Titus Naftanaila
Como podemos reverter a diminuição da frequência às igrejas para promover transformação, reavivamento e crescimento, criando uma cultura comunitária fundamentada na hospitalidade? Um programa intencional voltado para o acolhimento e aceitação de novos visitantes e membros ausentes pode revitalizar uma igreja estagnada?
É amplamente aceito que a frequência às igrejas diminuiu consideravelmente em várias partes do mundo. Mesmo entre a maioria das populações em países autodenominados cristãos, muitos indivíduos não se envolvem regularmente nas atividades e nos programas eclesiásticos. Muitas congregações adventistas estão enfrentando estagnação ou declínio, especialmente em países ocidentais e entre as gerações mais jovens.
Muitas igrejas se veem como comunidades receptivas e amigáveis para os novos visitantes. Essa percepção se fundamenta, em grande medida, nos sentimentos positivos que os membros experimentam ao se relacionarem com amigos e conhecidos, além da cordialidade superficial frequentemente oferecida aos visitantes. Além do mais, eles acreditam que os cultos e as várias atividades oferecidas proporcionam oportunidades naturais para estabelecer conexões e desenvolver o senso de pertencimento.
A percepção dos visitantes e a visão da igreja sobre hospitalidade genuína costumam estar desalinhadas. Apesar de os recém-chegados poderem se impressionar com os cultos, programas ou atividades, eles ainda podem se sentir desconectados da comunhão interna da igreja, o que pode resultar na interrupção total de sua frequência.
Para mudar essa situação, especialistas em crescimento de igrejas sugerem a formação de comunidades autênticas dentro da congregação e a promoção de uma cultura de hospitalidade intencional, que afeta diretamente o crescimento espiritual e numérico. Por isso, convido você a refletir sobre alguns aspectos essenciais da abordagem comunitária de hospitalidade.
Vida em comunidade
Os seres humanos foram criados para viver em harmonia com a divindade e entre si. Deus fez Adão e Eva para espelharem a relação entre os membros da Trindade, que é intensamente ligada pelo amor, pelo suporte mútuo e pela sensação de plenitude.
A afirmação bíblica “não é bom que o homem esteja só” (Gn 2:18) é comumente citada no contexto do matrimônio. Contudo, ela também pode ser vista como um exemplo da importância de todas as interações humanas. A declaração “melhor é serem dois do que um” (Ec 4:9) serve como um lembrete poderoso da necessidade de interdependência e do apoio recíproco.
Deus não nos fez para vivermos sozinhos; essa condição é consequência do pecado. Fomos projetados para interagir e auxiliar uns aos outros, com cada pessoa focada no crescimento e desenvolvimento do próximo.
A igreja foi criada por Jesus com o mesmo objetivo da família e de outros grupos fundamentais de apoio: restaurar a ideia de comunidade, proporcionando suporte emocional e espiritual a todos. Os apóstolos foram capacitados e orientados a estabelecer um ambiente que favorecesse a aceitação, o altruísmo e a inclusão de todos os envolvidos nas atividades e programas da igreja.
O Novo Testamento contém várias metáforas que enfatizam o caráter coletivo da igreja. Expressões como “reino de Deus” (Mc 1:15; Jo 18:36), “templo de Deus” (1Co 3:16, 17), “família de Deus” (Mt 12:49, 50) e “corpo de Cristo” (1Co 12:27; Ef 1:22) retratam de maneira significativa o conceito de comunidade entre os fiéis, destacando a conexão coletiva com Jesus Cristo em vez do individualismo.
Adoração, comunhão, discipulado, serviço compassivo e propagação do reino de Deus eram componentes fundamentais das reuniões no Novo Testamento. A união em Cristo era fortemente encorajada como um elemento essencial da jornada cristã. Cristãos e visitantes oravam, liam as Escrituras, cantavam hinos, ouviam sermões, louvavam a Deus, participavam da Ceia do Senhor e eram batizados como um ato coletivo de adoração.
Teologia da hospitalidade
Amor, cordialidade e acolhida calorosa ao próximo são elementos fundamentais nas relações humanas e estão frequentemente ligados ao conceito de hospitalidade. Eles são amplamente evidenciados em toda a narrativa bíblica, do Gênesis ao Apocalipse. Esse princípio retrata a essência da natureza divina como o Anfitrião supremo. Desde o início, Deus acolheu a humanidade e criou um vínculo especial com ela, concedendo a todos Sua graça amorosa e aceitação.
No âmbito espiritual, Deus desempenha o papel de anfitrião na adoração, convidando a todos para se unirem ao Seu reino na Terra. Além disso, Jesus veio para expandir a aceitação e a comunidade divina no contexto da salvação e redenção dos perdidos. A declaração “venham a Mim, todos vocês que estão cansados e sobrecarregados, e Eu os aliviarei” (Mt 11:28) ilustra isso.
Como casa de Deus, a igreja também é convocada a ser Sua representante, exercendo a teologia da hospitalidade de maneira inclusiva e atendendo às demandas emocionais, físicas e espirituais de todos. Isso não é uma escolha, mas a essência do cristianismo, que se baseia na promessa de Jesus de que Ele atrairia todos a Si mesmo (cf. Jo 12:32).
Em outras palavras, a hospitalidade na igreja vai além de um conjunto de técnicas ou estratégias voltadas para atrair e manter visitantes com base em suas necessidades e interesses comuns. Também não se trata de um dom espiritual ou de uma habilidade reservada a um grupo específico. Em vez disso, ela reflete as qualidades divinas e a principal missão de Jesus: convidar todos a estabelecer uma aliança de amor com Ele.
Verdadeira comunhão
A igreja apostólica destacava a relevância da comunhão como fundamental para o discipulado e desenvolvimento espiritual. Ao mencionar os que foram batizados e integrados à igreja, Lucas declarou: “E perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão, no partir do pão e nas orações” (At 2:42). Os novos membros eram convidados a se envolverem na comunhão da igreja não só para receber apoio social, mas também para se unir à adoração em grupo e aos programas de discipulado.
O Novo Testamento deixa claro o vínculo entre fazer parte do corpo de Cristo e o desenvolvimento espiritual de cada pessoa, tudo isso no âmbito da comunhão com Deus. O apóstolo João escreveu: “para que também vocês tenham comunhão conosco. Ora, a nossa comunhão é com o Pai e com o Seu Filho, Jesus Cristo” (1Jo 1:3). Os novos cristãos eram incentivados a seguir Jesus (Cl 2:6), examinar-se para verificar se estavam “na fé (2Co 13:5), serem crucificados com Jesus e permitir que Ele vivesse neles (Gl 2:20; Ef 3:17-19), manter o foco nas coisas do alto (Cl 3:1) e “acrescentar” constantemente à sua fé (2Pe 1:4-10).
Portanto, toda igreja que deseja crescer por meio da hospitalidade comunitária deve adotar três passos essenciais. Primeiramente, é importante encorajar os membros a promover um ambiente acolhedor de maneira intencional antes, durante e após a adoração, especialmente quando esse acolhimento vai além do tempo e do espaço das reuniões em grupo. Todos os programas e atividades devem refletir o espírito de comunidade, pertencimento e inclusão, como manifestação do desejo de Deus de acolher e receber a todos em uma relação especial com Ele e Sua igreja.
Em segundo lugar, é necessário capacitar todos os líderes e ministérios que possuem responsabilidades diretas ou indiretas no acolhimento, na formação da comunidade e na integração de visitantes e novos membros. É preciso estabelecer diferentes graus de acolhimento e hospitalidade, e todos os programas e atividades da igreja devem ser avaliados e ajustados conforme necessário.
Em terceiro lugar, criar oportunidades para que visitantes e membros desenvolvam conexões mais profundas, baseadas no amor, na aceitação e no apoio mútuo. Para melhorar o senso de pertencimento e integração, devem ser empregadas abordagens criativas, tanto em cultos corporativos quanto em pequenos grupos ou eventos sociais.
Ao contrário das técnicas manipulativas ou superficiais empregadas para atrair e manter novos membros, a hospitalidade genuína é essencial para o desenvolvimento espiritual e numérico da igreja. O senso de comunidade e o ministério do acolhimento estão profundamente ligados à essência de Deus e integram a grande comissão. Por intermédio do Espírito Santo, o Senhor forma uma comunidade e chama a igreja para ser Sua representante na Terra. O ministério da hospitalidade não é um aspecto separado do discipulado ou do evangelismo. Quando visto à luz da Bíblia é, de fato, um modo de viver: o evangelismo em sua essência mais pura. 
TITUS NAFTANAILA é presidente da Igreja Adventista para o estado de Wisconsin (EUA)
(Artigo publicado na edição de novembro/2025 da Revista Adventista / Adventist Review)


