Há uma tensão aparente entre o “já” e o “não ainda”; entre a iminência da segunda vinda e a aparente demora no cumprimento da promessa. Por um lado, Jesus e os apóstolos exortam a viver com senso de urgência, pois o Senhor “está às portas”; por outro, parábolas como as das dez virgens e dos talentos apontam para uma espera prolongada.
A esperança na vinda de Jesus faz parte do nosso DNA. Nossa identidade está alicerçada na convicção da proximidade do fim. Contudo, a passagem das gerações pode favorecer o enfraquecimento da fé, gerando incerteza, indiferença ou falta de compromisso.
Diante disso, é necessário lembrar a natureza condicional de determinadas profecias, cujo cumprimento está relacionado à resposta humana. Nesse contexto, a demora não se deve à falha das promessas divinas, mas à falta de preparo espiritual e de santidade do povo de Deus. Ellen White afirmou: “Por 40 anos, incredulidade, murmuração e rebelião excluíram o antigo Israel da terra de Canaã. Os mesmos pecados têm atrasado a entrada do Israel moderno na Canaã celestial. Em nenhum dos casos houve culpa por parte das promessas de Deus. É a incredulidade, o mundanismo, a falta de consagração e a contenda entre o professo povo de Deus que nos têm detido neste mundo de pecado e dor por tantos anos.”1
Ao mesmo tempo, temos uma missão a cumprir, levando as boas-novas da salvação até os confins da Terra (cf. Mateus 24:14). Nesse sentido, a pregação do evangelho não é apenas um dever, mas também um meio pelo qual cooperamos com o plano divino, pois “não devemos apenas esperar, mas também apressar ‘a vinda do Dia de Deus’ (2 Pedro 3:12). Se a igreja de Cristo tivesse feito a obra que lhe foi designada, como Ele ordenou, o mundo inteiro já haveria sido advertido e o Senhor Jesus teria vindo à Terra em poder e grande glória”.2
De fato, “o Senhor não retarda a Sua promessa, ainda que alguns a julguem demorada. Pelo contrário, Ele é paciente com vocês, não querendo que ninguém pereça, mas que todos cheguem ao arrependimento” (2 Pedro 3:9). Nessa perspectiva, a aparente demora revela a longanimidade divina. O “relógio de Deus” segue um compasso perfeito, indicando que há um tempo determinado, que “não conhece pressa nem demora”, para o cumprimento de Seus propósitos.
Explicar a demora enfatizando apenas razões humanas pode conduzir ao legalismo, ao desespero ou ao ceticismo. Por outro lado, destacar exclusivamente as razões divinas tende a favorecer a passividade e a indolência. A perspectiva bíblica, porém, aponta para a harmonia entre a capacitação divina e a responsabilidade humana.
Portanto, mais do que oferecer uma explicação para o “porquê” do tempo, o foco das Escrituras recai sobre a atitude do crente: viver cada dia em vigilância e serviço, como se fosse o último, e manter acesa a chama da esperança. Não é tempo de enfraquecer essa convicção, justificando-nos pela aparente demora; ao contrário, é tempo de fortalecer o compromisso, guardando firmemente “a confissão da esperança, sem vacilar, pois quem fez a promessa é fiel” (Hebreus 10:23).
STANLEY ARCO é presidente da Igreja Adventista para a América do Sul
(Artigo publicado na seção Bússola da Revista Adventista de maio/2026)
Referências
1 Ellen G. White, Evangelismo (CPB, 2023), p. 482.
2 Ellen G. White, O Desejado de Todas as Nações (CPB, 2021), p. 508.


