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Missão de ensinar

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Escrito por A Redação

A origem e o propósito da Rede Educacional Adventista, que completa 130 anos no Brasil

Douglas Menslin

Na última década do século 19, a Igreja Adventista iniciou um movimento acelerado em favor das missões, o que transformou profundamente o perfil do adventismo. Assim como ocorreu com outras denominações protestantes –entre elas batistas, presbiterianos e metodistas –, o impulso evangelístico influenciou diretamente a expansão educacional da igreja. As escolas passaram a ser vistas como essenciais para formar missionários, o que levou à ampliação do número de institutos bíblicos e colégios, com o objetivo de treinar o maior contingente possível de jovens.

Rede de escolas confessionais

A chegada desses missionários em solo estrangeiro estimulou o desenvolvimento de um novo modelo educacional. Segundo George Knight, o crescimento do campo missionário impactou a expansão educacional adventista em pelo menos dois aspectos: “Primeiro, fez crescer grandemente o número de escolas e alunos na América do Norte, pois a maioria dos primeiros obreiros adventistas saíram dos Estados Unidos. Segundo, os adventistas começaram a estabelecer escolas ao redor do mundo para que obreiros pudessem ser preparados em seu próprio território. Assim, por volta de 1900, não somente as instituições educacionais adventistas tinham expandido de modo significativo em número, mas o sistema se tornara internacionalizado”.1

Houve ainda outro fator positivo nesse processo de desenvolvimento institucional até então sem precedentes. Além de igrejas e escolas, os adventistas fundaram hospitais, editoras e indústrias de alimentos saudáveis em várias partes do mundo. Esperava-se que as instituições de ensino formassem um número crescente de pessoas para atuar nos diferentes ramos da obra adventista, além daqueles dedicados especificamente à evangelização. Esse movimento marcou o início do processo de institucionalização não apenas da denominação, mas também da Educação Adventista, agora com alcance internacional.

Passados mais de 150 anos, a rede educacional adventista está consolidada em todos os continentes e presente em 165 países. Ao todo, mais de 2 milhões de alunos estudam em cerca de 9,5 mil unidades escolares, que vão da educação básica ao nível universitário.2 Vale ressaltar que, embora esteja distribuída ao redor do mundo, a rede é uma só, com diretrizes e orientações filosóficas unificadas, adaptando-se, quando necessário, às normas educacionais de cada país. Isso a torna a segunda maior rede de ensino confessional do planeta, sendo superada apenas pela rede educacional da Igreja Católica.

A Educação Adventista em solo brasileiro

No Brasil, o início da educação adventista não foi diferente no que se refere ao objetivo de oferecer suporte aos filhos dos membros da igreja. Logicamente, para que existissem escolas era necessário que houvesse adeptos da denominação religiosa. Ruy Carlos de Camargo Vieira, ao comentar sobre o início da Igreja Adventista no Brasil, afirmou: “O primeiro adventista do sétimo dia a visitar o Brasil foi L. C. Chadwick, que permaneceu no Rio de Janeiro por várias semanas, em agosto de 1892. Em maio de 1893, veio o primeiro colportor adventista, [Augusto] B. Stauffer […]. Stauffer trabalhou primeiro em São Paulo e, então, sucessivamente no Rio de Janeiro e nos estados do Rio Grande do Sul (1894) e Espírito Santo (1895).”3

O trabalho desses colportores alemães foi de grande importância não apenas para o desenvolvimento da denominação, mas também para o início da educação adventista no Brasil. Em 1895, enquanto atuava na região de Indaiatuba e Piracicaba, Stauffer encontrou um jovem de 24 anos chamado Guilherme Stein Jr., pertencente a uma promissora família suíça-alemã que, assim como outras famílias europeias, havia se estabelecido no interior do estado de São Paulo. Esse jovem adquiriu de Stauffer um livro em alemão e, após lê-lo e compará-lo com a Bíblia, aceitou a mensagem adventista. Em abril daquele ano, Guilherme Stein Jr. tornou-se o primeiro converso da Igreja Adventista no Brasil.

Essa informação é importante também para identificar o início da educação adventista no país, pois, após sua conversão, Stein Jr. aceitou o convite para ser o primeiro professor da primeira escola adventista do Brasil, fundada em 1896, na cidade de Curitiba (PR).

A escolha da cidade para a fundação da primeira escola adventista deveu-se ao fato de que a evangelização adventista no Brasil começou entre imigrantes alemães. Como a maior concentração dessas colônias estava distribuída pelos estados de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, Curitiba se mostrava o ponto mais central para os líderes do movimento adventista.4

Ao analisar o crescente interesse da igreja, na época, em manter escolas paroquiais, Paulo Azevedo afirmou: “Os pioneiros tinham a visão de que a escola era, em essência, uma forma dinâmica e sólida de expandir a Igreja Adventista na América do Sul. Eles aceitavam e praticavam o conselho de Ellen White de que, em todas as nossas igrejas, deve haver escolas. Para eles, a escola adventista era um elemento fundamental de expansão da igreja.”5

Naquela época, 42% das igrejas possuíam escolas, e muitos dos alunos mais velhos que as frequentavam decidiam tornar-se missionários, contribuindo para a expansão da mensagem adventista em outros estados. Esse movimento foi decisivo para o avanço e o crescimento da igreja em todo o país.

Hoje, no Brasil, existem 340 unidades escolares, que atendem 288.162 alunos nos três níveis educacionais, dos quais 19% pertencem à denominação adventista.6 No país com o maior número de alunos matriculados na rede, a Educação Adventista consolidou-se como um dos sistemas de ensino mais respeitados em seu território.

Conclusão

Se a educação adventista começou com uma visão bem definida – preparar missionários para a expansão da denominação ao redor do mundo –, esse mesmo propósito acabou transformando a iniciativa missionária em uma ampla rede de ensino confessional. Isso porque os próprios missionários compreenderam que a educação poderia ser uma grande aliada no processo de evangelização.

Uma sobrepõe à outra? De maneira nenhuma! Ambas se complementam quando o ideário confessional permanece bem definido e é praticado por todos os envolvidos no processo educacional.

Tanto a visão missionária quanto a educação confessional podem atuar conjuntamente com o propósito de expandir a própria igreja que a sustenta. Da mesma forma, ambas podem cumprir o papel de proteger e preservar os valores da denominação entre os alunos adventistas que estudam em suas unidades escolares.

O que observamos aqui não é uma disputa ou competição por espaços ou protagonismos, mas o compartilhamento de propósitos que convergem para um único objetivo: a expansão do Reino de Deus.

DOUGLAS MENSLIN é doutor em Educação e atua como vice-presidente da sede da Igreja Adventista para oito países da América do Sul

Referências

George Knight, “A dinâmica da expansão educacional”, em A Educação Adventista no Brasil (Unaspress, 2004).

2 Adventist Yearbook, 2023.

3 Ruy Carlos de Camargo Vieira, Vida e Obra de Guilherme Stein Jr. (CPB. 1995).

4 Renato Gross, Colégio Internacional de Curitiba (Collins, 1996).

5 Paulo Azevedo, “O Ensino Adventista de Nível Médio no Brasil”, em A Educação Adventista no Brasil (Unaspress, 2004).

6 Divisão Sul-Americana da IASD, Departamento de Educação, 2025.

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A Redação

Equipe da Revista Adventista

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