Destaques Entrevista

Ministério indígena

Foto: Acervo pessoal
Escrito por Márcio Tonetti

Pastor relata experiências e desafios da missão entre os povos originários

De origem guarani e kaingang, Miraldo Fag-Tanh Oliveira teve contato com a mensagem adventista em 1992, durante uma campanha evangelística de Semana Santa, e foi batizado cerca de quatro anos depois, aos 16 anos. Posteriormente, decidiu cursar Teologia e teve a oportunidade de exercer o ministério entre povos indígenas, como os karajás, na Ilha do Bananal, no estado do Tocantins. Atualmente, é pastor distrital em Mucajaí (RR). Nesta entrevista, ele aborda os desafios e as oportunidades da missão de alcançar os cerca de 1,7 milhão de indígenas que vivem no Brasil.

A chamada “Janela Verde” é comparável à “Janela 10/40”, no sentido de representar uma região desafiadora para a missão?

Sem dúvida, há grande diversidade de culturas, línguas e costumes entre os povos originários, além de desafios como o difícil acesso a algumas regiões e a necessidade de autorização de órgãos indigenistas para atuar nas comunidades. A evangelização exige tempo, abordagem contextualizada, preparo adequado e pessoas dispostas a viver essa missão. Como há poucos pastores oriundos dessas comunidades, dependemos, sobretudo, de voluntários que se dedicam a amar e evangelizar. Felizmente, também há esforços de entidades da igreja para incentivar jovens a estudar em nossos colégios e faculdades, a fim de que retornem às suas comunidades capacitados e, acima de tudo, com senso de missão.

Como está a presença adventista entre os povos indígenas no Brasil?

Há escassez de dados específicos sobre o tema. Segundo o último censo do IBGE, cerca de 32% dos povos originários se declaram evangélicos, o que pode indicar também um possível crescimento no número de adventistas entre os indígenas. No entanto, o trabalho da igreja junto às comunidades indígenas concentra-se, principalmente, nos estados do Amazonas, Roraima, Tocantins e Bahia, além de iniciativas desenvolvidas na União Norte-Brasileira.

Quais são os principais desafios e oportunidades para a evangelização dos povos originários?

Entre os desafios estão as questões culturais, o tempo para construir vínculos, a necessidade de materiais contextualizados e a falta de pessoas dedicadas integralmente à missão. A criação de núcleos de missões nas sedes administrativas da denominação e o envio de voluntários do projeto Um Ano em Missão são estratégias importantes, mas uma estrutura específica para os povos originários poderia ampliar o alcance. Em geral, os núcleos existentes não atuam diretamente nessa área, com exceção de iniciativas como a da ADRA Araguaia.

Recentemente, você batizou um jovem yanomami. O que mais o impactou na história dele?

Talvez ele seja um dos primeiros adventistas dessa etnia, e o que mais me impactou foi a maneira como Deus conduziu sua história. O pai dele vivia com a família em uma comunidade distante, a três dias de barco, em uma área marcada pelo garimpo. Sonhando com um futuro melhor para o filho, levou-o para morar em um povoado no município de Alto Alegre (RR). Ali, o jovem teve contato com uma família adventista, que o acolheu, apoiou e passou a estudar a Bíblia com ele. Precisamos de pessoas como esses irmãos, dispostas a dedicar a vida em favor dos povos originários. Como costumava dizer o pastor e missionário Alvin N. Allen, pioneiro no trabalho entre os índios aimarás, no Peru, e os karajás, no Brasil: “Oro para Deus enviar pessoas para resgatar as ovelhas perdidas da floresta.”

(Entrevista Publicada na Revista Adventista de abril/2026)

Sobre o autor

Márcio Tonetti

Pastor e jornalista, é editor associado da Revista Adventista

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