No dia 9 de abril, a educação adventista se despediu de um grande educador: o doutor Renato Gross, que faleceu aos 80 anos, em Curitiba (PR), vítima de câncer. Pedagogo, historiador e filósofo da educação, ele deixou um significativo legado ao longo de décadas dedicadas ao ensino e à pesquisa.
Renato Gross foi chamado de professor pela primeira vez quando tinha sete anos de idade. Naturalmente, foi em tom de brincadeira. Mas o fato é que, desde cedo, as pessoas que o cercavam percebiam sua vocação para a docência. Nascido em Ijuí (RS), graduou-se em Pedagogia em 1970 pela PUC-PR, concluiu o mestrado na mesma universidade e cursou o doutorado em História e Filosofia da Educação na Unicamp.
De seus mais de 40 anos de carreira, 26 foram dedicados à organização adventista, na qual atuou como professor, diretor de escolas e líder do departamento de educação. Gross também se tornou um escritor prolífico. Além de vários capítulos de livros e dezenas de artigos publicados em revistas acadêmicas, ele escreveu diversas obras, incluindo Filosofia da Educação Cristã: Uma Abordagem Adventista, produzida em coautoria com sua esposa, Janine, e Lições do Mestre Jesus, publicadas pela CPB. Suas pesquisas sobre os primórdios da educação adventista no Brasil também resultaram no livro intitulado Colégio Internacional de Curitiba: Uma História de Fé e Pioneirismo (Collins Editora, 1996), publicado no ano do centenário da educação adventista no Brasil.
“O professor Renato Gross era alguém apaixonado pela Educação Adventista, com interesse especial nas raízes históricas do ensino no Brasil. Este livro resgatou a memória daquela importante instituição, que havia sido quase esquecida ao longo dos anos”, explica o pastor e historiador do adventismo Alberto Timm.
Reconhecimentos
Por ter influenciado gerações, deixou muitas marcas positivas na vida de alunos, educadores e líderes da igreja. Para o gerente editorial da CPB, pastor Wellington Barbosa, que foi seu aluno no IAE Central, “Renato Gross foi um professor inspirador, um historiador dedicado e um pensador que contribuiu de maneira significativa para manter a filosofia educacional adventista viva e presente no cotidiano escolar de nossa rede confessional”.
Como lembra o historiador Elder Hosokawa, que lecionou para os filhos do doutor Renato, ele foi pioneiro na criação do NIFE, um organismo de estudo e pesquisa do Unasp, “cujo objetivo é promover a excelência da Educação Adventista, mediante a integração da fé com o ensino e a aprendizagem, em todos os níveis acadêmicos e em todas as áreas do conhecimento humano”.
Para Hosokawa, a maior contribuição de Renato Gross ao pensamento adventista contemporâneo está na obra Cristo nas Salas de Aula (2003). Nesse livro, o autor sistematiza o que a igreja compreende como o “DNA” da rede educacional: a integração entre fé e ensino. “Gross combatia o dualismo que separa o conhecimento científico da Verdade revelada. Para ele, a sala de aula era um espaço sagrado, no qual áreas como sociologia, história e filosofia deveriam conduzir ao reconhecimento do Criador”, ressalta.
Um dos primeiros a refletir sobre o ensino superior adventista no contexto acadêmico secular brasileiro, Gross abriu caminho para muitas das pesquisas que hoje se desenvolvem sobre a Educação Adventista no país. “Além de historiador, sua contribuição na área da filosofia da Educação Adventista serviu de base para nortear e fundamentar os principais pilares que sustentam a rede. Nos últimos anos, ele contribuiu para a capacitação de milhares de professores, de norte a sul do país, sempre com um sorriso e grande amabilidade. Como professor, deixará um legado a ser seguido por centenas de alunos, que pautam seus saberes nos ensinamentos adquiridos em suas aulas marcantes. Podemos dizer que esse legado será seguido e praticado por muitos dos educadores adventistas que hoje atuam nas salas de aula da rede”, afirma o pastor Douglas Menslin, doutor em Educação e vice-presidente da Divisão Sul-Americana.
Outro aspecto destacado por Elder Hosokawa foi o pioneirismo de Renato Gross no campo da inclusão. “Já em 1985, em sua pesquisa sobre distúrbios de aprendizagem e hiperatividade, Gross demonstrava uma preocupação precoce com a inclusão e a psicologia educacional, muito antes de o tema se tornar tendência no Brasil”, complementa.
Memórias
O teólogo e educador Adolfo Suárez também foi profundamente influenciado por seu professor. “Escrevo estas palavras com um misto de profunda tristeza e grata lembrança: tristeza pela perda de alguém que considero um dos melhores professores que tive; grata lembrança, porque ele marcou positivamente a minha formação”, afirma.
Ele também relembra que, há cerca de quatro anos, pôde reencontrar o Dr. Renato. “Minha esposa Janete e eu estivemos com ele e com sua esposa, a professora Janine, de quem também tive o privilégio de ser aluno. Foram momentos agradáveis e instrutivos em Curitiba, no Paraná.”
Ao refletir sobre o legado do educador, afirma: “Uma pessoa como o Dr. Renato fica na memória para sempre, pois é o tipo de educador que queremos imitar, por sua simpatia, cultura refinada, compromisso com a filosofia educacional bíblica e dedicação para transformar vidas.” Ele acrescenta que, como docente, Renato Gross “era cativante em sua didática, sólido no conteúdo, rigoroso em suas avaliações, motivador na conquista de sonhos e sensível como cristão”. Por fim, destaca: “Seus textos e palestras nos ajudaram a encarar com seriedade a prática de uma educação que preza pela qualidade e por uma inequívoca identidade adventista.”
Em entrevista concedida à Revista Adventista há alguns anos, o doutor Renato ressaltou um ponto que não pode ser esquecido pelas novas gerações de educadores: “Sem as raízes bíblicas, teológicas e filosóficas da Educação Adventista, corremos o risco de ficar apenas no superficial, na aparência, nas ‘flores’” (“Raízes e frutos da educação”, Revista Adventista, outubro de 2015, p. 6-7).
MÁRCIO TONETTI é editor associado da Revista Adventista


