Fabrício Ferreira Mello
O casamento e a família são instituições criadas por Deus e imprescindíveis para o bem-estar e a felicidade do ser humano. No entanto, a sociedade contemporânea tem lançado cada vez mais descrédito sobre o matrimônio. É comum encontrar pessoas frustradas aconselhando jovens a evitar o casamento. As razões para essa insatisfação podem ser variadas, mas, em geral, aplica-se a máxima de que uma pessoa ferida tende a ferir outras. Alguém infeliz no casamento costuma associar suas experiências negativas à própria instituição matrimonial. Além disso, as mudanças sociais ocorridas no mundo ocidental desde meados do século 20 também ajudam a explicar as frequentes tentativas de desconstruir a família.
A passagem do século 19 para o 20 refletiu a herança do Iluminismo, ao mesmo tempo que incorporou novas correntes críticas. Nesse cenário, o Positivismo de Auguste Comte teve influência significativa, ainda que não exclusiva, sobre o pensamento ocidental. Esse período histórico ficou conhecido como Idade Moderna. Uma característica fundamental do modernismo é a confiança na razão humana e no desenvolvimento científico para responder às grandes questões da humanidade. Como reação aos trágicos eventos das primeiras décadas do século passado, como as duas guerras mundiais, por exemplo, a sociedade modernista reformulou, ainda que não tenha abandonado, seus ideais unificadores e de tendência universalizante. Nesse contexto, a esperança positivista contribuiu para investir a universidade de autoridade, colocando-a, ao lado da igreja e do casamento, entre as grandes instituições norteadoras da dinâmica social.
Porém, os filósofos da modernidade não consideraram, em suas aspirações, o elemento deteriorante presente em toda a humanidade: o pecado. A partir da segunda metade do século 20, as gerações emergentes, reagindo às diversas incoerências do modernismo, passaram a questionar e até mesmo abandonar muitos dos valores das gerações anteriores. Essa postura resultou em uma deslegitimação das grandes instituições e de seus discursos como elementos estruturantes da sociedade.1 Assim, começaram a ruir os alicerces modernistas e, sobre seus edifícios filosóficos estremecidos, teve início o período conhecido como pós-modernismo.
“A cultura pós-moderna é profundamente desconfiada de todas as grandes histórias completas. […] O ethos pós-moderno insiste que histórias como essas, que moldaram nossa vida de forma tão significativa, não são histórias de emancipação e progresso, mas histórias de escravização, opressão e violência. E, segundo essa perspectiva, qualquer narrativa ou cosmovisão que faça grandes afirmações a respeito do rumo e do destino real da história será vista como pertencente à mesma categoria de tal violência e opressão. Acredito que essa característica da mudança pós-moderna é a mais desafiadora para a fé cristã. Se há algo que define muito bem o cristianismo é uma história grandiosa e completa”.2
Nesse contexto, o conceito de aliança matrimonial heterossexual e monogâmica parece estar desaparecendo. “Nossa sociedade vive apenas de contratos rescindíveis, dos negócios ao casamento.”3 Como podemos, portanto, impedir que o ceticismo e a cultura pós-moderna moldem a identidade das novas gerações, especialmente no que diz respeito ao casamento e à família? Compreender o significado do matrimônio na Bíblia é fundamental.
Teologia da aliança
Nas Escrituras, o tema da aliança está relacionado à união que o próprio Deus estabeleceu com a humanidade. “A palavra em hebraico para aliança, berit, refere-se a um relacionamento legalmente obrigatório firmado entre duas partes.”4 Em Oseias 6:7 encontramos uma repreensão que compara a quebra da aliança por parte do povo, no período do profeta, com a infidelidade de Adão, sugerindo a ideia de uma ruptura da aliança no Éden. Além disso, Jeremias 33:20 usa uma linguagem que ecoa o relato da criação ao se referir à “Minha aliança com o dia e a Minha aliança com a noite”. Por isso, é possível afirmar que a primeira aliança foi feita com Adão. A Bíblia também menciona alianças estabelecidas com Noé, Abraão, Moisés e Davi, além de anunciar a Nova Aliança.
No drama do grande conflito, “Abraão surge na estrutura do Gênesis como a resposta para a situação terrível de toda a humanidade. A sucessão de desastres e da ‘maldição’, de Adão até Babel, passando por Caim e pelo dilúvio, começa a ser anulada quando Deus chama Abraão e diz: ‘Em você todas as famílias da terra serão abençoadas.”5 A aliança com Abraão é particularmente significativa, pois o relacionamento entre Deus e o patriarca pode ser comparado a um casamento: as promessas de Gênesis 12 funcionam como um noivado ou compromisso, enquanto a formalização da aliança no capítulo 15 e sua confirmação no capítulo 17 correspondem aos votos de uma aliança matrimonial.
Outro aspecto a ser destacado na aliança com Abraão é a expressão karat berit, usada em Gênesis 15:18. Essa expressão significa literalmente “cortar uma aliança” e fazia parte dos contratos legais celebrados no Antigo Oriente Médio. “Já no século 18 a.C., essas alianças internacionais incluíam confirmações religiosas que envolviam a morte e o corte em pedaços de animais sacrificais, visando ao estabelecimento de alianças. […] Um elemento comum era o uso das seguintes palavras ritualísticas: ‘Da mesma forma que este animal é retalhado, que X também seja retalhado.’ A pessoa que pronunciava essa frase declarava, assim, que o que havia acontecido com o animal aconteceria com ela caso quebrasse as obrigações referentes ao tratado.”6
Metáfora espiritual
O caráter sagrado e permanente da relação entre Cristo e Sua igreja é representado pela união matrimonial. Ellen White afirmou: “O Senhor uniu a Si o Seu povo por meio de um concerto solene, prometendo-lhe ser o seu Deus, enquanto o povo se comprometia a ser unicamente Dele. Disse o Senhor: ‘Eu Me casarei com você para sempre; Eu Me casarei com você com justiça e retidão, com amor e compaixão’ (Oseias 2:19, NVI). E em outra passagem: ‘Eu é que sou o esposo de vocês’ (Jeremias 3:14). E Paulo empregou a mesma figura no Novo Testamento, quando escreveu: ‘Eu os prometi a um único marido, Cristo, querendo apresentá-los a Ele como uma virgem pura’ (2 Coríntios 11:2, NVI). A infidelidade da igreja para com Cristo, permitindo que sua confiança e afeição se desviem Dele e consentindo que o amor às coisas mundanas ocupe o coração, é comparada com a quebra do voto conjugal.”7
O costume de firmar alianças por meio de cerimônias que comprometiam a vida de quem jurasse era comum nos tempos bíblicos. Contudo, é interessante analisar os elementos constituintes desses tratados e observar que nossa cultura absorveu alguns deles e os adaptou. Pelo menos três elementos presentes nas alianças bíblicas permanecem em nossas cerimônias de casamento: juramentos, objetos memoriais e testemunhas.
Hebreus 6:13 a 17 registra o juramento de Deus na aliança com Abraão: “Pois, quando Deus fez a promessa a Abraão, visto que não tinha ninguém superior por quem jurar, jurou por Si mesmo, dizendo: ‘Certamente Eu o abençoarei e multiplicarei os seus descendentes.’ E assim, depois de esperar com paciência, Abraão obteve a promessa. Porque as pessoas juram pelo que lhes é superior, e o juramento, servindo de garantia, põe fim a toda discussão. Por isso, Deus, quando quis mostrar com mais clareza aos herdeiros da promessa que o Seu propósito era imutável, confirmou-o com um juramento.”
De igual modo, um casal de noivos, na presença de parentes e amigos, sob a ministração de um pastor ordenado, deve jurar fidelidade na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, até que a morte os separe.
Outro elemento dos antigos pactos são os objetos memoriais. A Bíblia registra ocasiões em que alianças eram firmadas e acompanhadas de um memorial. O sábado é um memorial da aliança no Éden, assim como o arco no Céu recorda a aliança com Noé. Em Gênesis 21, Abraão deu ovelhas e bois a Abimeleque, ratificando uma aliança entre eles. Além disso, em 1 Samuel 18:3 e 4, Jônatas entregou sua capa, armadura e espada a Davi como sinal da aliança entre ambos. No Brasil e muitas partes do mundo, os anéis dourados trocados pelos noivos também funcionam como objetos memoriais. Em nossa cultura, essa ligação é tão forte que esses anéis são chamados de alianças de casamento.
As testemunhas, assim como acontece em nossos dias, também desempenhavam papel importante nos tratados dos povos antigos. Em Deuteronômio 30:19, Deus “toma os céus e a Terra por testemunhas” da aliança; em Gênesis 23:12 a 18, Abraão convoca testemunhas para a compra do campo de Macpela; e em Rute 4:9 e 10, Boaz recorre à lei do levirato na presença de testemunhas.
Portanto, “a ideia de aliança está intimamente associada ao casamento. Uma aliança é uma promessa solene e obrigatória, um acordo de importância abrangente entre indivíduos, grupos ou nações”.8 Tratando-se do casamento, é possível dizer que “a aliança matrimonial é dupla, pois não se restringe aos cônjuges entre si, mas é também um pacto entre o casal e Deus”.9
O matrimônio é algo sério, com implicações legais e espirituais. Aqueles que decidem formar uma nova família devem assumir esse compromisso conscientes de que precisarão dedicar inteiramente sua vida para que o contrato de casamento não seja violado. Contudo, mais do que a manutenção de um acordo legal, Deus deseja proporcionar ao ser humano completude, segurança, proteção e felicidade plena.
FABRÍCIO FERREIRA MELLO é pastor no Rio de Janeiro
Referências
1 Jean-François Lyotard, A Condição Pós-Moderna (José Olympio, 2009), p. 69.
2 Peter J. Gentry e Stephen J. Wellum, O Reino de Deus Através das Alianças de Deus (Vida Nova, 2021), p. 134, 135.
3 Luciano Subirá, O Propósito da Família (Orvalho, 2020), p. 72.
4 Skip MacCarty, O DNA das Alianças (CPB, 2021), p. 14.
5 Gentry e Wellum, O Reino de Deus Através das Alianças de Deus, p. 135.
6 Hans K. LaRondelle, Nosso Criador Redentor (Unaspress, 2016), p. 1.
7 Ellen G. White, O Grande Conflito (CPB, 2021), p. 324, 325.
8 Frank M. Hasel, “O Conceito Bíblico de Casamento”, em Ekkehardt Mueller e Elias Brasil de Souza (orgs.), Casamento (CPB, 2015), p. 53.
9 Rinaldo L. S. Pereira, Unidos Pelo Casamento (Mundo Cristão, 2014), p. 51.
(Artigo publicado na seção “Logos” da Revista Adventista de maio/2026)


