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Vida na cidade

Crédito da imagem: Adobe Stock
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Escrito por A Redação

A necessidade de pregar nos centros urbanos.

Shawn Brace

Há alguns anos, enquanto nos preparávamos para mudar de endereço por causa do trabalho, um amigo manifestou uma preocupação. Havíamos decidido morar na cidade de Portland, acreditando que seria a melhor maneira de servir e evangelizar. No entanto, ele temia que não tivéssemos a mesma qualidade de vida e questionava se realmente estávamos seguindo a orientação divina.

Embora seja a maior cidade do Maine, Portland tem uma população inferior a 70 mil habitantes. Além disso, acabamos nos mudando para um bairro suburbano, mais rural do que a área onde vivíamos em Bangor, a terceira maior cidade do estado. Ainda assim, aquele amigo não havia levado isso em consideração.

Isso me levou a refletir sobre como, muitas vezes, cometemos equívocos acerca dessa questão, e sobre como isso, em última análise, prejudica nossa disposição e capacidade de participar da missão divina.

É verdade que houve momentos em que Ellen White desencorajou as pessoas a viver nos centros urbanos. Em 1899, por exemplo, ela escreveu: “Como guardadores dos mandamentos de Deus, temos que deixar as cidades. Como fez Enoque, devemos trabalhar nas cidades, mas não morar nelas.”1

Mas houve também momentos – inclusive após essa data – em que ela incentivou as pessoas a continuar vivendo nas cidades, para que pudessem alcançá-las de maneira mais eficaz.

Devemos compreender seus conselhos à luz do contexto histórico em que foram escritos. Ellen White produziu esses textos durante um período de transição da história americana, marcado por um intenso crescimento urbano, resultado, em parte, da rápida imigração. Esse processo levou à superlotação, a elevados níveis de pobreza e a um aumento vertiginoso da criminalidade.

Além disso, naquela época, o coração das grandes cidades era permeado por vícios contra os quais a pioneira fazia advertências. Hoje, uma pessoa pode igualmente se entregar a práticas errôneas por meio de um smartphone, mesmo estando em uma barraca no Alasca – assim como alguém que estivesse em um bordel em São Francisco em 1900.

A pioneira sempre desejou que seus escritos fossem utilizados com bom senso e que a Bíblia fosse o principal guia. No caso específico do evangelismo, ela exortava as pessoas a estudar o campo de trabalho, a fim de compreender a melhor forma de alcançá-lo.2

Contextualização

Considerando o contexto do século 21 e o exemplo de Jesus, precisamos nos aproximar das pessoas se quisermos influenciá-las para Cristo. Afinal, foi exatamente isso que o Filho de Deus fez. João nos diz: “E o Verbo Se fez carne e habitou entre nós” (João 1:14). Em outras palavras, Ele se mudou para o nosso “bairro”.

Em um mundo cada vez mais cético em relação ao cristianismo, conquistar a confiança das pessoas leva tempo e exige convivência. Por isso, muitas vezes há um longo caminho até que os moradores das cidades estejam abertos a ouvir sobre nossas convicções. Antes de tudo, precisamos nos aproximar e viver ao lado deles.

A verdade é que poucos estão dispostos a assistir à uma reunião evangelística, como acontecia antigamente. E, nesta era da inteligência artificial, em que as pessoas se tornam cada vez mais céticas quanto à veracidade do que veem em uma tela, nada supera o poder da conexão “face a face”, cultivada ao longo do tempo.

Felizmente, na história adventista, não nos faltam exemplos inspiradores. Foi exatamente isso que Stephen Haskell e sua esposa, Hetty, fizeram em 1901, aos 69 anos de idade, quando foram chamados pela Associação Geral para trabalhar na região metropolitana de Nova York. Eles se mudaram para Manhattan, alugaram um apartamento no sexto andar de um prédio a poucos quarteirões do Central Park, e iniciaram o trabalho de discipular seus vizinhos.

O casal Haskell considerava uma grande vantagem essa localização.3 Após 15 meses de trabalho, relataram que cerca de 60 pessoas haviam se unido à fé, o que levou ao surgimento de uma nova congregação adventista.

Stephen queria saber o que Ellen White pensava a respeito disso, especialmente porque, alguns anos antes, ela havia aconselhado que os adventistas não vivessem nas cidades. A pioneira lhe respondeu: “O Senhor lhe deparou uma oportunidade de entrar na cidade de Nova York, e seu trabalho de missão lá deve ser um exemplo do que deve ser esta espécie de trabalho em outras cidades. Você tem que mostrar como a Obra deve ser levada adiante, semeando a semente, e depois ceifando a colheita. […] Sua obra em Nova York foi iniciada na devida maneira. Você tem que estabelecer em Nova York um centro de esforço missionário do qual a Obra possa ser levada adiante com êxito. O Senhor deseja que esse centro seja uma escola de preparo para obreiros, e não se deve permitir que nada interrompa a Obra.”4

Nem todos são chamados a viver nas cidades, é claro, e cada pessoa deve calcular o custo dessa decisão. Mas, se queremos alcançar as pessoas com o evangelho, precisamos estar onde elas estão. Como denominação, também precisamos reconhecer o alto custo financeiro de viver em grandes centros urbanos e pensar em maneiras criativas de ajudar a sustentar missionários nesses aglomerados humanos. 

SHAWN BRACE é pastor em Portland (EUA) e cursa o doutorado em História Eclesiástica na Universidade de Oxford

Referências

1 Ellen G. White, Evangelismo (CPB, 2023), p. 55.

White, Evangelismo, p. 53.

3 George R. Knight, “Another Look at City Mission”, Adventist Review, dezembro de 2001, p. 28.

4 White, Evangelismo, p. 268.

(Artigo publicado na Revista Adventista de março/2026)

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Equipe da Revista Adventista

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