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Sábado no tempo do fim

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Escrito por A Redação

Reflexões sobre o papel escatológico do quarto mandamento

Ángel Manuel Rodríguez

Aescatologia adventista confere ao quarto mandamento um papel significativo pouco antes da vinda de Cristo. Essa ênfase escatológica específica levanta pelo menos uma questão: quais são os fundamentos que nos permitem atribuir essa importância ao sábado? A seguir, apresento algumas sugestões que podem ser úteis para responder à nossa pergunta. Essas ideias pressupõem o entendimento da narrativa do querubim celestial caído (Isaías 14:12-14; Ezequiel 28:12-19), que desafiou a integridade do caráter divino (cf. Gênesis 3:4, 5; João 1:8-11) e buscou ser como Deus, afirmando ser um objeto legítimo de adoração (Mateus 4:8-10).

O amor de Deus

Embora seja mencionado como lei, o sábado confirma a veracidade do evangelho eterno e nos incentiva e ordena sua lembrança.
O quarto mandamento é o único que cita Deus explicitamente, referindo-se às Suas duas obras mais importantes: criação (Êxodo 20:8, 11) e redenção (Deuteronômio 5:15).

Quais são as semelhanças entre criação e redenção? Há muitas, mas citarei apenas algumas. Elas são resultado da obra do Filho de Deus (João 1:1-3; 14; Romanos 3:23, 24), o que exige uma interpretação cristológica de ambas (cf. Colossenses 1:15-20). São obras únicas de Deus realizadas por intermédio de Seu Filho e estão envolvidas em um aspecto essencial do evangelho: não são fruto de esforços humanos (Romanos 3:20).

Criação e redenção são as duas manifestações mais poderosas da ação divina que conhecemos. A imensidão do Universo indica que sua origem foi uma esplêndida manifestação do poder de Deus. A manifestação incomparável de Sua graça salvadora (Romanos 5:20) é o envolvimento pessoal e direto do Senhor na obra da redenção por intermédio de Cristo, que possibilita a restauração de cada indivíduo à comunhão permanente com Ele.

Uma das principais semelhanças entre criação e redenção é que ambas expressam o amor divino. O Deus que criou tudo por amor nos deu o sábado para nos lembrar de que Ele é um Criador amoroso. O Deus que nos redimiu por meio do amor e da graça nos concedeu o sábado como um lembrete de que a redenção é um dom do Seu amor e da Sua graça. O sábado é uma prova maravilhosa do amor de Deus como Criador e Redentor.

Assim, não é surpreendente que, ao final do conflito cósmico, o sábado se torne um alvo de ataques das forças malignas que se opõem ao evangelho da salvação por meio da fé em Cristo (Apocalipse 12:4; 14:8). Elas tentarão alcançar isso por meio da marca da besta. Satanás tem como objetivo silenciar o testemunho do sábado, que representa o primeiro ato de amor divino na história do cosmos e do evangelho da salvação, que é realizado pelo amor sacrificial de Cristo (Apocalipse 14:13; 13:15). Contudo, o testemunho do sábado não será calado.

O caráter de Deus

O querubim caído parece acreditar que modificar o quarto mandamento seria um meio eficiente para alcançar seus propósitos malignos. Desde o início, ele esteve em conflito aberto contra a vontade de Deus, mas sua hostilidade contra a lei é claramente exposta na literatura apocalíptica (cf. Daniel 7:25; 2 Tessalonicenses 2:3, 4, 7, 8). Sua oposição à lei divina disfarça um ataque direto contra o Senhor.

Como o Decálogo reflete verbalmente o caráter divino, qualquer mudança na lei representa um ataque à integridade e à perfeição desse caráter, insinuando que Deus não é quem afirma ser, conforme a serpente sugeriu a Eva (Gênesis 3:4, 5). Se houvesse necessidade de alterar a lei de Deus, isso indicaria claramente que a lei, e especialmente o Legislador, é falha e necessita de aprimoramentos. Como resultado, Lúcifer parece defender que desobedecer a uma lei imperfeita é legal e moralmente aceitável.

A alteração mais significativa aconteceu quando se buscou substituir a observância do sábado pela guarda do domingo. Dessa forma, Satanás buscava descreditar o caráter divino e exibir sua autoridade sobre a lei. Ao aceitar a mudança e obedecer ao “mandamento” modificado, os seres humanos, de fato, negam a integridade do caráter amoroso de Deus. Isso justifica a relevância do Decálogo, que reflete o caráter do Senhor, no livro do Apocalipse (Apocalipse 12:17; 14:12).

Sábado e adoração

Mudar o quarto mandamento, trocando o dia de descanso e adoração, resultaria na adoração de um deus falso. É importante ter em mente que o mandamento do sábado não diz respeito ao descanso em um dia comum, mas está ligado a um dia sagrado. Esse é o tempo em que Deus e os fiéis se encontram, liberando os observadores do sábado das preocupações com produtividade ou obras humanas. Entramos nesse período sagrado para estar em comunhão com nosso Criador e Redentor, adorando-O. De fato, a santidade do sétimo dia, o sábado, é um “espaço no tempo” que foi divinamente estabelecido para adorar a Deus.

Atualmente, a maior parte do mundo cristão considera o domingo como o dia verdadeiro de culto. Parece que o objetivo de Satanás foi alcançado: ele mudou a lei no ponto em que se encontra com a adoração. De fato, eles são inseparáveis; portanto, mudar o quarto mandamento leva à idolatria. Isso é incrivelmente engenhoso e extremamente enganoso!

Ao modificar o quarto mandamento, o querubim caído parece ter alcançado seu objetivo: desacreditar o caráter divino e se tornar objeto de adoração. Para ele, o sábado precisa acabar! Assim, é imprescindível que a humanidade ouça novamente o evangelho da salvação por meio da fé em Cristo, que não contraria a lei divina expressa no Decálogo. A perpetuidade da lei deve ser proclamada não como um instrumento de salvação, mas como prova da salvação por meio da fé em Cristo.

Sinal de lealdade

O sábado ocupa o centro do Decálogo, e sua singularidade e especificidade o tornam um sinal ideal de lealdade a Deus. No idioma hebraico, o Decálogo, conforme apresentado em Êxodo 20:3-17, é composto por 152 palavras. Para encontrar o centro, basta dividir 152 por dois, resultando em 76 palavras em cada lado. O versículo 10 é o centro do Decálogo. A 76a palavra é “sétimo”, enquanto na outra seção é “sábado”. A seguinte frase está no centro do Decálogo: Mas o sétimo dia é um sábado “pertencente ao”, “em honra de”, ou “para” o Senhor.

Sob a perspectiva literária, a frase específica ocupa o centro dos Dez Mandamentos, e considerando o que sabemos sobre a narrativa bíblica do sábado, isso não é uma coincidência. Sabemos que essa frase adquiriu grande relevância na história da observância do sábado. A especificidade do mandamento, expressa na frase “o sétimo dia é o sábado”, perturbou tanto o mundo cristão que se optou por removê-la, sob a justificativa de que “o sétimo dia” é um elemento ritual do quarto mandamento sem nenhuma relevância para os cristãos.

Entretanto, é exatamente a especificidade do mandamento – ser o sétimo dia – que o torna um sinal de fidelidade ao Senhor no meio do conflito cósmico e que enfatiza o privilégio humano de viver em comunhão com esse Deus santo. Satanás exige lealdade exclusiva e se opõe ao sinal de fidelidade a Deus no tempo do fim, oferecendo ironicamente um falso sábado, o primeiro dia da semana, como sinal de lealdade a ele: a marca da besta (Apocalipse 13:16). Entretanto, a lei de Deus é perfeita (Salmo 19:7) e inalterável, pois reflete o caráter divino.

Conclusão

O papel escatológico do sábado no tempo do fim está ligado ao propósito divino de que ele sirva como um testemunho do evangelho da salvação por meio da fé em Cristo. Isso é inaceitável para o querubim caído, que tenta divulgar seu evangelho falso. As forças do mal se opõem ao sábado bíblico, pois ele serve como um lembrete constante para a humanidade de que criação e redenção são as expressões mais significativas do amor divino.

O sábado associa um mandamento específico à verdadeira identidade do objeto de adoração, e essa particularidade o converte em um sinal visível e efetivo de fidelidade ao Cordeiro, em um período em que as forças malignas batalham contra Ele, Sua lei e Seu caráter.

Assim, a observância do sábado pelo povo de Deus servirá como um sinal, um testemunho para o mundo, demonstrando que o Criador e Redentor é um Deus amoroso e cheio de misericórdia, e que o descanso é encontrado por meio da fé em Cristo. O Cordeiro de Deus vencerá a oposição escatológica contra Ele (Apocalipse 17:14).

ÁNGEL MANUEL RODRÍGUEZ, pastor, professor e teólogo aposentado, foi diretor do Instituto de Pesquisa Bíblica

Referência

*A versão completa deste artigo está disponível em: “The eschatological role of the sabbath”, Reflections, no 87, jul/set 2024, p. 2-5.

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Equipe da Revista Adventista

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