Rodrigo Guerra da Fonseca
Imagine um antigo agricultor, saindo das muralhas da cidade ao amanhecer, levando consigo sementes capazes de mudar o destino de sua colheita. Agora, imagine que essas sementes não são grãos comuns, mas a própria Palavra de Deus, que transforma vidas.
Quando Jesus ensinou por parábolas, Ele não falava apenas aos ouvintes do Seu tempo – falava também a nós. A parábola do semeador (Mt 13:1-23; Mc 4:1-20 e Lc 8:4-15) é um exemplo simples da agricultura que se tornou fundamento para ensinos preciosos, transmitidos de geração em geração.
Hoje, diante das grandes cidades que se erguem como novos campos missionários, somos chamados a refletir: Qual é o nosso papel nesse vasto campo de colheita espiritual urbano? Que tipo de semente temos lançado? E quais são os novos desafios e obstáculos na pregação do evangelho?
O semeador
“Eis que o semeador saiu a semear” (Mt 13:3). Na parábola do semeador, a figura central é, sem dúvida, Cristo. Ele deixou o conforto do Céu para entrar em nosso mundo imperfeito, enfrentando o sofrimento e a cruz, a fim de semear vida nos corações perdidos. Ellen White descreveu esse gesto sublime com as seguintes palavras: “Saiu como homem sofredor e tentado. Saiu em solidão para semear em lágrimas e para regar com o próprio sangue a semente da vida para um mundo perdido” (Parábolas de Jesus [CPB, 2022], p. 14).
No entanto, ao ampliarmos a perspectiva, percebemos que o semeador também representa aqueles que O seguem fielmente. E aqui está o ponto de virada: não somos apenas observadores, mas chamados a seguir o exemplo de Jesus. Ele disse: “Assim como o Pai Me enviou, Eu também envio vocês” (Jo 20:21).
A vida com Cristo não dá margem à inércia missionária. O verbo “sair” (Mc 4:3) descreve uma ação imediata e decisiva, que não espera condições perfeitas. Afinal, “o primeiro impulso do coração regenerado é levar outros também ao Salvador” (Ellen G. White, O Grande Conflito [CPB, 2021], p. 59). Trata-se de um compromisso que redefine prioridades; um chamado para ser canal de vida divina em um mundo sedento e fonte de verdade onde há engano.
Se o campo missionário de ontem eram vilas e aldeias, hoje o chamado de Cristo ecoa sobre o concreto, entre o barulho do trânsito e os becos esquecidos das metrópoles. É em meio às multidões anônimas e à indiferença urbana que o discípulo descobre que as cidades são lugares de pressa, mas também de encontros inesperados – e que cada encontro urbano pode se tornar uma oportunidade de semear a Palavra. Um ônibus lotado, uma sala de aula, o ambiente de trabalho ou até mesmo uma calçada podem ser espaços de semeadura da compaixão. E essa semente pode se manifestar em gestos simples: uma palavra, um abraço ou uma oração no momento certo.
A semente
Somos semeadores de uma semente específica: a Palavra de Deus (Lc 8:11). Em sua essência, ela é imutável; a única que tem poder real para restaurar a alma e gerar vida.
Nas grandes cidades, muitos recorrem a tradições, produções literárias e filosofias humanistas para tentar sanar as angústias da vida e o vazio existencial e espiritual. Porém, nada pode preencher, no coração humano, o espaço reservado à Palavra de Deus. Distinta de qualquer outra literatura, a Bíblia Sagrada tem poder de transformar todo coração disposto a obedecer à sua mensagem. Martinho Lutero, a partir de sua própria experiência, afirmou: “A Bíblia é viva, fala comigo; tem pés, me persegue; tem mãos, me segura (Luther’s Works [Concordia Publishing House, 1960], v. 9, p.24).
Viva e eficaz em qualquer tempo, a Palavra de Deus precisa encontrar espaço no coração pulsante dos centros urbanos. Ellen White escreveu: “O dever dos servos de Deus neste tempo é pregar a Palavra nas cidades. Cristo veio das cortes celestes à Terra a fim de salvar almas; e nós, como pedintes de Sua graça, necessitamos comunicar aos habitantes das grandes cidades o conhecimento de Sua salvadora verdade” (Mensagens Escolhidas [CPB, 2021], v. 1, p. 142). Para isso, a pregação do evangelho não pode se limitar ao púlpito; precisa tornar-se viva nas ruas, praças, escolas e comunidades.
Se a mensagem precisa sair das quadro paredes, é essencial que ela se traduza em ações práticas que alcancem pessoas nos mais diversos contextos da vida urbana. A distribuição de Bíblias e livros missionários, a formação de grupos de estudo informais, oficinas sobre ética, cidadania e vida prática à luz da Bíblia, atividades recreativas com ensinos bíblicos para crianças e adolescentes, refeições acompanhadas de reflexões espirituais para a comunidade, além de lives, vídeos curtos e devocionais nas redes sociais, são alguns exemplos de como isso pode ser feito.
Desafios e obstáculos
De acordo com a parábola, existem pelo menos três fatores que impedem a semente de criar raízes, crescer e frutificar:
1. Aves devoradoras (Mc 4:4). Representam Satanás, que rouba a Palavra antes que ela enraíze. Hoje, distrações digitais, ideologias contrárias ao cristianismo e entretenimentos vazios cumprem o mesmo papel: obscurecem a percepção espiritual, tornando as pessoas insensíveis à mensagem do evangelho.
2. Sol ardente (Mc 4:5, 6). Simboliza as provações, sofrimentos e perseguições que queimam a semente do evangelho. Atualmente, pode se manifestar nas pressões sociais e familiares, nas críticas e zombarias à fé.
3. Espinhos sufocantes (Mc 4:7). Representam as atrações do mundo, as ambições desordenadas, o consumismo e o amor aos bens materiais.
Se, na parábola, os desafios foram as aves, o sol ardente e os espinhos, nas grandes cidades esses obstáculos assumem novos nomes: consumismo, solidão digital, relativismo moral, busca pelo prazer imediato, individualismo, descrédito nas instituições religiosas, entre outros.
Embora os desafios sejam complexos, a promessa permanece: nenhuma semente lançada pelo semeador é em vão. O impacto da semeadura pode se manifestar de maneiras que, muitas vezes, não são imediatamente visíveis. “Talvez não se note logo o resultado dos esforços, mas não se pode desanimar. Falemos as palavras de Cristo. Trabalhemos de acordo com Seus planos. Devemos ir por toda parte, como Ele fez em Seu ministério na Terra” (Ellen G. White, Testemunhos Para a Igreja [CPB, 2021], v. 7, p. 32). Pequenos sinais de mudança e decisões silenciosas revelam a ação da semente plantada.
Portanto, “os mensageiros de Deus nas grandes cidades não devem se sentir desanimados com a impiedade, injustiça e depravação que são chamados a enfrentar enquanto procuram proclamar as alegres novas da salvação” (Ellen G. White, Ministério Para as Cidades [CPB, 2024], p. 27). Como disse o Senhor a Paulo: “Não tenha medo! Pelo contrário, fale e não fique calado, porque Eu estou com você, e ninguém ousará lhe fazer mal, pois tenho muito povo nesta cidade” (At 18:9, 10).
Resultados
Das quatro sementes lançadas, apenas uma enraizou, cresceu e frutificou. Podemos observar algumas características essenciais que influenciaram o desenvolvimento dessa semente:
1. “Boa terra”. Representa aqueles que recebem a Palavra com entusiasmo, mesmo em meio ao barulho e às distrações da vida.
2. “Ouvem a Palavra”. Não se trata apenas de captar um som inteligível, mas de perceber intimamente a comunicação divina. São pessoas receptivas, curiosas e dispostas a ouvir.
3. “Guardam”. Significa reagir favoravelmente, considerar a mensagem certa e apropriada, internalizando-a e vivendo de acordo com ela como novas criaturas (2Co 5:17). Como resultado, produzem o fruto do Espírito: “amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, bondade, mansidão, domínio próprio” (Gl 5:22, 23).
A semente da verdade, quando plantada e enraizada no coração, produz muitos frutos para o reino de Deus. Embora os resultados da semeadura dependam da ação do Espírito Santo (Jo 16:8), cabe a nós sair e semear com uma atitude abnegada de amor e serviço. O evangelho precisa correr pelas avenidas como corre o fluxo dos carros.
Quando as cidades forem trabalhadas como Deus deseja, o resultado será a atuação de um poderoso movimento como nunca foi testemunhado. Em um tempo repleto de ruídos, distrações e crises, o convite de Jesus permanece atual: “Vão por todo o mundo e preguem o evangelho a toda criatura” (Mc 16:15). O campo está pronto, as sementes estão em nossas mãos e a missão cristã continua viva! 
RODRIGO GUERRA DA FONSECA é pastor em Goiânia (GO)
(Artigo publicado na Revista Adventista de dezembro/2025)


