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Escrito por A Redação

Compreendendo o Espírito Santo à luz dos escritos de Ellen White

Merlin Burt

A doutrina de Deus é um ensinamento cristão fundamental. A compreensão bíblica dos adventistas sobre a Trindade nos auxilia a entender a natureza, os atributos e o caráter divino. Nas últimas décadas, houve um volume significativo de pesquisas sobre a história da compreensão da Divindade pela Igreja Adventista do Sétimo Dia, especialmente em relação ao papel de Jesus nela. Contudo, há menos textos disponíveis sobre a relação entre Ellen White e a compreensão adventista a respeito do Espírito Santo. Este artigo examina a interpretação da autora sobre o Espírito Santo, ressaltando o impacto de suas afirmações na compreensão adventista e avaliando a veracidade de suas declarações mais explícitas sobre a natureza do Espírito Santo.

De 1844 até os anos 1890

Ellen White escreveu amplamente sobre a pessoa do Espírito Santo, mencionando-O quase tão frequentemente quanto à pessoa de Jesus. Desde seus primeiros escritos e ao longo de sua vida, ela seguiu três orientações significativas referentes ao Espírito Santo e à Divindade. Primeiramente, destacou a personalidade de Deus Pai e de Jesus. Entre 1845 e 1846, houve um segmento dos adventistas mileritas que afirmava que Cristo havia retornado de forma espiritual em 22 de outubro de 1844. Esse grupo também espiritualizava a ressurreição, o Céu, a Nova Jerusalém, a Nova Terra, bem como o Pai e a Jesus. Em 1846, Ellen White escreveu sobre a afirmação da personalidade do Pai e de Jesus: “Vi um trono, e nele estavam sentados o Pai e Seu Filho, Jesus Cristo. Olhei fixamente o semblante de Jesus e admirei Sua adorável pessoa. […] Perguntei a Jesus se Seu Pai tinha forma semelhante à Dele; Ele disse que sim, mas eu não podia contemplá-Lo.”1

Tiago White e José Bates, outros cofundadores da Igreja Adventista, também se opuseram à visão espiritualizada e, por meio da imprensa, defenderam a personalidade de Jesus e do Pai.2

Em segundo lugar, assim como os adventistas em geral, Ellen White entendia o Espírito Santo de maneira prática e demonstrável. A obra do Espírito Santo era evidente e dinâmica em sua experiência cristã e seu ministério. Ela teve centenas de visões e sonhos proféticos e frequentemente vivenciou bênçãos extraordinárias por meio da ação do Espírito Santo. Nos primeiros anos de seu ministério profético, Ellen White enfrentou críticas de pessoas que acreditavam que suas visões eram fruto de hipnotismo e que não havia Espírito Santo. Isso lhe causou uma “terrível angústia, quase ao ponto do desespero”.

Ela escreveu: “Muitos queriam fazer-me crer que não havia Espírito Santo e que tudo quanto os homens santos de Deus haviam experimentado não era senão mesmerismo ou enganos de Satanás.”3

Por fim, seu entendimento sobre o Espírito Santo foi fundamentado e centrado na Bíblia. Assim como outros pioneiros adventistas, ela era, antes de tudo, uma estudiosa das Escrituras, tomando cuidado especial para não se afastar da Bíblia em suas descrições do Espírito Santo.

Em 1891, Ellen White respondeu a um homem que pensava que o Espírito Santo era, de fato, o anjo Gabriel, e que os 144 mil seriam judeus que aceitariam Jesus como Messias. Após apresentar princípios fundamentais de interpretação bíblica, ela tratou do tema: “Suas ideias sobre os dois assuntos mencionados não se harmonizam com a luz que me foi dada por Deus. A natureza do Espírito Santo é um mistério não claramente revelado, e você jamais será capaz de explicá-lo a outros, porque o Senhor não lhe revelou.” Ela prosseguiu, mencionando João 14:16: “Isso se refere à onipresença do Espírito de Cristo, chamado Consolador.” Então admitiu as limitações de seu próprio entendimento: “Há muitos mistérios que não procuro compreender nem explicar; eles são muito elevados para mim e para você. Sobre alguns desses pontos, o silêncio é ouro.”4

Na falta de um discernimento especial sobre a natureza e a personalidade do Espírito Santo, ela se manteve firme com as Escrituras e, ao contrário de outros pioneiros adventistas, não definiu a personalidade do Espírito Santo. Isso, no entanto, mudaria em breve.

A partir dos anos 1890

Dois anos depois, em 1893, ela escreveu: “Geralmente, muito pouco tem sido feito da obra de influência do Espírito Santo sobre a igreja. […] O Espírito Santo é o Consolador em nome de Cristo. Ele personifica Cristo, porém é uma personalidade distinta.”5

Em 1896, ela mencionou as palavras de Jesus em João 16:7 e 8 e fez sua declaração mais explícita sobre o Espírito Santo como uma Pessoa da Divindade: “O poder do mal estivera se fortalecendo por séculos, e a submissão das pessoas a esse cativeiro satânico era alarmante. O pecado só poderia ser resistido e vencido por meio da poderosa atuação da terceira pessoa da Divindade, a qual viria não com energia modificada, mas na plenitude do poder divino.”6 Não há evidências de que ela tenha recebido alguma visão especial que a motivasse a escrever de forma mais explícita sobre o Espírito Santo. No entanto, como mensageira do Senhor, ela se tornou bastante específica sobre esse assunto na década de 1890. Ao longo de sua vida, ela manteve seu apoio à personalidade e à plena divindade do Espírito Santo.7

Por exemplo, Ellen White costumava mencionar João 14–16 e ao Consolador levando a presença de Jesus ao fiel. Ela prosseguiu com esse assunto ao mesmo tempo em que apresentava o Espírito Santo como a terceira Pessoa da Divindade. Ela escreveu: “Embora nosso Senhor tenha ascendido da Terra ao Céu, o Espírito Santo foi designado como Seu representante entre os seres humanos.” Ao citar João 14:15-18, prosseguiu: “Impedido pela humanidade, Cristo não podia estar pessoalmente em todo lugar; portanto, era para total benefício deles que deveria deixá-los, ir para o Pai e enviar o Espírito Santo como Seu sucessor na Terra.”8

Ellen White se sentia à vontade com a tensão entre o fato de o Espírito Santo ser uma Pessoa e, ao mesmo tempo, representante de Jesus. Uma particularidade da Trindade bíblica é que cada Pessoa indica ou representa as outras (Mateus 3:17; 17:5; Marcos 1:11; 9:7; Lucas 3:22; 9:35).

“Isto” e “Ele”

Em 1936, H. C. Lacey afirmou que sua série de estudos bíblicos matinais, apresentada em 1895 durante a reunião campal de Armidale, e sua exposição em 1896, em um congresso em Cooranbong, Austrália, influenciou Ellen White a aceitar a personalidade do Espírito Santo. Lacey levantou a hipótese de que, antes da apresentação de seus estudos, ela não tinha utilizado o termo “Pessoa” nem se referido ao Espírito Santo com o pronome pessoal “Ele”.9

Contrariando a sugestão de Lacey, uma avaliação das declarações de Ellen White revela que ela empregou o termo “Pessoa” ao se referir ao Espírito Santo já em 1893. Contudo, antes e depois de afirmar explicitamente a personalidade do Espírito Santo, ela empregou os pronomes “Isto” e “Ele” de forma intercambiável.

Em 1884, ela afirmou: “O Espírito Santo exalta e glorifica o Salvador. É sua obra apresentar Cristo.”10 Em 1891, escreveu sobre “o Espírito Santo trabalhando em nosso coração”. E continuou: “[Ele] toma as coisas de Deus e as apresenta de nova maneira à nossa mente”.11 Em uma declaração proferida em 1898, ela expressou de forma clara a personalidade do Espírito Santo: “Quando o Espírito de Deus toma posse do coração, transforma a vida.”12 Em 1900, declarou: “Em verdade, o Espírito Santo saiu a todo o mundo; Ele atua no coração das pessoas em toda parte.”13

O livro O Desejado de Todas as Nações não só contribui para a compreensão da personalidade do Espírito Santo, como também ensina de forma clara a eternidade de Jesus e Sua completa igualdade com o Pai. A afirmação: “Em Cristo, há vida original, não emprestada, não derivada”,14 ao lado de outras declarações sobre a divindade de Jesus, auxiliou muitos adventistas a reavaliar as Escrituras a fim de entender o papel de Cristo na Divindade.

Veracidade das declarações

Há quem acredite na autoridade profética dos escritos de Ellen White, mas rejeite a personalidade do Espírito Santo e seu papel na Trindade. No entanto, esses textos colocam essas pessoas em situação complicada. Em resposta, geralmente alegam que secretárias ou editores de Ellen White incluíram as declarações sem o conhecimento dela. Em 2006, Tim Poirier, que foi diretor associado do Patrimônio Literário de Ellen G. White, publicou uma monografia esclarecedora na qual rastreou essas afirmações até sua fonte original.

Rascunhos originais de pelo menos quatro declarações de Ellen White estão disponíveis.15 Outros documentos podem ser acessados na forma impressa original, contendo anotações manuscritas nas páginas.16 No topo de um desses documentos, encontra-se a seguinte anotação: “Tenho lido cuidadosamente sobre isso, e o tenho aceitado.”17Algumas dessas declarações foram divulgadas de diversas maneiras. A escritora arcou com os custos de publicação das chapas de O Desejado de Todas as Nações e de outras obras. Além disso, após a publicação da primeira edição de O Desejado de Todas as Nações, ela fez correções na segunda edição. O nível de veracidade de suas declarações é considerável, e os editores têm dificuldade em sustentar que ela não tenha escrito as afirmações publicadas.

Os adventistas do sétimo dia acreditam que Ellen White recebeu o dom profético. Suas declarações exerceram uma influência considerável no desenvolvimento da compreensão adventista da Trindade, especialmente ao apoiar a natureza eterna e original de Jesus, além da plena divindade e personalidade do Espírito Santo. No entanto, as doutrinas adventistas se baseiam na autoridade das Escrituras. Ellen White entendia que sua função profética era guiar um povo a reconhecer a Bíblia como autoridade suprema e base de toda fé e prática.18

Em várias situações, ela definiu a relação entre seus escritos e a Bíblia. Em uma de suas afirmações mais fascinantes, ela descreveu seu ofício profético: “Eu tenho uma obra de grande responsabilidade para fazer – comunicar por escrito e de viva voz as instruções a mim concedidas, não somente para os adventistas do sétimo dia, mas para o mundo. Publiquei muitos livros, grandes e pequenos, e alguns deles foram traduzidos para várias línguas. Esta é minha obra: revelar para outras pessoas as Escrituras, assim como Deus a mim as revelou.”19

Temos uma visão bíblica mais abrangente sobre o Espírito Santo devido aos escritos de Ellen White. Devemos agradecer a Deus por nos ter guiado ao longo da história da igreja para construir uma compreensão bíblica, por meio da atuação do Espírito Santo no dom de profecia. 

MERLIN BURT é diretor do Patrimônio Literário de Ellen G. White, em Silver Spring, EUA

Referências

Ellen Harmon, Day Star, 14/3/1846, p. 7.

James White, Review and Herald, 11/12/1855, p. 85.

Ellen G. White, Primeiros Escritos (CPB, 2022), p. 38.

Ellen G. White, Carta ao irmão Chapman11/06/1891, em Manuscript Releases
(White Estate, 1990), v. 14, p. 175, 179.

Ellen G. White, Manuscript Releases (White Estate, 1993), v. 20, p. 323, 324.

Ellen G. White, O Desejado de Todas as Nações (CPB, 2021), p. 540.

Por exemplo, Ellen G. White, Filhas de Deus (CPB, 2024), p. 183-185.

Ellen G. White, Carta 119, 1895.

H. C. Lacey a W. C. White, 17/07/1936 (Center for Adventist Research, Andrews University).

10 Ellen G. White, Signs of the Times, 03/04/1884, p. 209.

11 Ellen G. White, Review and Herald, 25/08/1891, p. 529.

12 White, O Desejado de Todas as Nações, p. 128.

13 Ellen G. White, Parábolas de Jesus (CPB, 2022), p. 35.

14 White, O Desejado de Todas as Nações, p. 423.

15 Tim Poirier, Ellen G. White’s Trinitarian Statements, Manuscrito 93,1893; Manuscrito 57, 1900; Manuscrito 20, 1906; Manuscrito 21, 1906.

16 Carta 8, 1896; Manuscrito 27a, 1900; Manuscrito 57, 1900; Manuscrito 20, 1906; Manuscrito 21, 1906.

17 Manuscrito 20, 1906.

18 Ellen G. White, A Sketch of the Christian Experience and Views of Ellen G. White (1851), p. 64.

19 Ellen G. White, Testemunhos Para a Igreja (CPB, 2021), v. 8, p. 194.

* A versão completa deste artigo encontra-se em <https://www.ministrymagazine.org/archive/2012/04/ellen-white-and-the-personhood-of-the-holy-spirit>

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