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Que Deus é esse?

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Escrito por A Redação

A verdade que destrói o evoteísmo

Francislê Neri de Souza

Quais são as consequências de uma ideia equivocada sobre como Deus criou o mundo? A descrição bíblica do processo criativo divino seria de menor importância?

Quando o autor cristão Michael Dowd publicou o livro Thank God for Evolution [Graças a Deus pela Evolução], foi celebrado por vários laureados com o Prêmio Nobel. Ele, assim como outros teólogos e cientistas cristãos, defende a possibilidade de harmonizar a Bíblia e a ciência por meio de uma síntese entre criacionismo e evolucionismo. Em outras palavras, Deus existe e é o Criador, mas teria realizado a criação por meio do processo da evolução darwiniana. Essa perspectiva é conhecida como evolucionismo teísta ou evoteísmo.

Mas como funcionaria esse processo de “criação” evolucionista? A teoria da evolução está fundamentada em conceitos como mutação aleatória (acaso), gradualismo (a transformação do simples em complexo ao longo de milhões de anos), seleção natural (sem a intervenção de uma inteligência orientadora, mas pela atuação de forças naturais) e sobrevivência do mais apto (com a eliminação dos menos adaptados). Esses seriam os princípios que regem o processo “criativo” da evolução.

Clifford Goldstein, autor adventista norte-americano, usou uma analogia do xadrez. O evolucionismo teísta aceita o processo (as regras do jogo evolutivo), mas rejeita a premissa filosófica que sustenta esse processo (o naturalismo metodológico, isto é, a ideia de que apenas forças naturais operam, sem Deus). Isso é logicamente inconsistente: se você aceita o jogo, aceita as regras. Não se pode dizer “aceito a evolução, mas Deus a dirigiu” sem resolver o problema fundamental de que a própria estrutura teórica da evolução foi construída sobre pressupostos materialistas e ateus. Para Goldstein, tentar colocar a evolução dentro do cristianismo seria o mesmo que tentar batizar o diabo, e existem muitos cristãos seduzidos por essas ideias de harmonizar a Bíblia com essa falsa ciência.

Um Deus evolucionista?

O evolucionismo teísta pode parecer, à primeira vista, uma solução diplomática e elegante. Afinal, parece evitar o confronto com a cultura acadêmica secular e manter uma afirmação superficial de que Deus é o Criador. Contudo, quando analisamos essa proposta à luz da Bíblia e da lógica elementar, a estrutura do evoteísmo revela falhas gravíssimas que comprometem todo o edifício da fé cristã. Não é possível adotar o mecanismo evolutivo sem destruir os pilares do evangelho.

O primeiro grande argumento contra o evoteísmo é de ordem teológica e moral: o caráter de Deus e a origem da morte. Na narrativa do Gênesis, a criação original é declarada por Deus como “muito boa” (Gênesis 1:31). A dor, o sofrimento, a degradação e a morte entram no mundo unicamente como consequência do pecado (Gênesis 3; Romanos 5:12). A morte é classificada nas Escrituras como um “inimigo” a ser destruído (1 Coríntios 15:26).

O evolucionismo teísta inverte completamente esse fundamento. Para que a evolução funcione, a morte não é a consequência do pecado, mas o próprio motor da criação. São necessários milhões de anos de sofrimento, mutações genéticas dolorosas, competição predatória, extinções em massa e a eliminação impiedosa dos mais fracos para que novas formas de vida surjam. Se Deus utilizou esse método, então a destruição e a violência não são frutos da queda humana, mas instrumentos da vontade divina. Um Deus que usa a sobrevivência do mais apto e o massacre do mais fraco como ferramentas de design não é o Deus de amor revelado no Calvário.

Infelizmente, para Michael Dowd, a morte não representa um problema; pelo contrário, ela é natural, necessária e tão sagrada quanto a própria vida. Essa mentira não encontra base na Bíblia.

O segundo argumento envolve a autoridade da Palavra de Deus e a integridade de Jesus Cristo. As Escrituras tratam o relato da criação de Gênesis de forma literal e histórica. A semana da criação, com dias literais de 24 horas, é a base explícita para a observância do sábado no quarto mandamento (Êxodo 20:8-11). Se a criação durou eras, por meio de processos evolutivos, a lei de Deus perde sua fundamentação histórica. Muito mais grave é o fato de que o próprio Jesus confirmou a historicidade de Gênesis ao afirmar que Deus fez o homem e a mulher no princípio da criação (Marcos 10:6), e não após bilhões de anos de desenvolvimento biológico. Tratar Gênesis como uma alegoria força o leitor a reinterpretar todo o restante da Bíblia, incluindo a doutrina do segundo Adão (1 Coríntios 15:45), pois, se não houve um primeiro Adão literal que caiu, torna-se desnecessária a vinda de um segundo Adão para remir a humanidade.

Finalmente, o evangelho ensina que o mundo foi criado perfeito, caiu por causa da rebelião humana e será restaurado por Cristo na consumação dos séculos (Apocalipse 21:1-5). Aceitar o evoteísmo traz uma inconsistência lógica ao plano da salvação. Ou seja, essa teoria ensina que o mundo começou em caos e imperfeição, evoluindo gradualmente por meio da dor. Se o estado original era de competição predatória, o que exatamente Cristo veio restaurar?

Portanto, salvar a humanidade de um estado imperfeito que o próprio Deus teria projetado torna incoerente o plano da redenção. Por tentativa e erro, o evolucionismo teísta busca harmonizar a fé com a ciência secular, mas o preço dessa aliança é o abandono da autoridade bíblica e a distorção da natureza de Deus.

Sustentador do Universo

Embora os argumentos citados demonstrem a incompatibilidade entre a Bíblia e a evolução, há uma verdade bíblica ainda mais profunda que desmantela o evoteísmo em sua raiz: a doutrina de Jesus como o Sustentador e Mantenedor ativo e constante do Universo.

O pensamento que sustenta o evolucionismo teísta depende de uma visão em que a criação funcione por meio de leis secundárias e autônomas. Assim, Deus teria estabelecido certas regras iniciais ou soprado a vida inicial e, a partir de então, a matéria e a seleção natural teriam assumido o controle do processo criativo por meio de sua própria força inerente. Mesmo considerando que alguns evoteístas defendam a intervenção divina em momentos cruciais, o testemunho bíblico e as orientações proferidas por Ellen White revelam uma realidade oposta: a criação não possui energia própria, e a vida não prossegue por um mecanismo automatizado. Para os evolucionistas ateus, as ideias evoteístas também falham, pois estes não admitem a intervenção divina sob nenhuma circunstância.

Nas Escrituras, Cristo não é apresentado apenas como o Arquiteto que operou no passado remoto, mas como a Pessoa da Divindade que atua no presente, mantendo cada detalhe da existência. João explicitou o papel de Criador de Jesus ao afirmar: “No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio com Deus. Todas as coisas foram feitas por Ele, e, sem Ele, nada do que foi feito se fez” (João 1:1-3).

O apóstolo Paulo afirmou: “Pois Nele foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis […]. Tudo foi criado por meio Dele e para Ele. Ele é antes de todas as coisas. Nele tudo subsiste” (Colossenses 1:16, 17). A palavra grega traduzida como “subsiste” (synistémi) significa manter-se unido, coeso ou preservado. O Universo não se desintegra no caos porque Cristo age continuamente como a força que sustenta a estrutura de toda a matéria.

O livro de Hebreus reforça essa dimensão ao declarar que o Filho é “o resplendor da glória de Deus e a expressão exata do Seu Ser, sustentando todas as coisas pela Sua palavra poderosa” (Hebreus 1:3). O termo empregado para “sustentando” (pherōn) transmite a ideia de um movimento contínuo, dinâmico e direcionado. Jesus não é um observador distante de um relógio ao qual Ele mesmo deu corda; Ele é aquele que carrega o Universo em Suas mãos, segundo Sua palavra.

Essa presença mantenedora traduz-se em cuidado pessoal com a vida biológica. Paulo declarou no Areópago que Deus não é “servido por mãos humanas, como se precisasse de alguma coisa, pois Ele mesmo é quem a todos dá vida, respiração e tudo mais, […] pois Nele vivemos, nos movemos e existimos” (Atos 17:25, 28). Cada ciclo respiratório ou batimento cardíaco depende da concessão contínua da vida por parte de Cristo. O Criador afirma que Deus cuida ativamente das aves do céu e veste a erva do campo (Mateus 6:26-30). O Salmo 104:29 e 30 confirma que, se o Senhor retirar Seu fôlego, as criaturas morrem e voltam ao pó e, ao enviar Seu Espírito, elas são criadas, e a face da Terra é renovada.

Portanto, a vida não é uma propriedade que a matéria adquiriu e gerencia sozinha; mas a transmissão constante do Criador para a criação.

Ação contínua

Ellen White combateu ativamente as filosofias de sua época que tentavam remover Deus da atuação direta na natureza. Suas declarações alinham-se com o texto bíblico, expondo a falsidade da ideia de que a natureza possui energia inerente. Ela declarou: “Muitos ensinam que a matéria possui força vital: que certas propriedades são comunicadas à matéria que então passa a agir por sua própria energia inerente, e que os fenômenos da natureza são dirigidos de acordo com leis fixas, nas quais o próprio Deus não pode interferir. Isso é ciência falsa, e não é apoiado pela Palavra de Deus. A natureza é serva de seu Criador. Deus não anula Suas leis, nem age contrariamente a elas; mas está continuamente empregando-as como Seus instrumentos. A natureza testifica de uma inteligência, uma presença, uma energia ativa que opera em suas leis e por meio delas. O Pai e o Filho atuam de forma constante na natureza.”1

Nesse texto, ela identificou a premissa fundamental do evolucionismo teísta e a qualificou como “falsa ciência”. O evoteísmo pressupõe que a matéria recebeu certas propriedades e passou a atuar por sua própria energia inerente ao longo de eras. Ellen White esclareceu que as leis da natureza não são leis autônomas que funcionam sem Deus, mas, instrumentos pelos quais o Pai e o Filho operam de forma contínua. Não existe neutralidade ou automatismo na física, na química ou na biologia: existe uma inteligência e uma energia ativa e pessoal sustentando as leis da matéria. Ela ainda acrescentou: “Com respeito a este mundo, a obra de Deus na criação está completa, pois Suas obras estão ‘concluídas desde a fundação do mundo’ (Hebreus 4:3). Entretanto, Sua energia ainda é exercida ao sustentar os objetivos de Sua criação. Não é porque o mecanismo, que uma vez foi posto em movimento, continue a agir por sua própria energia que o pulso bate e uma respiração vem após a outra; mas cada fôlego, cada pulsar do coração é uma prova daquele cuidado que tudo sonda, por parte Daquele em quem ‘vivemos, e nos movemos, e existimos’ (Atos 17:28). Não é por causa de um poder inerente que ano após ano a Terra produz seus dons e continua seu movimento em redor do Sol. A mão de Deus guia os planetas e os mantém na posição certa em sua marcha ordenada através dos céus.”2

Essa afirmação estabelece uma distinção teológica crucial que destrói a lógica do evoteísmo: a diferença entre o ato da criação e a obra da sustentação. A obra de criar materiais e formas de vida foi concluída durante a semana do Gênesis e estava acabada desde a fundação do mundo. O que ocorre hoje não é uma “criação contínua” por meio de mutações e seleção natural ao longo de milhões de anos, mas a sustentação contínua daquilo que foi perfeitamente criado.

Se o pulso do ser humano bate e a Terra gira ao redor do Sol não por um poder inerente ou um mecanismo automático de um relógio cósmico, mas pelo cuidado ativo de Jesus, o evoteísmo desmorona. A teoria evolutiva precisa que a matéria tenha a capacidade de auto-organização e transformação gradual sem a intervenção divina. A revelação bíblica e o testemunho profético mostram que a matéria é inerte e totalmente dependente do poder contínuo de Jesus. Remover a ação direta de Cristo da preservação contínua da vida significa adotar uma filosofia desprovida de fundamento escriturístico.

Do princípio ao fim

Ao analisar as premissas do evolucionismo teísta à luz da revelação bíblica e dos escritos inspirados, torna-se evidente que a tentativa de harmonizar a teoria da evolução com a fé cristã é um grave erro conceitual e teológico. O evoteísmo aceita as regras de um jogo construído sobre o naturalismo filosófico e tenta introduzir Deus como um espectador passivo ou mero idealizador de processos cruéis, marcados por milhões de anos de sofrimento, mutação e morte. Essa ideia tem consequências terríveis para a doutrina de Deus. Assim, a descrição bíblica do processo criativo é de grande importância para a compreensão das origens e do destino da humanidade. Por isso, a doutrina da criação e o criacionismo são centrais nas mensagens angélicas que advertem o mundo a adorar o Criador, e não a seguir a besta (Apocalipse 14:6, 7).

A verdade central de que Jesus Cristo é o Criador e o Mantenedor constante da vida e do Universo destrói os fundamentos da hipótese evolutiva dentro do cristianismo por pelo menos três razões fundamentais:

Contraria o mecanismo evolutivo. A evolução necessita de uma matéria que evolua por sua própria energia inerente e por leis autônomas. A Bíblia ensina que a matéria não possui força vital própria, dependendo diretamente da palavra e da energia contínua de Cristo para existir e funcionar.

Preserva o caráter de Deus. Criação, manutenção e recriação preservam a justiça e o amor de Deus, rejeitando a ideia moralmente inaceitável de que Deus utilizou a extenuação, a dor e a eliminação do fraco como método criativo.

Resgata a distinção entre criar e sustentar. Deus concluiu Sua obra criativa na semana literal do Gênesis. O que vemos na natureza não são novos organismos emergindo por processos evolutivos, mas a mão graciosa de Jesus sustentando, preservando e mantendo a integridade da Terra e da vida humana, enquanto aguardamos a restauração final.

Não há necessidade de nos comprometermos com filosofias materialistas para sermos intelectualmente honestos. A ciência verdadeira e a revelação bíblica convergem na exaltação de Cristo. Ele não é apenas o Deus do passado, que falou e tudo se fez; é o Deus do presente, que nos concede cada respiração, guia os planetas em suas órbitas e, com a mesma mão ferida na cruz pela nossa salvação, sustenta com poder todo o Universo. Nas palavras de Ellen White: “Uma invisível mão guia os planetas em sua órbita pelos céus. Uma vida misteriosa invade toda a natureza – vida que sustenta os inumeráveis mundos através de toda a imensidão. Ela está no ser microscópico que flutua na brisa de verão; é ela que dirige o voo das andorinhas e alimenta os filhotes de corvo; é ela que faz com que os botões floresçam e as flores frutifiquem. […] O mesmo poder que mantém a natureza atua também no ser humano. As mesmas grandes leis que guiam tanto a estrela quanto o átomo dirigem a vida humana. […] Toda vida vem de Deus.”3

Nosso Criador e Sustentador é também o Recriador. Ele está prestes a voltar e, por meio de Sua palavra, sustentará novos céus e nova Terra, nos quais habita a justiça.

FRANCISLÊ NERI DE SOUZA é o diretor sul-americano do Instituto de Pesquisa em Geociência

Referências

¹ Ellen G. White, Patriarcas e Profetas (CPB, 2022), p. 86.

² White, Patriarcas e Profetas, p. 87.

3 Ellen G. White, Educação (CPB, 2023), p. 68.

(Matéria de capa da Revista Adventista de outubro/2026)

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