Ivan Stabnov
Nas últimas décadas, os casos de câncer entre adolescentes e jovens aumentaram, acompanhados pelo crescimento do consumo de alimentos ultraprocessados. Esses produtos industrializados combinam ingredientes refinados com aditivos químicos, como conservantes, corantes, aromatizantes e realçadores de sabor, além de apresentarem grandes quantidades de sal, açúcar e gorduras.
Fazem parte dessa categoria refrigerantes, salgadinhos, biscoitos recheados, bolos prontos, embutidos, iogurtes aromatizados, fast-food e bebidas fitness. Apesar da aparência inofensiva, esses produtos contêm compostos que podem provocar danos silenciosos e cumulativos. Entre os principais estão os desreguladores endócrinos, substâncias químicas que interferem no funcionamento dos hormônios e podem estar presentes tanto nos ingredientes quanto nas embalagens.
Esses compostos podem alterar a microbiota intestinal, intensificar inflamações crônicas, desregular a atividade hormonal e afetar o funcionamento dos genes, favorecendo o desenvolvimento de doenças graves, incluindo diferentes tipos de câncer.
Uma pesquisa com quase 1 milhão de pessoas mostrou que um aumento de 10% no consumo de alimentos ultraprocessados está associado a um risco 19% maior de desenvolver doença respiratória crônica.1 Outra que reuniu dados de quase 9,9 milhões de participantes, encontrou associações entre o consumo desses produtos e 32 condições de saúde, incluindo diabetes tipo 2, doenças cardiovasculares, câncer colorretal, obesidade, transtornos mentais e piora da qualidade do sono.2
Além disso, uma revisão de 17 estudos, que reuniu quase 160 mil participantes, encontrou associação entre o consumo de ultraprocessados e outros alimentos considerados não saudáveis e problemas de saúde mental, incluindo depressão.3 Outra revisão sistemática mostrou que um aumento de 10% no consumo de alimentos ultraprocessados na dieta esteve associado a um risco 13% maior de câncer em geral, além de apresentar associações com os cânceres de mama, colorretal e pancreático.4
Esses efeitos geralmente não são imediatos, mas se acumulam ao longo do tempo, especialmente quando o consumo começa na infância ou na adolescência. Como muitas das substâncias envolvidas não são detectadas em exames de rotina, os danos podem se desenvolver de forma silenciosa, sem sintomas visíveis.
Contar calorias ou evitar açúcar e gordura são medidas importantes, mas não bastam. O verdadeiro risco está na baixa qualidade dos alimentos. Reduzir o consumo de ultraprocessados, optar por alimentos naturais e defender políticas que limitem o uso de substâncias nocivas são atitudes essenciais para proteger a saúde coletiva.
IVAN STABNOV é médico gastroenterologista
Referências
¹ Tefera Chane Mekonnen et al., “Ultra-processed food consumption is linked to an increased risk of chronic respiratory diseases: A systematic review and meta-analysis of prospective cohort studies”, Clinical Nutrition ESPEN, 2025, disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/40516857.
² Melissa M. Lane et al., “Ultra-processed food exposure and adverse health outcomes: umbrella review of epidemiological meta-analyses”, BMJ, v. 384, 2024, disponível em: https://www.bmj.com/content/384/bmj-2023-077310.
³ Hanieh-Sadat Ejtahed et al., “Association between junk food consumption and mental health problems in adults: a systematic review and meta-analysis”, BMC Psychiatry, v. 24, no 438, 2024, disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/38867156/.
⁴ Irja Minde Isaksen e Simon Nitter Dankel, “Ultra-processed food consumption and cancer risk: A systematic review and meta-analysis”, v. 42, no 6, 2023, disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/abs/pii/S0261561423000997?utm_source=chatgpt.com.
(Artigo publicado na seção “Vida e Saúde” da Revista Adventista de outubro/2026)


