Neste mês, o calendário destaca o Dia Nacional de Combate às Drogas e ao Alcoolismo (18 de fevereiro). A ciência já comprovou que não existe um nível seguro de consumo de álcool. Segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de 3 milhões de mortes são atribuídas, todos os anos, ao consumo de bebidas alcoólicas. Considerando o longo histórico da igreja no enfrentamento dos vícios, entrevistamos o psiquiatra Fernando Arruda, médico do Hospital Adventista de São Paulo, com experiência no atendimento a dependentes em Centros de Atenção Psicossocial (CAPs) e Unidades Básicas de Saúde, além de atuar como assessor de clínicas nessa área.
A chamada Geração Z está consumindo menos álcool?
Pesquisas recentes confirmam essa tendência. Um estudo realizado no Reino Unido mostrou que 36% dos jovens entre 18 e 25 anos reduziram o consumo de bebidas alcoólicas. A Geração Z, composta por pessoas nascidas entre 2000 e 2009, cresceu em um ambiente totalmente digital, fortemente influenciado pelas redes sociais. Esse contexto tem favorecido maior interesse por saúde, bem-estar e qualidade de vida. Além disso, mudanças nas formas de interação social – com menos encontros presenciais – contribuem para a redução do consumo de álcool em situações sociais. Outro fator é o uso de medicamentos para emagrecimento, como os análogos do GLP-1. Estudos preliminares indicam que medicamentos análogos ao GLP-1 têm contribuído para a redução do consumo de substâncias que causam dependência, como álcool, cigarro e até outras drogas. Há indícios de que, no futuro, esses tratamentos possam auxiliar no enfrentamento dos vícios, embora as pesquisas ainda sejam recentes e não exista, até o momento, um protocolo médico padronizado para essa finalidade.
A ideia de que o consumo moderado de álcool faz bem à saúde é um mito?
Sim. Essa percepção está associada principalmente ao vinho, em razão do resveratrol, um antioxidante presente na casca da uva. No entanto, o consumo de álcool apresenta riscos comprovados, incluindo doenças hepáticas e cardiovasculares, diferentes tipos de câncer e distúrbios metabólicos. Os possíveis benefícios do resveratrol podem ser obtidos por meio do consumo da uva.
Há necessidade de mais iniciativas voltadas ao enfrentamento do alcoolismo?
Historicamente, a igreja desenvolveu cursos e ações voltados ao combate ao tabagismo, mas também construiu uma trajetória significativa no enfrentamento ao alcoolismo. Quando o adventismo surgiu, os Estados Unidos viviam uma forte cultura de consumo de bebidas alcoólicas em eventos sociais, inclusive em funerais. Ao recomendar a abstenção dos vícios, os adventistas aproximaram-se de alguns ensinamentos dos movimentos de temperança e passaram a se manifestar publicamente, a partir da década de 1870, em campanhas contra o fumo e o álcool. Essas iniciativas contribuíram para que alguns fabricantes encerrassem a produção de bebidas alcoólicas no país. A temperança faz parte da essência da nossa mensagem. Por isso, é fundamental que continuemos combatendo o uso de substâncias que causam prejuízos à mente e ao corpo.
Como ajudar alguém que deseja parar de beber?
Reconhecer o alcoolismo como um problema de saúde é fundamental. É importante mostrar à pessoa que precisa de ajuda os prejuízos que o consumo de álcool têm causado a ela e às pessoas ao seu redor. A busca por acompanhamento médico e apoio profissional é essencial. Há tratamento e possibilidade de recuperação, e procurar ajuda deve ser encarado como um ato de força, não de fraqueza.
(Entrevista publicada na Revista Adventista de fevereiro/2026)


