Luiz Gustavo Assis
Muitos de nós que imigramos para outro país sabemos como é viver longe de casa. Carregamos memórias de outra língua, outra cultura e outro modo de vida. Alguns chegaram a um novo país já adultos; outros, quando ainda eram crianças. Em certos casos, os filhos nasceram nesse país e o conhecem como seu único lar.
A Bíblia conta a história de um grupo que viveu uma experiência muito semelhante. Eles também estavam longe de casa, tentando construir uma vida em uma terra estrangeira. No início do século 6 a.C., o reino de Judá enfrentou uma crise devastadora. Por causa de sua persistente infidelidade à aliança com Deus, os babilônios invadiram Jerusalém, a capital do reino. Em 597 a.C., o rei Nabucodonosor ordenou a deportação de milhares de judeus para a Babilônia (2 Reis 24:13-16).
Esses judeus passaram a viver a centenas de quilômetros de sua terra natal. Agora estavam inseridos na cultura babilônica, cercados por costumes desconhecidos, por línguas como o acadiano e o aramaico e por práticas religiosas politeístas. Quando chegaram à Babilônia, Deus lhes enviou uma mensagem por meio do profeta Jeremias, que escreveu uma carta (Jeremias 29). Em vez de prometer um retorno rápido a Jerusalém, Deus lhes deu instruções surpreendentes:
“Construam casas e morem nelas; plantem pomares e comam o seu fruto. Casem e tenham filhos e filhas […] Procurem a paz da cidade para onde Eu os deportei e orem por ela ao Senhor; porque na sua paz vocês terão paz” (Jeremias 29:5-7).
Em outras palavras, Deus disse: “Vocês ficarão em Babilônia por algum tempo. Construam uma vida. Trabalhem. Plantem. Formem famílias.” O Senhor até mesmo revelou quanto tempo duraria essa permanência: 70 anos (v. 10). Durante muito tempo, imaginamos os judeus sentados às margens dos rios da Babilônia, chorando constantemente por Jerusalém, exatamente como descreve o Salmo 137. Certamente, havia os que ansiavam voltar para Jerusalém. Contudo, descobertas históricas da última década têm oferecido um quadro mais amplo da vida na diáspora judaica.
Cerca de 200 tabuletas de argila provenientes de um assentamento chamado Al-Yahudu, que significa “cidade dos judeus”, foram traduzidas nos últimos anos.1 Esse assentamento ficava no sul da Mesopotâmia, não muito longe da importante cidade de Nipur. As tabuletas registram transações cotidianas envolvendo judeus que viviam na Babilônia, como contratos, empréstimos, casamentos, acordos comerciais e disputas judiciais.
Por exemplo, uma delas descreve que Yapa-Yahu, esposa de Rapa’, atuou como fiadora da entrega de grandes quantidades de tâmaras e cevada em nome do marido. Outra relata uma disputa judicial envolvendo Nadab-Yama, acusado de se apropriar de tâmaras pertencentes a Ahiqam. Nadab-Yama, porém, jurou sob maldição que era inocente. Há ainda um documento em que Eriba e Ahiqam firmam um acordo para compartilhar um boi na preparação de um campo e dividir os lucros da atividade.
Essas famílias judaicas não estavam apenas sobrevivendo; estavam prosperando. Possuíam propriedades, administravam negócios e participavam ativamente da economia local. Alguns chegaram a se tornar bem-sucedidos. A família Murashu, por exemplo, empregava quase cem pessoas em seus negócios. Em outras palavras, estavam fazendo exatamente o que Jeremias lhes havia orientado: construir casas, plantar campos e viver sua vida na Babilônia. Não havia nada de errado nisso. Na verdade, esse era o plano de Deus para aquele período. Com o passar do tempo, porém, outro processo começou a ocorrer silenciosamente.
O perigo de esquecer
A primeira geração de exilados ainda se lembrava de Jerusalém. Lembrava-se do templo, das festas e da adoração ao Deus de Israel. Mas seus filhos cresceram na Babilônia. Assim como os filhos de imigrantes, hoje, frequentemente se identificam mais com o país onde cresceram, a geração seguinte de judeus gradualmente absorveu a cultura babilônica.
A primeira geração frequentemente dava aos filhos nomes que honravam o Deus de Israel, incluindo referências a Yahweh. Nas gerações seguintes, porém, tornaram-se cada vez mais comuns os nomes ligados à cultura babilônica. Vemos isso até mesmo na Bíblia. No livro de Ester, duas importantes figuras judaicas – Ester e seu tio Mordecai – têm nomes ligados a divindades babilônicas: Ishtar e Marduque. É verdade que Deus continuou a usá-los, mas sua identidade cultural refletia o ambiente em que viviam.
Muitas das tabuletas de Al-Yahudu contêm datas que, quando convertidas para o nosso calendário, mostram que muitas transações e atividades comerciais eram realizadas no sábado.2 Isso indica que, para muitos judeus na Babilônia, o dia de descanso instituído por Deus já não estava sendo observado como deveria.
Esses dois exemplos ilustram um perigo silencioso: quando a vida em uma terra estrangeira se torna confortável, é fácil perder de vista nossa identidade e esquecer onde realmente está o nosso lar.
O chamado para retornar
Após 70 anos, Deus cumpriu Sua promessa. Em 539 a.C., o rei persa Ciro conquistou Babilônia e, pouco depois, emitiu um notável decreto, sancionando que o templo fosse reconstruído, permitindo assim que o povo judeu retornasse a Jerusalém. Uma versão desse decreto aparece em Esdras 1. Contudo, apenas pouco mais de 40 mil pessoas retornaram (Esdras 2:64). Considerando o número de judeus espalhados pelo sul da Mesopotâmia naquela época, esse contingente foi relativamente pequeno. Por que tão poucos retornaram?
Porque muitos haviam construído uma vida confortável na Babilônia. Ela havia se tornado uma terra de oportunidades para os negócios, a educação, a arte e muitas outras atividades. Retornar a Jerusalém significava recomeçar em uma pequena província do Império Persa, em uma cidade arruinada e muito distante da prosperidade à qual estavam acostumados.
Há preciosas lições nessa história para nós, cristãos. O Novo Testamento nos lembra de que somos peregrinos e estrangeiros neste mundo (1 Pedro 2:11). No entanto, a vida aqui pode se tornar confortável. Construímos carreiras, formamos famílias, buscamos oportunidades profissionais e educacionais e desfrutamos muitas bênçãos. Nada disso é errado. Assim como Deus instruiu os judeus a construir e plantar, também somos chamados a viver fielmente onde Ele nos colocou.
Nossa esperança está inteiramente ligada a este mundo ou nosso coração está firmado no reino de Deus? Ao vermos os sinais de que a vinda de Cristo está próxima, iremos ignorá-los para continuar profundamente envolvidos em nossas atividades terrenas? O verdadeiro desafio para os cristãos é viver plenamente no mundo presente sem jamais perder de vista o futuro que Deus prometeu em Sua Palavra. 
LUIZ GUSTAVO ASSIS é pastor, mestre em Arqueologia e Línguas Semíticas e doutor em Bíblia Hebraica
Referências
1 Laurie E. Pearce e Cornelia Wunsch, Documents of Judean Exiles and West Semites in Babylonia in the Collection of David Sofer (CDL Press, 2014), v. 28.
2 Yigal Bloch, “Was the Sabbath Observed in Āl-Yāhūdu in the Early Decades of the Babylonian Exile”, ZAW, v. 132, no 1, 2020, p. 117-120.
(Artigo publicado na Revista Adventista de outubro/2026)


