Na era dos influenciadores, quais são suas referências? A pergunta é provocativa, pois revela um aspecto fundamental do comportamento humano: a tendência de buscar modelos que expressem valores, costumes e práticas que possam ser reproduzidos em diferentes contextos, até mesmo em culturas distintas daquelas em que se originaram.
Crianças imitam os pais, adolescentes reproduzem comportamentos de seus artistas favoritos e adultos também se deixam influenciar por políticos e personalidades das redes sociais. Nesse cenário, muitos cristãos se esquecem de que também foram chamados a ser referências de Cristo em um mundo que precisa conhecê-Lo.
O apóstolo Paulo reconhecia a responsabilidade de ser uma referência para outros cristãos. Escrevendo à igreja de Corinto, por duas vezes exortou: “Sejam meus imitadores” (1 Coríntios 4:16; 11:1). Essa exortação não nascia de vaidade ou pretensão pessoal, mas de sua própria experiência de discipulado. Seu entendimento estava fundamentado na essência de uma relação profunda de amizade com seu Senhor, e isso fica claro na continuidade de sua orientação: “como também eu sou imitador de Cristo”.
Lembro-me de uma situação curiosa dos meus tempos como conselheiro em um clube de Desbravadores. Minha unidade era composta por sete garotos na faixa dos 12 anos, a maioria com mais tempo de clube do que eu. Certa manhã, após alguns meses de convivência, alguém percebeu algo inusitado enquanto os meninos aguardavam em fila a formação inicial.
A pessoa se aproximou de mim e perguntou: “Você viu como estão os meninos de sua unidade?” Minha primeira reação foi procurar alguma irregularidade entre eles. Ao perceber minha inquietação, porém, o colega observou: “Eles estão usando o boné da mesma maneira que você.” Até então, eu não havia percebido que, na maior parte do tempo, também usava o boné com a aba para trás!
Esse episódio, ocorrido há quase 30 anos, tornou-se para mim uma ilustração marcante de três aspectos do discipulado cristão. Em primeiro lugar, o discípulo aprende com quem o influencia, seja por meio das palavras, seja pela observação. Isso significa que a formação não se limita ao que o discipulador ensina com palavras; inclui também o que demonstra por meio de sua vida.
Em segundo lugar, o discipulado acontece por meio dos relacionamentos. Aos filipenses, Paulo escreveu: “O que também aprenderam, receberam e ouviram de mim, e o que viram em mim, isso ponham em prática” (Filipenses 4:9). É no cotidiano que a transmissão de vida acontece: compartilhamos bons momentos, enfrentamos dificuldades e crescemos juntos na fé.
Por fim, o discípulo se torna referência para outros, transmitindo, sobretudo, a mensagem e o caráter de Jesus. No discipulado, somos ao mesmo tempo discípulos e discipuladores. Por isso, o processo não termina em nós. O objetivo do discipulado não é formar cópias de nós mesmos, mas conduzir outras pessoas a seguir o exemplo de Cristo.
Comecei este texto perguntando quais têm sido suas referências. Mais importante, porém, é refletir sobre a própria influência: quem tem encontrado em você uma referência para aprender a seguir Jesus?
WELLINGTON BARBOSA é editor da Revista Adventista
(Editorial da Revista Adventista de novembro/2026)


