Era o último dia do retiro de verão. Em poucos minutos, eu faria o devocional de despedida dos acampantes. De repente, uma jovem, membro da equipe organizadora do evento, me abordou: “Pastor, a Duda [pseudônimo], uma adolescente da igreja, está com uma dúvida. Você poderia conversar com ela?”
“Claro! Qual é a dúvida?”, respondi imediatamente. A jovem titubeou e disse: “Ah, parece que um amigo dela, membro de outra igreja adventista, disse-lhe que, depois do batismo, ela não deveria mais pecar. Ela está lutando com isso, pastor.”
Naquele momento, olhei em volta para localizar a Duda. Uma adolescente humilde, tímida e bem-intencionada, que carregava o peso de uma incerteza que alguém havia semeado em seu coração. Eu não tinha muito tempo disponível antes de assumir o púlpito para responder a essa inquietação, mas Deus me impressionou a entregar outro sermão em lugar daquele que pretendia pregar. Uma mensagem que tem feito a diferença em minha vida.
Os primeiros oito capítulos da carta de Paulo aos Romanos apresentam a jornada do ser humano em direção à plenitude da salvação. A primeira estação, diagnóstico (Romanos 1 a 3), constata nossa condição, “pois todos pecaram e carecem da glória de Deus” (Romanos 3:23). Se dependêssemos de nós mesmos para a salvação, estaríamos perdidos. No entanto, a segunda estação, solução (Romanos 4 e 5), aponta para o único meio de ser reconciliados com o Pai: “Justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio do nosso Senhor Jesus” (Romanos 5:1).
A presença de Cristo confere novo propósito para aquele que O aceita. Essa mudança de rumo conduz à terceira estação, aliança (Romanos 6), ponto no qual se dá testemunho público da fé nas águas do batismo. O apóstolo escreveu: “Fomos sepultados com Ele na morte pelo batismo, para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também nós andemos em novidade de vida” (v. 4).
Paulo reconhecia que a nova condição, de morte para o pecado e vida para Deus, não implicava impecabilidade, mas levava a outra estação, a do conflito entre naturezas (Romanos 7). “Porque, segundo o homem interior, tenho prazer na lei de Deus. Mas vejo nos meus membros outra lei que, guerreando contra a lei da minha mente, me faz prisioneiro da lei do pecado que está nos meus membros. Miserável homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?” (v. 22-24).
Se o argumento paulino acabasse nesse ponto, seríamos as pessoas mais infelizes do mundo. Contudo, Romanos 8 apresenta a estação que antecede a glorificação: a vida no Espírito. De fato, o apóstolo começou afirmando que o segredo para a vida plena é estar em Cristo (v. 1). E isso só ocorre quando vivemos segundo o Espírito (v. 4). É Ele quem nos sela como propriedade divina (v. 9), garante nossa ressurreição (v. 11), atesta nossa filiação (v. 15), nos enche de esperança (v. 23-25) e age como elo de comunicação entre nosso coração e o Céu (v. 26, 27). Ou seja, a presença do Espírito Santo e Sua obra contínua de santificação não garante impecabilidade, mas o amadurecimento espiritual que nos leva à expressão visível do amor de Deus.
Quando terminei o devocional, procurei a Duda para conversar. Ela sabia que o sermão havia sido direcionado para atender à sua inquietação. Então perguntei: “Duda, você entendeu a mensagem?” Com olhos marejados e cheia de gratidão, aquela adolescente me respondeu: “Sim, pastor. É degrau a degrau, pouco a pouco, até a volta de Jesus.”
É isso! Conforme Paulo escreveu: “Estou certo de que Aquele que começou boa obra em vocês há de completá-la até o Dia de Cristo Jesus” (Filipenses 1:6). Como eu gostaria que todos compreendessem essa verdade maravilhosa!
WELLINGTON BARBOSA é editor da Revista Adventista
(Editorial da Revista Adventista de abril/2026)


