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Superstições

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Escrito por A Redação

Quando o medo se disfarça de fé.

Seth Pierce

“Preciso ser batizado.” Essas foram as palavras de um desconhecido que entrou em nossa igreja, procurou a secretária da congregação e disse que precisava, com urgência, falar com um pastor. Ao sentar-se em meu escritório, apresentava uma aparência visivelmente abatida.

Pedi-lhe que compartilhasse mais detalhes de sua história. Ele então falou de suas aflições e seus infortúnios, reforçando, de maneira ainda mais enfática, que precisava ser batizado.

Pensei por um momento e fiz a seguinte pergunta: “Você sabe que não há nada de mágico na água, certo?” Expliquei que o batismo representa a entrega do coração a Jesus, a morte para o eu e o novo nascimento. “Ele não fará todos os seus problemas desaparecerem de repente”, concluí. Decepcionado com a resposta, ele agradeceu a atenção, levantou-se e foi embora.

Uma música intitulada “Superstition”, reflete sobre as diversas crendices que deixam as pessoas apreensivas, como passar debaixo de escadas, o número 13 e espelhos quebrados. O refrão afirma: “Quando você acredita em coisas que não entende, você sofre. Superstição não é o caminho”.1

Os cristãos são aqueles que seguem “o Caminho, a Verdade e a Vida” (João 14:6). Contudo, por vezes, os seguidores de Cristo acabam caminhando de mãos dadas com crendices. Quando isso acontece, o medo se multiplica e produz sofrimento. Mas como, afinal, podemos saber se a nossa fé está misturada com superstição?

Fé versus superstição

Os estudiosos apresentam várias definições de superstição, mas, segundo Eva Delacroix e Valérie Guillard, há consenso de que ela envolve crenças ou comportamentos contrários às normas racionais de uma sociedade.2 Um exemplo disso ocorre na China, onde o número oito é considerado um sinal de sorte e, por isso, aparece com frequência nos preços.

Na contramão de práticas como essas, a cosmovisão cristã é moldada pelas Escrituras. Embora a palavra “superstição” não apareça na maioria das traduções da Bíblia, a realidade que ela descreve é abordada em passagens como Atos 17. Nesse episódio, Paulo observou em Atenas um altar dedicado a um “deus desconhecido” (v. 23), evidenciando o esforço dos moradores em obter o favor das divindades, movidos pelo temor de sua ira e pela tentativa de apaziguá-las.3

Ao discursar no Areópago, Paulo afirmou: “Senhores atenienses! Percebo que em tudo vocês são bastante religiosos” (v. 22). A versão King James traduz o termo “religiosos” como “supersticiosos” (em grego deisidaimōn). No mundo antigo, esse termo podia significar tanto piedade quanto uma perversão dela.

O estudo de Monique Cuany sobre o vocábulo revela uma ampla variedade de sentidos. No entanto, de modo geral, “os antigos simplesmente o descreviam como o ‘temor dos deuses’. Essa definição parece prevalecer até o fim do século II d.C.”.4 No discurso de Paulo, o termo também designa “uma emoção ou disposição caracterizada pelo medo de incorrer em hostilidade ou retribuição divina”.5

À medida que a teologia cristã se desenvolveu, o termo latino superstitio passou a ser utilizado para descrever aquilo que hoje chamamos de superstição. Diversos pensadores registraram a luta da igreja contra essas práticas. Agostinho, por exemplo, respondeu à defesa da religião civil romana feita por Varrão, questionando o argumento do filósofo de que a religião cívica seria necessária, mesmo contendo elementos falsos e supersticiosos, supostamente úteis para manter a população sob controle por meio do medo.6

Outros estudiosos acrescentam que superstitio era um termo depreciativo aplicado àqueles que não praticavam a religião oficial do Estado. “No fim da República e no início do império, superstitio referia-se, de modo geral e com desprezo, às crenças e práticas da religião popular, especialmente a religião popular do campo.”7

Mais tarde, a superstição passou a ser associada a alguns rituais do catolicismo romano, como as orações aos santos, a missa e as indulgências, vistas como meios de garantir a salvação ou de auxiliar alguém no purgatório.8 À medida que o cristianismo se expandiu, certos elementos de antigas cosmovisões pagãs fundiram-se com a fé professada em Jesus. Mensah Adinkrah, em seu estudo sobre a feitiçaria em Gana, observou: “A conversão ao cristianismo não significa, necessariamente, o abandono completo de crenças tradicionais”, como “o animismo, a veneração aos ancestrais, a feitiçaria, os fantasmas e outras forças sobrenaturais”.9

Em algumas partes do mundo, existe o que têm sido chamado de “mentalidade da feitiçaria”, segundo a qual acontecimentos negativos não são explicados por relações naturais de causa e efeito, mas atribuídos à ação de algum agente sobrenatural.10

Há alguns anos, participei de uma Assembleia da Associação Geral em que nos sentamos ao lado de uma família com uma criança pequena e bastante inquieta. Em vez de uma abordagem amorosa, que considerasse o fato de que crianças pequenas, por natureza, são agitadas, a avó afirmou em voz alta que a criança estava possuída pelo diabo. A cena foi profundamente perturbadora para todos ao redor, especialmente para a própria criança. Não teria esse tipo de reação, movida pelo medo, mais raízes na superstição do que na confiança em um Deus amoroso, que cuida de nós?

É esse mesmo medo que leva as pessoas a baterem na madeira ao mencionar um possível infortúnio, a pendurar cruzes sobre portas para impedir a entrada do mal e a enxergar uma coruja – uma das criaturas de Deus – como mau presságio. Isso não significa negar a existência do mal no mundo; trata-se, antes, de reagir contra uma das armas mais poderosas do mal: o medo.

A Bíblia apresenta evidências de um conflito cósmico, mas parte da estratégia do inimigo é levar-nos a temer aquilo que não deveríamos. O medo exagera o objeto temido, concedendo-lhe mais poder sobre o coração e a mente do que Àquele cujo “perfeito amor lança fora o medo” (1 João 4:18). O profeta Jeremias, ao observar as reações temerosas das pessoas diante dos “costumes dos povos” e da fabricação de ídolos, afirmou: “Os ídolos são como um espantalho em pepinal; eles não falam. Necessitam de quem os leve, porque não podem andar. Não tenham receios deles, pois não podem fazer mal; também não podem fazer o bem” (Jeremias 10:3, 5).

Embora o apóstolo Paulo nos advirta a ser sensíveis à cultura daqueles que estão imersos na idolatria, ele também lembrou seus leitores de não se relacionarem com objetos inanimados de maneira supersticiosa: “Quanto a comer alimentos sacrificados a ídolos, sabemos que o ídolo, por si mesmo, nada é no mundo e que não há senão um só Deus. Porque, ainda que existam alguns que são chamados de deuses, quer no céu ou sobre a terra – como há muitos ‘deuses’ e muitos ‘senhores’ –, para nós, porém, há um só Deus, o Pai, de quem são todas as coisas e para quem existimos, e um só Senhor, Jesus Cristo, por meio de quem todas as coisas existem e por meio de quem também nós existimos” (1 Coríntios 8:4-6). Precisamos ser conscientes, mas não movidos pelo medo nem inclinados a atribuir autoridade aos ídolos, o que pode nos levar a praticar atos baseados em superstições, em vez de fé.

A fé bíblica é contrastada com a superstição em diversos textos. Um dos mais marcantes é Hebreus 11:1: “Ora, a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não veem”. Observe que a fé consiste em depositar confiança plena em Deus quanto àquilo que esperamos, e não em uma expectativa temerosa ou na suposição de que forças das trevas irão arruinar nossa vida.

Avalie suas crenças

Uma das exortações mais frequentes na Bíblia é: “Não tenham medo!”11 Jesus afirmou que a principal marca do discipulado é o amor uns pelos outros (João 13:35). Pode-se afirmar, portanto, que toda prática motivada pelo medo tem, em sua raiz, a superstição, ao passo que práticas motivadas pelo amor a Deus e ao próximo são características da fé.

Certamente, há lugar para o medo. Ele muitas vezes nos mantém atentos e preserva nossa vida diante de perigos reais. Contudo, viver em constante temor de punição divina ou de que demônios assumam o controle de nossa existência aproxima-se mais da superstição e do paganismo do que do verdadeiro cristianismo.

Há algumas maneiras práticas de avaliarmos se estamos agindo pela superstição ou por fé. Ao refletirmos sobre nossas ações, é saudável perguntar: De onde veio essa prática? Ela é fundamentada no amor ao nosso Salvador, ou lhe atribuímos um caráter mágico, enraizado no medo? Nossas práticas religiosas devem ser conduzidas pela comunhão com Deus, e não pela tentativa de nos proteger Dele.

Além disso, é preciso cuidado para não transformar a fé em um conjunto de fórmulas aplicadas à oração, à liturgia, à alimentação ou a qualquer outra prática que represente uma tentativa de assumir controle sobre os resultados, em vez de confiar no poder de Deus.

Conclusão

Para evitar que a fé dê lugar à superstição, Ellen White afirmou: “Há cristãos que falam demais sobre o poder de Satanás. Pensam em seu adversário, oram a seu respeito, falam nele, e ele ocupa cada vez mais a imaginação das pessoas. É verdade que Satanás é um ser muito forte, mas, graças a Deus, temos um poderoso Salvador que expulsou do Céu o maligno. Satanás se alegra quando engrandecemos sua força. Por que não falar em Jesus? Por que não exaltar Seu poder e amor?”12

Devemos “rebatizar” nosso entendimento por meio do estudo da Palavra de Deus, a fim de não confundirmos os medos e as ansiedades que acompanham o caminho da superstição com o amor, a paz e a alegria que caracterizam a fé em Jesus.

SETH PIERCE atua como pastor em Portland e professor de Religião na Universidade Walla Walla, nos Estados Unidos

(Artigo publicado na Revista Adventista de março/2026)

Referências

1 Stevie Wonder, “Superstition”, Talking Book (Tamla, 1972).

2 Eva Delacroix e Guillard Valérie, “Understanding, Defining, and Measuring the Trait of Superstition”, trabalho apresentado na Reunião Mundial IAREP/SABE, em janeiro de 2008.

3 Ángel Manuel Rodríguez (ed.), Comentário Bíblico Andrews (CPB, 2024), v. 3, p. 537, 538.

4 Monique Cuany, “Early Christianity and Greek Philosophy: The Argument of Acts 17:16-34 in Light of the Philosophical and Religious Debates of Early Post-Hellenistic Times” (tese de doutorado, Universidade de Cambridge, 2018), p. 61.

5 Cuany, “Early Christianity and Greek Philosophy”, p. 84.

Agostinho, A Cidade de Deus, Livro 6.

7 Mary Beard e John North (orgs.), Pagan Priests: Religion and Power in the Ancient World (Cornell University Press, 1990), p. 237.

Jean Delumeau, Sin and Fear: The Emergence of a Western Guilt Culture, 13th–18th Centuries (St. Martin’s Press, 1990), p. 542.

9 Mensah Adinkrah, Witchcraft, Witches, and Violence in Ghana (Berghahn Books, 2015), p. 46.

10 Bruce L. Bauer, “Cultural Foundations for Fear of Witchcraft in Africa”, em Journal of Adventist Mission Studies, 2017, v. 13, no 1, p. 9.

11 N. T. Wright, Following Jesus: Biblical Reflections on Discipleship (Eerdmans, 2014), p. 68.

12 Ellen G. White, O Desejado de Todas as Nações (CPB, 2021), p. 394.

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