Clinton Wahlen
Muitos podem se perguntar se, mais de 500 anos após a Reforma, a clássica posição protestante da sola Scriptura – ou “a Bíblia, e a Bíblia somente” – ainda permanece relevante. De fato, muitos cristãos já não aceitam esse princípio, segundo o qual as Escrituras são a única autoridade para a fé e a prática. Mas o que dizer das descobertas da ciência sobre a evolução ou da afirmação, feita por alguns setores da psicologia, de que o gênero é relativo?
Não há dúvida de que alcançamos avanços notáveis na ciência e em muitas outras áreas do conhecimento. Alguns até veem nisso um sinal de que estamos vivendo perto do fim da história (ver Daniel 12:4). É evidente, porém, que a sociedade nem sempre utilizou esse conhecimento de forma positiva. Em muitos casos, ele foi empregado de maneira profundamente destrutiva. Ainda assim, a Bíblia resistiu a repetidos ataques, como os de Voltaire, que previu o desaparecimento das Escrituras. Segundo relatos, sua antiga residência foi posteriormente utilizada para armazenar exemplares da Bíblia.*
A própria Bíblia nos conclama a confiar em sua mensagem: “Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o servo de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra” (2 Timóteo 3:16, 17).
Após a ressurreição, ao encontrar dois discípulos que haviam deixado de acreditar que Ele fosse o Messias por causa de Sua crucifixão, Jesus, em vez de Se revelar imediatamente, “explicou-lhes o que constava a respeito Dele em todas as Escrituras”, mostrando que “Cristo tinha de sofrer e entrar na Sua glória” (Lucas 24:26, 27). Dessa forma, demonstrou que a Bíblia é a única regra de fé e prática. Deus preservou as Escrituras ao longo dos séculos porque somente elas podem tornar o ser humano “sábio para a salvação pela fé em Cristo Jesus” (2 Timóteo 3:15).
As descobertas arqueológicas continuam a fornecer evidências da confiabilidade histórica da Bíblia. O cumprimento preciso das profecias bíblicas ao longo da história, até os dias atuais, também atesta sua inspiração divina e sua credibilidade. Nenhum outro livro se compara à sabedoria atemporal das Escrituras. Somente a Bíblia oferece um padrão estabelecido por Deus em meio a “autoridades” concorrentes, como a tradição, a cultura, a experiência e a liderança carismática. As doutrinas da Igreja Adventista do Sétimo Dia surgiram do estudo cuidadoso das Escrituras, permitindo que a própria Bíblia interpretasse a si mesma. Em uma época marcada pelo relativismo e pela sobrecarga de informações, o princípio da sola Scriptura preserva a primazia da Palavra revelada de Deus como o critério supremo para discernir a verdade e avaliar a fidelidade.
Como devemos compreender a inspiração dos escritos de Ellen White e sua relação com o princípio bíblico da sola Scriptura? A própria pioneira referiu-se a seus escritos como a “luz menor”, destinada a conduzir as pessoas à “luz maior”, a Bíblia. Eles foram concedidos para nos ajudar a compreender melhor as Escrituras e a vontade de Deus para nossa vida. Contudo, jamais podem substituir o estudo da Bíblia nem constituem, em qualquer sentido, um acréscimo às Escrituras. A Bíblia continua sendo a autoridade suprema em matéria de doutrina, a revelação infalível da vontade de Deus e o registro fidedigno de Seus atos na história.
CLINTON WAHLEN é diretor associado do Instituto de Pesquisa Bíblica
(Artigo publicado na seção “Boa Pergunta” da Revista Adventista de novembro/2026)
Referência
* Bible Society, disponível em: https://www.biblesociety.org.uk/content/get_involved/bible_sunday/2016_resources/Bible-Sunday-Sermon-notes.pdf.


