de ser mulheres. Em outras palavras, agora são os cavalheiros, não as damas, que estão expressando abertamente – bem ou mal – a dor da rejeição amorosa. Na visão dos sociólogos e politólogos, porém, trata-se de uma questão de gênero, não de uma mera e inofensiva dor de cotovelo. Por essa razão, alguns estão argumentando que representa uma revanche antifeminista e que, devido a seu potencial para a violência, os incels devem ser energicamente combatidos. Segundo, graças às redes sociais e à pós-modernidade, os incels agora têm voz, visibilidade e influência crescente. Estão ganhando tanta relevância que já são tratados como um problema político e social, não apenas como um fenômeno cultural. No Reino Unido e em outros países, os debates a esse respeito têm crescido enormemente. Terceiro, a rebelião dos “solteiros involuntários” é um fenômeno que, aparentemente, une adolescentes e adultos jovens do sexo masculino em um movimento social capaz de transcender fronteiras geográficas e culturais.
Amor e rejeição na Bíblia
Apesar das numerosas histórias que narra (e do que o livro de Cantares de Salomão diz), a Bíblia ensina que só há um amor que importa e transforma, o de Deus. Todos os demais são apenas sombras, lampejos, faíscas ou clarões; fagulhas que incendeiam por alguns instantes, mas que se apagam em pouco tempo, por falta de combustível.
De acordo com as Escrituras, a matéria que sustenta o amor verdadeiro entre os seres humanos é Deus, o Criador do Universo. O amor-próprio (que não é pecado) e o amor ao próximo (que é um mandamento divino) dependem, em sua essência, da experiência de amar a Deus e ser amado por Ele. Até mesmo o amor carnal é, na Bíblia, uma metáfora do amor divino (Ezequiel 16:8; Oseias 3:1; Efésios 5:25, 32). O centro da mensagem bíblica, portanto, não é o sentimento não correspondido entre duas pessoas, mas o apelo a uma entrega total a Alguém que ama sem restrições e sem limites, com uma intensidade e perfeição que, embora inspiradora, jamais poderá ser alcançada pelo ser humano (1 Coríntios 13:4-8).
Esse amor, porém, que teria tudo para ser considerado “platônico”, quebra o paradigma romântico passional pois coloca em você, não no outro, o poder de decisão. Deus não é um objeto de amor inacessível nem alguém distante e hermético, e você também não deveria ser. O Senhor decidiu que você é importante para Ele e já deu todas as provas de que quer ficar ao seu lado (João 3:16). A palavra final, nesse sentido, não é Dele; é sua. A principal história da Bíblia, portanto, é a de um amor possível, que ela nos convida a conhecer e desfrutar.
Não obstante, embora valorize a vida a dois e o respeito à comunidade, o cristianismo enfatiza ainda mais os limites e o potencial do indivíduo como ser único e especial. Na visão cristã, o conflito entre o indivíduo e seu grupo social se resolve com o fortalecimento da consciência e da força de vontade humanas, não com o aniquilamento da subjetividade. A chave para a felicidade plena, portanto, está em suas mãos, não nas de sua amada (ou nas dos pais dela ou da sociedade à qual vocês pertencem). Trata-se do que você decide ser, apesar do bullying (embora ignorá-lo não seja bom), da baixa autoestima (ainda que cuidar dela seja essencial), das tradições familiares (por mais inevitável que seja lidar com elas) e do peso do passado (cujos traumas merecem atenção).
A complexidade de algo ou de alguém não nos autoriza nem a ignorar nem a supervalorizar nenhuma das partes do quebra-cabeça; do contrário, perde-se a harmonia. Uma história de equilíbrio, plenitude, restauração e cura não ocorre sem um fio condutor. Por isso, é necessário decidir o que será posto em primeiro plano e o que ficará em segundo; o que será reescrito em páginas marcadas por um passado impossível de apagar ou não se escreverá por falta de espaço no papel.
Jesus e os “solteiros voluntários”
O que Jesus diria a um garoto ou a um homem maduro que deseja um relacionamento amoroso, mas enfrenta a decepção de ser rejeitado ou o desafio de viver só? O texto-chave no Novo Testamento sobre esse dilema diz assim: “Porque há eunucos que nasceram assim do ventre da mãe; e há eunucos que foram castrados pelos homens; e há eunucos que a si mesmos se fizeram eunucos por causa do Reino dos céus. Quem pode receber isso, que o receba” (Mateus 19:12, ARC). Eunuco? O que Cristo quis dizer com essas palavras? Nessa passagem, Ele usou o termo “eunuco” com duplo sentido. Um “solteiro voluntário” nem sempre é um eunuco, mas pode ser. Portanto, o que Jesus disse se aplica também a mulheres e homens adultos “normais”, talvez inclusive aos adolescentes, e não só a pessoas castradas ou nascidas sem libido.
Jesus apresenta três situações de privação sexual. No primeiro caso, a pessoa parece estar em paz consigo mesma. Como uma criança pequena, ela está imersa em seu próprio mundo, com suas prioridades e pensamentos, não parecendo realmente interessada no tema. No terceiro caso, o indivíduo é regido não pela biologia nem pelos hormônios, mas por sua força de vontade, que “substitui” ou compensa, em grande medida, sua realização sexual. Em outras palavras, a psicologia, a moralidade e a espiritualidade dele são fortes o suficiente para mantê-lo ocupado e feliz em atividades, relacionamentos e outras áreas da vida, conforme sua vocação ou chamado. Isso supre suas necessidades físicas e emocionais, dando-lhe equilíbrio, motivação e propósito, a mesma função que o sexo desempenha na vida da maioria das pessoas.
Algo curioso na experiência desse “terceiro eunuco” é que a metáfora pode se referir a qualquer pessoa. Você, eu e qualquer outro ser humano que não seja “eunuco de nascença” passamos (ou passaremos) por experiências de privação na vida, e isso muitas vezes depende das circunstâncias, mais do que de nós mesmos. Por exemplo: antes de se casar (conforme o ideal bíblico), durante o casamento (em trabalho, viagem, enfermidade e outras circunstâncias) e na viuvez, separação, divórcio ou idade avançada (na ausência de um companheiro sentimental).
Vítima ou protagonista?
Entretanto, o “segundo eunuco” citado por Jesus em Mateus 19 é o mais parecido com o “solteiro involuntário”. Ele é privado de carinho e sexo por decisão de terceiros, ou seja, é simbolicamente “castrado pelos homens” e pelas mulheres que se recusam a favorecê-lo. Diante disso, pode sentir a tentação de dar o troco. Terá o impulso de protestar, vingar-se dos opressores ou desabafar publicamente (talvez em alguma rede social).
No entanto, o apelo sutil de Jesus aos Seus ouvintes é que não se deixem vitimizar pelas circunstâncias e assumam o protagonismo de seu próprio destino. “Quem pode receber isso, que o receba” (Mateus 19:12). Quem pode aceitar isso, aceite-o. Nesse ponto, existencialismo e cristianismo convergem. Em ambos os casos, a mensagem é a mesma: faça algo interessante com aquilo que a vida fez de você; surfe na onda em vez de lutar contra ela, sinta o desconforto da temperatura e da força da água, mas não deixe de subir na prancha e curtir o momento.
Aqui acabam as semelhanças. O pensamento relativista diz que, se alguém conseguir fazer isso, já fez tudo que devia. O apelo de Jesus, porém, é para que a pessoa vá além e faça isso com um propósito, por uma razão, não apenas para dar uma resposta ao ego ferido ou à sociedade hipócrita. E, no processo de descobrir (ou afirmar) quem o indivíduo é, Jesus apela para que ele descubra algo mais: descubra Deus.
Ele Se importa com os “solteirões”. Agora, se essa resposta teológica e “piedosa” não satisfaz – porque não ajuda a pessoa a viver a vida nem resolve os dilemas de seu dia a dia –, aqui estão minhas palavras finais: Quando alguém muda, o mundo à sua volta também muda. Ou a pessoa continua buscando sua “companheira idônea”, ou opta por se tornar um “solteiro involuntário” voluntariamente. Em ambos os casos, se agir assim, a vida fará um pouco mais de sentido.
JÚLIO LEAL é pastor, professor e escritor
(Artigo publicado na Revista Adventista de junho/2026)


