Para muitos de nós envolvidos com o ministério das novas gerações existe uma inquietação que não pode ser ignorada: dedicamos tempo, recursos e esforço, mas nem sempre observamos permanência. A rotatividade é real e não ocorre apenas na Igreja Adventista do Sétimo Dia. Outras tradições cristãs também lidam com esse desafio. Mesmo assim, devemos assumir nossa responsabilidade com humildade e coragem. Estamos oferecendo aos jovens apenas um espaço para ocupar ou um caminho para se tornarem discípulos de Cristo?
A chegada de mais crianças, adolescentes e jovens adultos à igreja é um sinal encorajador. Temos algo a celebrar! A esperança continua passando de geração a geração. A participação deles nos cultos, encontros e programas demonstra que Deus continua chamando, salvando e reunindo. No entanto, aqui está o ponto crucial: seria um equívoco confundir aproximação com enraizamento. Estar presente é o começo, não o fim. É necessário formar discípulos entre eles, e o discipulado não ocorre por acaso; deve ser intencional.
Uma pesquisa recente do Instituto Barna ajudou a desmontar uma narrativa que tem sido repetida por anos: a de que as novas gerações “não querem igreja”.1 Ao examinar os frequentadores (pessoas que se veem como integrantes de uma comunidade de fé), a pesquisa revelou uma tendência surpreendente: os jovens adultos estão à frente na frequência. O dado é interessante: a média geral de frequência é de 1,6 culto por mês, mas a Geração Z (15 a 30 anos) é a mais frequente, com 1,9 culto, enquanto os Millennials (31 a 45 anos) têm uma média de 1,8. Os jovens estão superando até as gerações mais velhas, como os Boomers e os Elders!
Em outras palavras, o problema principal não é, necessariamente, o desinteresse das novas gerações pela fé ou pelos encontros, mas uma interpretação distorcida da realidade. Minha hipótese é a de que nos venderam essa narrativa, e muitos fiéis a aceitaram. O inimigo sabe contar bem certas versões e, quando acreditamos que as novas gerações “não ligam para a igreja”, o passo seguinte é parar de envolvê-las de verdade. Nesse momento, elas se tornam apenas espectadoras.
Por mais envolvido que esteja, o espectador dificilmente cria raízes. Quando não passamos o bastão da liderança, os jovens ficam à margem. Não têm papel de destaque na liturgia, não estão no centro das estratégias evangelísticas e não assumem responsabilidades significativas na missão. Transformam-se em público, não em corpo. Assim, um círculo vicioso se estabelece: sem protagonismo, não há compromisso; sem compromisso, não há espaço para protagonismo ministerial. Para romper isso, é necessário determinação pastoral e eclesiástica. Devemos considerar a presença como o início de um processo e criar “trilhas” nas quais a fé seja aperfeiçoada.
Confiança e acompanhamento
Isso nos conduz a um assunto sensível: nossa estratégia, muitas vezes, é apenas de proteção. Em parte, há razão nisso. Estamos atentos às pressões do mundo, com sua cultura sedutora, secular e materialista (1 João 2:15-17), bem como à insistência para que nos moldemos a este século (Romanos 12:2). Simultaneamente, buscamos preservar e transmitir as crenças distintivas do adventismo: a criação, o sábado, o santuário, a orientação profética e o cuidado com a saúde. É compreensível nosso desejo de manter nossos filhos na igreja e protegê-los de influências que os distanciam de Cristo.
No entanto, aqui está uma autocrítica necessária: frequentemente, nosso modelo de proteção é baseado naqueles que saíram. A questão que predomina na pauta passa a ser: “Por que se afastaram?” Com base nas respostas e opiniões daqueles que partiram, desenvolvemos atividades e programas voltados para as novas gerações. Talvez devêssemos mudar o foco e perguntar a quem ficou: “O que fez você criar raízes?” Em vez de uma igreja que “salva de novo” os filhos com eventos e programas, necessitamos de uma igreja que eduque-os de maneira profunda, com vivência comunitária, responsabilidades reais e discipulado constante.
Há outro equívoco que deve ser deixado de lado: demonizar as novas gerações. Nem tudo que é novo representa uma ameaça. Nem toda linguagem diferente indica falta de fé. Não podemos subestimar a capacidade, dedicação e espiritualidade dos jovens. Há um “desprezo educado” em nossa sociedade. Ele se revela em um erro sutil, que, em algumas ocasiões, se apresenta como afeto: tratamos nossos adolescentes e jovens de forma infantilizada e chamamos isso de valorização. A intenção pode ser proteger, mas o efeito costuma ser outro: adiamos indefinidamente o chamado à maturidade.
Como se manifesta esse “cuidado” inverso? Normalmente, com um senso de adiamento: “Você ainda não está preparado”; “Não é o momento”; “Deixa para quando amadurecer”. Paulo escreveu a Timóteo algo que contraria esse pensamento: “Ninguém o despreze por você ser jovem; pelo contrário, seja um exemplo para os fiéis” (1Timóteo 4:12). O chamado não visa tratar como criança, mas educar e responsabilizar com acompanhamento.
Atuei como diretor do Ministério Jovem por quase dez anos. O que aprendi durante esse período? Nossa juventude é apaixonada por Cristo! Há sede de Bíblia, anseio por missão e disposição para servir. No entanto, às vezes, essa paixão é negligenciada; pior, não é desenvolvida. A diferença é significativa. Não é apenas “dar palco”, mas oferecer um caminho; não é apenas “expor”, mas discipular; não é apenas “usar”, mas formar. Tudo isso exige convivência direcionada: oração, caminhada, serviço, correção e valorização.
Ellen White foi clara quanto a esse aspecto. Ela não pediu apenas entusiasmo, mas confiança aliada à preparação: “A igreja talvez pergunte se podem ser confiadas aos jovens as sérias responsabilidades envolvidas no estabelecimento e direção de uma missão estrangeira. Respondo: Deus designou que eles fossem preparados em nossos colégios e, por meio da associação no trabalho com homens experientes, que fossem preparados para ocupar lugares de utilidade nesta causa. Devemos mostrar confiança em nossos jovens.”2
Observe que ela menciona algo grandioso, desafiador e complexo: missão estrangeira. Se esse é o horizonte, por que não adotar o mesmo princípio para a vida da igreja local, que, em diversos aspectos, é um ambiente menos arriscado e mais supervisionado? Se Deus nos instrui a estar preparados e confiantes em situações difíceis, quanto mais devemos nos preparar e confiar quando temos mentores, supervisão e uma comunidade ao nosso redor. A lógica não é isolamento nem descaso; é discipulado, parceria e missão.
O princípio se aprofunda quando lemos o que Ellen White escreveu sobre a lógica do corpo de Cristo em ação: “Eles [os jovens] deviam ser pioneiros em todo empreendimento que exigisse trabalho e sacrifício, enquanto os sobrecarregados servos de Cristo deviam ser tidos como conselheiros, para animar e abençoar aqueles que têm de desferir os mais pesados golpes em favor de Deus.”3 Isso não é a idealização do “jovem que faz tudo”; é o discipulado saudável, no qual os mais experientes não são ignorados, mas respeitados como conselheiros, e os mais novos não são isolados, mas levados à linha de frente, com acompanhamento, orientação e incentivo.
Vários pastores e líderes mais velhos da igreja compartilham relatos semelhantes: “Fiz uma meditação aos 13 anos em um evento”; “Preguei pela primeira vez aos 15 anos”; “Fui sonoplasta aos 14, professor da Escola Sabatina aos 15, diretor do coral aos 16 e ancião aos 17 anos”. Ao ouvirmos relatos assim, podemos nos deixar levar pela ilusão de que as pessoas talvez fossem mais especiais naquela época. Permita-me discordar!
A idade na qual esses líderes iniciaram sua jornada ministerial não é o mais surpreendente. O que realmente impressiona é que houve pessoas – não apenas uma, mas comissões – que decidiram confiar.
Certamente, confiar envolveu riscos. Quando confiamos de fato, percebemos o que é evidente: os jovens erram. Mas então acontece o verdadeiro milagre. As pessoas confiam novamente, mesmo quando a primeira vez não é perfeita.
Nossos líderes atuais receberam um segundo e um terceiro convite, e se tornaram as referências que são hoje porque alguém “pagou para ver” no passado. Alguém teve fé a ponto de oferecer novas chances. Esse é o tipo de ambiente que transforma habilidade em maturidade: um espaço para aprender, cometer erros, fazer ajustes, crescer e servir da melhor maneira. Foram pessoas que enxergaram em minha geração mãos prontas para levar adiante a tocha do evangelho. Para ser sincero, eles teriam muitas razões para desistir, pelo menos no meu caso! Contudo, o chamado para fazer discípulos foi mais forte no coração deles. Minha geração tem uma dívida de gratidão com esses precursores.
Discipulado que comissiona
Atualmente, um sinal sutil de que estamos perdendo oportunidades surge quando trocamos a participação autêntica por versões mais controladas na igreja. Um vídeo no lugar de um jovem que poderia compartilhar um testemunho; um playback para evitar a “bandinha desafinada”; uma centralização excessiva para eliminar riscos. O resultado é contraditório. Garantimos a programação, mas comprometemos o senso de pertencimento. Depois nos questionamos por que alguns não criam raízes. Pesquisas com jovens cristãos indicam que muitos identificam lacunas no ensino da igreja e sentem falta de conexões.4 Além disso, elementos relacionais, como discipuladores, raramente são citados como motivação, o que pode sugerir não um desinteresse, mas a ausência de oferta percebida nas comunidades.
Antigamente, talvez a necessidade nos fizesse mais ousados – escassez de recursos, poucas pessoas –, e acabávamos utilizando os mais novos, mesmo cientes de que não estavam preparados. Crescemos como denominação e, sem perceber, passamos a nos dar ao luxo de não usar quem ainda não está “perfeito”. No entanto, o reino de Deus não avança com perfeição prévia. Ele avança com formação no caminho.
Se eu tivesse que resumir o discipulado em uma sentença, usaria a mesma ideia que permeia a Bíblia e ecoa nos escritos de Ellen White: associação no trabalho com pessoas experientes. Discipulado não se resume a conteúdo; é convivência orientada. Assim, ao abordarmos as novas gerações, quatro tópicos estão interligados: discipulado, desenvolvimento de líderes, identidade adventista e missão. Identidade sem discipulado vira rótulo; discipulado sem missão se torna rotina; missão sem formação não passa de ativismo; e formação sem confiança se transforma em teoria.
Uma proposta simples de caminho para transferir a liderança para as novas gerações poderia ser:
Patrocínio. Não me refiro apenas ao apoio financeiro (embora, frequentemente, seja esse o tipo de patrocínio de que os mais jovens necessitam, pois o campori não é gratuito e instrumentos musicais têm custo elevado, por exemplo). Estou falando de uma pessoa com autoridade espiritual que abre portas e compartilha capital relacional, oferecendo proteção e incentivo ao discípulo.
Iniciação. Aqui, os primeiros passos são dados com grandes expectativas e orientação clara. O jovem precisa ter consciência de que não está sozinho.
Cultivo. Esse é o momento em que o trabalho de verdade começa. Ajustes são feitos, e confiança e respeito se consolidam.
Multiplicação. O discípulo se torna discipulador, a cultura se dissemina e cria uma rede de apoio.
Como é possível incorporar esse estilo de vida na igreja? Aqui estão algumas sugestões de atitudes discipuladoras que podem ser adotadas no dia a dia:
- Liderar por meio do exemplo e da presença que inspiram.
- Ouvir de verdade e compreender o mundo do outro.
- Respeitar a inteligência do outro e justificar o motivo das escolhas.
- Conceder responsabilidade genuína com supervisão e devolutivas claras.
Deus não espera que os jovens da igreja sejam apenas protegidos. Ele deseja que a juventude seja capacitada e desafiada. O chamado de Cristo sempre foi para o caminho, o serviço e a missão. Isso não significa negligência, mas confiança acompanhada; não significa exposição, mas educação; não significa pressa, mas direção. O próximo passo pode ser simples, mas significativo: escolher uma área, uma responsabilidade ou uma oportunidade concreta e dizer a um adolescente ou jovem adulto: “Confiamos em você e estaremos ao seu lado durante o processo.” Quando a fé se enraíza, a esperança atravessa gerações. E raízes se aprofundam onde existe discipulado intencional, pertencimento autêntico e uma igreja corajosa na formação de pessoas para a glória de Deus. 
VINÍCIUS CARDOSO é coordenador de pós-graduação do seminário de Teologia da Faculdade Adventista Paranaense
(Matéria de capa da Revista Adventista de março/2026)
Referências
1 “New Barna Data: Young Adults Lead a Resurgence in Church Attendance”, Barna, 2 de setembro de 2025, disponível em <barna.com/research/young-adults-lead-resurgence-in-church-attendance/>.
2 Ellen G. White, Conselhos aos Pais, Professores e Estudantes (CPB, 2024), p. 374.
3 White, Conselhos aos Pais, Professores e Estudantes, p. 374, 375.
4 Nei Márcio Oliveira de Sá, “Desafios e Propostas Para a Evangelização da Juventude na Cidade de São Paulo” (dissertação de mestrado, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 2010).


