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O preço da ausência

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Escrito por A Redação

A saúde emocional dos filhos começa com a presença dos pais

Sueli Ferreira de Oliveira e Thaís Souza

Atualmente, muitas crianças enfrentam ansiedade, solidão, excesso de estímulos e dificuldade para construir vínculos seguros. Para os pais, educar nesse contexto tornou-se um grande desafio. Mais do que oferecer boa estrutura, eles são chamados a cultivar algo insubstituível: tempo, presença e relacionamentos capazes de fortalecer a saúde emocional dos filhos.

Em uma sociedade marcada pela pressa, as crianças podem ser vistas como um peso ou um obstáculo à produtividade. Jesus, porém, jamais as enxergou dessa maneira. Certa ocasião, quando algumas pessoas levaram crianças para que Ele as abençoasse, os discípulos tentaram impedi-las. Mas Jesus os repreendeu dizendo: “Deixem que os pequeninos venham a Mim; não os impeçam” (Marcos 10:14).

Esse episódio revela uma verdade que continua atual. Mais do que tecnologia, entretenimento ou desempenho escolar, as crianças precisam de relacionamentos seguros. É na convivência com adultos presentes e emocionalmente equilibrados que aprendem a compreender suas emoções, enfrentar frustrações e construir a própria identidade.

A força dos vínculos

O cérebro infantil amadurece na presença de vínculos consistentes e emocionalmente estáveis. Antes mesmo de aprender a controlar as próprias emoções, a criança depende de um adulto que a ajude a compreender e organizar aquilo que sente.

Nos primeiros anos de vida, é principalmente no ambiente familiar que ela constrói seus modelos de pensamento e comportamento. Quando vê pais irritados que “resolvem” seus problemas gritando com todos ao redor, aprende, ainda que inconscientemente, que essa é uma forma aceitável de lidar com os conflitos. Em contrapartida, quando observa os pais enfrentarem as próprias frustrações sem humilhar os outros, reconhecerem suas emoções e agirem com equilíbrio diante das dificuldades, aprende, pelo exemplo, o caminho da autorregulação emocional.

Esse aprendizado não acontece por meio de discursos, mas da repetição diária de experiências de autocontrole, acolhimento e segurança emocional. Infelizmente, nem sempre é assim. Falar sobre esses valores costuma ser mais fácil do que vivê-los no cotidiano.

Filhos não são um peso, um acidente da vida nem apenas mais uma responsabilidade da vida adulta. Eles são “herança do Senhor” (Salmo 127:3-5). Pertencem a Deus e são confiados aos pais como um presente precioso e uma missão sagrada.

Por isso, a formação do caráter e da vida emocional dos filhos não pode ser negligenciada. Ellen White escreveu: “A obra dos pais deve começar com o filho, na infância, para que este possa receber as corretas impressões no caráter antes que o mundo coloque sua marca na mente e no coração.” 1

Essa responsabilidade torna-se ainda mais urgente diante da realidade atual. Nos últimos anos, um número crescente de crianças tem sido afetado por problemas relacionados à saúde mental. O que antes parecia um desafio pontual passou a crescer de forma silenciosa dentro dos lares e, hoje, alcança proporções que muitos especialistas classificam como epidêmicas.

Cuidar da saúde mental vai muito além de lidar com transtornos como TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade), TOC (Transtorno Obsessivo-Compulsivo), TEA (Transtorno do Espectro Autista) e outras condições. Também não se resume a “apagar incêndios” emocionais ou controlar sintomas. Significa promover, desde a infância, o desenvolvimento da resiliência, da tolerância às frustrações e de uma saudável percepção do próprio valor.

Esses recursos emocionais acompanham a criança por toda a vida, influenciando seus relacionamentos, seu aprendizado, sua maneira de enfrentar as adversidades e a forma como enxerga a si mesma.

Em mundo marcado pelo pecado, não há como escapar do sofrimento. Ainda assim, Jesus nos assegurou: “No mundo, vocês passam por aflições; mas tenham coragem: Eu venci o mundo” (João 16:33). A esperança cristã não elimina a realidade das dificuldades, mas impede que elas tenham a última palavra. A vitória de Cristo sustenta nossa esperança e nos fortalece para enfrentar as lutas da vida.

Enfrentando o sofrimento

Desde cedo, as crianças podem aprender não apenas a reconhecer suas emoções, mas também a lidar com elas de forma equilibrada.

Imagine uma criança que cai, rala o joelho e começa a chorar. Um adulto, a distância, diz: “Levante-se! Não foi nada. Para que chorar?” Sem perceber, essa reação pode transmitir a ideia de que expressar emoções naturais é sinal de fraqueza.

No extremo oposto, outro adulto corre para socorrê-la, pega-a no colo e a leva para casa, dando ao machucado uma dimensão maior do que ele realmente tem. Ainda que bem-intencionada, essa atitude pode ensinar que as dores da vida são sempre maiores do que a própria capacidade de enfrentá-las.

Qual é o caminho do equilíbrio? Acolher, permanecer ao lado e oferecer o apoio necessário para que a criança siga em frente. Isso pode significar abraçá-la, enxugar suas lágrimas, fazer um carinho, limpar o ferimento, esperar alguns instantes e, então, convidá-la a voltar à brincadeira.

A criança não precisa crescer acreditando que jamais sofrerá. Ela tem que aprender que nenhum sofrimento precisa ser enfrentado sozinho e que é possível desenvolver maneiras saudáveis de lidar com as adversidades da vida. A presença de adultos disponíveis, o desenvolvimento de competências emocionais e a esperança oferecida pela fé constituem importantes fatores de proteção diante das inevitáveis dificuldades da existência.

Riscos da conectividade

Nesse contexto, um dos fatores que mais tem transformado a infância é a hiperconectividade. O acesso precoce e excessivo às telas tem se consolidado como um importante fator de risco para o desenvolvimento social e emocional das crianças. Um guia publicado pelo Ministério da Saúde, em consonância com as orientações da Organização Mundial da Saúde (OMS), destaca que a primeira infância, a infância e a adolescência são fases de maior vulnerabilidade. Nesse período, o cérebro passa por intenso desenvolvimento, formando as conexões neurais responsáveis pela regulação das emoções, pela aprendizagem e pelo comportamento ao longo da vida.2

Por isso, ambientes que oferecem proteção, segurança, afeto e respeito aos direitos da criança favorecem seu desenvolvimento integral. Em contrapartida, a exposição a situações de negligência, insegurança e outras formas de vulnerabilidade aumenta o risco de problemas relacionados à saúde mental.

Essa preocupação também é confirmada por pesquisas recentes. Um estudo publicado em 2025 analisou respostas de aproximadamente 2 milhões de pessoas, distribuídas por 163 países.3 Os pesquisadores identificaram uma associação entre o acesso ao primeiro smartphone antes dos 13 anos e indicadores menos favoráveis de saúde mental na vida adulta jovem. Entre os principais resultados observados estão:

⦁ maior frequência de pensamentos suicidas;

⦁ menor autoestima;

⦁ maior dificuldade de regulação emocional;

⦁ maior sensação de distanciamento da realidade;

⦁ maior exposição ao cyberbullying;

⦁ pior qualidade do sono;

⦁ mais conflitos familiares.

Os efeitos observados foram mais intensos entre as meninas. Ainda assim, os próprios pesquisadores fazem uma importante ressalva: o estudo identifica uma associação estatística, mas não demonstra uma relação direta de causa e efeito. Em outras palavras, o acesso precoce ao smartphone está associado a piores indicadores de saúde mental, embora outros fatores, como o ambiente familiar, as condições sociais e o contexto econômico, também possam influenciar esses resultados.

Com base nas evidências reunidas, os autores defendem que governos e formuladores de políticas públicas avaliem medidas como restringir o acesso a smartphones antes dos 13 anos; adiar o uso de redes sociais até próximo dos 16 anos; e ampliar as oportunidades para que crianças vivam uma infância marcada pelo brincar livre, pela criatividade e pelas relações presenciais, em vez da hiperconectividade e do enfraquecimento dos vínculos sociais.

Políticas públicas que promovam o uso saudável da tecnologia são importantes e merecem apoio. Ainda assim, a proteção da infância começa dentro de casa. Nenhuma medida governamental substitui a presença dos pais, seu exemplo e o estabelecimento de limites sábios. Esse é um desafio que já faz parte da realidade de nossas igrejas, escolas e lares.

O poder da presença

Muitos especialistas afirmam que o principal fator de proteção da saúde mental infantil é a presença emocional de adultos significativos na vida da criança. Esse princípio, amplamente reconhecido pela ciência, encontra-se contido em um dos trechos mais significativos de Deuteronômio: “Portanto, ame o Senhor , seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma e com toda a sua força. Estas palavras que hoje lhe ordeno estarão no seu coração. Você as inculcará a seus filhos, e delas falará quando estiver sentado em sua casa, andando pelo caminho, ao deitar-se e ao levantar-se” (6:5-7).

Mais do que um programa de instrução religiosa, esse texto descreve um estilo de vida. A fé era transmitida na convivência diária, em conversas comuns e na presença constante dos pais. O discipulado acontecia no caminho, à mesa, antes de dormir e ao amanhecer.

Portanto, atitudes simples, praticadas de forma intencional, podem transformar o ambiente familiar em um espaço de proteção e fortalecimento da saúde mental das crianças. Sentar-se à mesa não apenas para comer, mas para conversar; dividir as tarefas da casa, permitindo que todos participem e desenvolvam o senso de responsabilidade e pertencimento; reservar um momento da semana para brincar, caminhar, praticar um esporte ou preparar juntos uma refeição; e cultivar o culto familiar, ainda que breve, são hábitos que fortalecem os vínculos entre pais e filhos.

Também é importante que os adultos aprendam a guardar o celular quando chegam em casa, priorizando o encontro em vez da conexão digital. Olhos nos olhos valem mais do que olhos nas telas. Uma boa leitura e uma oração antes de dormir podem encerrar o dia lembrando às crianças que elas são amadas, ouvidas e cuidadas.

Cada criança tem necessidades afetivas e emocionais próprias. Algumas necessitam de mais contato físico, abraços e demonstrações de carinho; outras florescem quando recebem palavras de incentivo, apoio e encorajamento.

Há aquelas que enfrentam dificuldades para superar desafios, são excessivamente autocríticas ou perfeccionistas e, por isso, acreditam que nunca fazem o suficiente. Nesses casos, o olhar atento dos pais e o reconhecimento sincero de suas conquistas são fundamentais para ajudá-las a desenvolver uma percepção saudável de si mesmas. Outras tendem a reagir de forma impulsiva e intensa, exigindo orientação paciente e consistente para aprender a regular as próprias emoções. Para isso, os pais também precisam aprender a desenvolver sua própria autorregulação emocional.

Ser pai e ser mãe, portanto, vai muito além de educar, corrigir e estabelecer limites. Significa conhecer o coração de cada filho, compreender suas necessidades e ajudá-lo a crescer de maneira integral. Foi assim que Jesus tratou as pessoas: enxergando além dos comportamentos e alcançando as necessidades mais profundas de cada coração.

Com a graça de Deus, os pais podem cumprir essa missão e cooperar para que seus filhos se desenvolvam segundo o propósito do Criador. Que grande responsabilidade! E que privilégio extraordinário participar da formação de uma vida que pertence, antes de tudo, ao Senhor.

De volta ao Éden

Talvez uma das reflexões bíblicas mais relevantes sobre a saúde mental infantil esteja no relato da criação. Ao descrever a vida idealizada por Deus para a humanidade, Gênesis 1 e 2 apresentam princípios que hoje também são reconhecidos pela ciência como importantes fatores de proteção para o desenvolvimento emocional das crianças.

Essa comparação mostra que muitas recomendações da psicologia e da neurociência para o desenvolvimento saudável das crianças refletem princípios presentes desde a criação. Ao observar as pesquisas atuais, percebemos que elas não propõem um novo projeto para a infância; antes, redescobrem aspectos fundamentais do plano de Deus: vínculos seguros, presença da família, contato com a natureza, descanso, propósito e comunhão com o Criador.

Por isso, promover a saúde mental infantil não é apenas uma tarefa da psicologia ou da medicina. É também uma missão espiritual. A família e a igreja são chamadas a restaurar, nas novas gerações, valores que faziam parte do ideal estabelecido por Deus no Éden.

É importante lembrar que a saúde mental infantil resulta da interação de diversos fatores, entre eles a predisposição genética, as experiências de vida, o contexto familiar e social, acontecimentos inesperados e as características individuais de cada criança. Por isso, o sofrimento emocional de um filho não deve ser interpretado, automaticamente, como consequência de falhas dos pais. Ainda assim, a família continua sendo um dos mais importantes fatores de proteção para a saúde mental.

Por fim, pense na criança com quem você convive. Quem ela é? Quais são seus pontos fortes? Quais são suas maiores dificuldades? Quais necessidades emocionais e afetivas talvez ainda não tenham sido percebidas? No que depende de você, como pode ajudá-la? E, acima de tudo, o que Deus espera de você nesse relacionamento?

Também vale uma pergunta ainda mais profunda: que imagem de Deus essa criança está formando por meio da maneira como você a trata?

Antes de ensinar, permita que Deus continue transformando seu próprio coração. Acolha com amor, corrija com sabedoria, encoraje com generosidade, aproxime-se com interesse genuíno, demonstre compaixão, perdoe e saiba pedir perdão.

Este é um dos maiores presentes que uma família cristã pode oferecer: um lar em que a verdade e a graça caminham juntas e onde cada criança encontra, no amor de seus pais, um vislumbre do amor do Pai celestial. 

SUELI FERREIRA DE OLIVEIRA é coordenadora de livros infantojuvenis na Casa Publicadora Brasileira; THAÍS SOUZA é psicóloga clínica e colaboradora das revistas Nosso Amiguinho e Vida e Saúde

SAIBA MAIS

Referências

¹ Ellen G. White, Orientação da Criança (CPB, 2021), p. 133.

² Crianças, adolescentes e telas. Guia sobre usos de dispositivos digitais, disponível em:
https://www.gov.br/secom/pt-br/assuntos/uso-de-telas-por-criancas-e-adolescentes/guia/guia-de-telas_sobre-usos-de-dispositivos-digitais_versaoweb.pdf.

³ Don’t give children under age 13 smartphones, new research says, disponível em: https://edition.cnn.com/2025/07/21/health/smartphones-not-safe-preteens-wellness.

(Matéria de capa da Revista Adventista de setembro/2026)

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